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#Romances#Literatura Portuguesa

Amor de Perdição

Por Camilo Castelo Branco (1862)

Desde este dia, um secreto júbilo endoidecia o coração de Mariana. Não inventemos maravilhas de abnegação. Era de mulher o coração de Mariana. Amava como a fantasia se compraz de idear o amor duns anjos que batem as asas de baile em baile, e apenas quedam o tempo preciso para se fazerem ver e adorar a um reflexo de poesia apaixonada. Amava, e tinha ciúmes de Teresa, não ciúmes que se refrigeram na expansão ou no despeito, mas infernos surdos, que não rompiam em labareda aos lábios, porque os olhos se abriam prontos em lágrimas para apagá-la. Sonhava com as delícias do desterro, porque voz humana alguma não iria lá gemer à cabeceira do desgraçado. Se a forçassem a resignar a sua inglória missão de irmã daquele homem, resigná-la-ia, dizendo: — "Ninguém lhe adoçará as penas tão desinteressadamente como o eu fiz".

E, contudo, nunca vacilou em aceitar da mão de Teresa ou da mendiga as cartas para Simão. A cada vinco de dor que a leitura daquelas cartas sulcava na fronte do preso, Mariana, que o espreitava disfarçada, tremia em todas as fibras do seu coração, e dizia entre si: — "Para que há de aquela senhora amargurar-lhe a vida?"

E amargurava acerbamente a desditosa menina!

Ressurgiram naquela alma esperanças, que não deviam durar além do tempo necessário para que a desilusão lhe acrisolasse o infortúnio. Imaginara ela a liberdade, o perdão, o casamento, a ventura, a coroa do seu martírio. A5 suas amigas matizavam-lhe a tela da fantasia, umas porque não conheciam a atroz realidade das coisas, outras porque fiavam em demasia nas orações das virtuosas do mosteiros. Se os vaticínios das profetisas se realizassem, Simão sairia da cadeia, Tadeu de Albuquerque morreria de velhice e de raiva, o casamento seria um ato indisputável, e o céu dos desgraçados principiaria neste mundo.

Porém, Simão Botelho, ao cabo de cinco meses de cárcere, já sabia o seu destino, e achara útil prevenir Teresa, para não sucumbir ao inevitável golpe da separação. Bem queria ele alumiar com esperanças a perspectiva negra do desterro; mas froixos e frios eram os alívios em que não era parte a convicção nem o sentimento. Teresa não podia sequer iludir-se, porque tinha no peito um despertador que a estava acordando sempre para a hora final, embora o semblante enganasse a condolência dos estranhos.

E, então, era o expandir-se em lástimas nas cartas que escrevia ao seu amigo; invocações a Deus, e sacrílegas apóstrofes ao destino; branduras de paciência e ímpetos de cólera contra o pai; o aferro à vida que lhe foge, e súplicas à morte.

No termo de sete meses o tribunal de segunda instância comutou a pena última em dez anos de degredo para a Índia. Tadeu de Albuquerque acompanhou a Lisboa a apelação, e ofereceu a sua casa a quem mantivesse de pé a forca de Simão Botelho. O pai do condenado, segundo assustador aviso que seu filho Manuel lhe dera, foi para Lisboa lutar com o dinheiro e as poderosas influências que Tadeu de Albuquerque granjeara na Casa da Suplicação e no Desembargo do Paço. Venceu Domingos Botelho, e, instigado mais do seu capricho que do amor paternal, alcançou do Príncipe Regente a graça de cumprir o condenado a sua sentença na prisão de Vila-Real.

Quando intimaram a Simão Botelho a decisão do recurso e a graça do Regente, o preso respondeu que não aceitava a graça; que queria a liberdade do degredo; que protestaria perante os poderes judiciários contra um favor que não implorava e que reputava mais atroz do que a morte.

Domingos Botelho, avisado da rejeição do filho, respondeu que fizesse ele a sua vontade; mas que a sua vitória dele sobre os protetores e os corrompidos pelo ouro do fidalgo de Viseu estava plenamente obtida.

Foi aviso ao intendente geral da polícia, e o nome de Simão Botelho foi inscrito no catálogo dos degredados para a Índia.

CAPÍTULO XIX

A verdade é algumas vezes o escolho de um romance.

Na vida real, recebemo-la como ela sai dos encontrados casos, ou da lógica implacável das coisas; mas, na novela, custa-nos a sofrer que o autor, se inventa, não invente melhor; e, se copia, não minta por amor da arte.

Um romance que estriba na verdade o seu merecimento é frio, é impertinente, é uma coisa que não sacode os nervos, nem a gente, sequer uma temporada, enquanto ele nos lembra, deste jogo de nora, cujos alcatruzes somos, uns a subir, outros a descer, movidos pela manivela do egoísmo.

A verdade! Se ela é feia, para que oferecê-la em painéis ao público!?

A verdade do coração humano! Se o coração humano tem filamentos de ferro que o prendem ao barro doente saiu, ou pesam nele e o submergem no charco da culpa primitiva, para que é emergi-lo, retratá-lo e pô-lo à venda!?

Os reparos são de quem tem o juízo no seu lugar; mas, pois que eu perdi o meu a estudar a verdade, já agora a desforra que tenho é pintá-la como ela é feia e repugnante.

A desgraça afervora ou quebranta o amor?

(continua...)

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