Por Camilo Castelo Branco (1869)
― Não sei – refletiu o general – como um facultativo de tanto merecimento se aclimatou em Barroso! ― À procura duma subsistência parca, bastantíssima à felicidade doméstica.
― Então é aqui feliz?
― Mais do que dizem que se pode ser neste mundo.
― É o primeiro homem que me responde isto! – maravilhou-se o general, volvendo a cabeça para o lado onde sentia gente. – Nunca foi infeliz?
― Fui apenas infeliz trinta e um anos.
― E quantos tem?!
― Trinta e três, senhor conde.
― Então a sua felicidade é recentíssima! Encontrou-a aqui?
― A perfeita, a inexcedível encontrei-a em Barroso.
― Tem família?
― Mulher, um filho e uma irmã.
― São as delícias da sua vida!... não são?
― Certamente... – respondeu Costa, espantado do tom dulcíssimo com que abemolara aquelas palavras a selvagem índole do pai de Ângela, e do amante de Maria d’Antas.
― Eu também fui casado – tornou o cego – e amei extremosamente minha mulher, que morreu de dor instantaneamente quando me viu ferido de morte em batalha. Compreendo esse sublime e sagrado amor de marido...
― E de pai?... Não tem vossa excelência a boa fortuna de ter filhos?
― Não... não tive... – balbuciou secamente o conde, e declinou a direção da prática, perguntado:
― Quando quer vossa senhoria que eu vá para a sua hospedeira casa?
― Amanhã, querendo vossa excelência. Hoje mando dar algumas ordens ao aposento que o senhor conde vai honrar.
― O senhor doutor!... beijo-lhe as mãos. E poderei chamar um escudeiro que me trata há muitos anos?
― Pois não! Esperarei vossa excelência, a menos que me não dê ordem de o acompanhar desde aqui...
― Não senhor – atalhou o fidalgo flaviense – eu acompanharei o meu amigo.
― Recebo as ordens de vossas excelências – disse Francisco José da Costa, e saiu.
― Este homem pareceu-me extraordinário! – considerou o conde. – Tem uns ares altivos, não tem?
― E mais vossa excelência não lhe viu a gravidade imponente do rosto! As maneiras são de boa sociedade, e o olhar tem uma penetração de águia. Eu estava a gostar de o ouvir.
― Também eu! Muito lhe devo, meu amigo! De mais a mais deu-me um operador simpático, com uma família que me há de aligeirar as horas? Muito lhe devo!
Entrou com tranqüila aparência o cirurgião em casa.
― Que tinha o conde? – perguntou Ângela.
― É cego, filha.
― Oh, coitado! E cura-se?
― Cura.
― Deus o permita. Vais operá-lo?
― Vem ele aqui operar-se.
Às Boticas?
A nossa casa.
― O conde vem para aqui!... Ai que casa esta!...
― Não te disse que ele é cego, menina?
― E que quarto lhe dás?
― O nosso.
― Então seja o meu – disse Joana.
― O nosso é melhor – tornou Francisco. – Cedes o teu quarto ao conde, Ângela?
― Pois sim, meu amor. Ele que homem é?
― Tem setenta anos.
― Tão velhinho! E vais operá-lo?
― Vou.
― De onde é ele?
― Veio de Ponte do Lima.
― De Ponte do Lima? De que família?
― Dos Noronhas Barbosas.
― Então é meu parente.
― É; é muito teu parente; é teu pai.
― Meu pai?!... Estás brincando, Francisco?
― O cego conde de Gondar que vem para tua casa é teu pai, Ângela: é o general Simão de Noronha.
― E ele sabe?... – exclamou Ângela, ofegante. – ele sabe...
― Para onde vem? Não nem quero que saiba depois que estiver cá. Desde que ele entrar, tu perdes o teu nome, e chamas-te?... como hás de chamar-te? Maria. Se sentires expansões de filha, hás de reprimi-las. pede-to o teu plebeu, o filho do sacristão honradíssimo que amou seus filhos com ternura, e se apartou deles prometendo-lhes vigiá-los do céu. O conde de Gondar aqui dentro é um doente que se trata. De comum entre nós há apenas operado e operador. Tu és a esposa de um, e a filha repulsa e abandonada do outro. Que te diz o coração, Ângela?
― Que ele é meu pai... e mais desgraçado que eu...
― Pois compadece-te, ama-o, mas não me impeças o restituir-lhe a vista. Quando ele te vir, há de ser tarde; mas podes vê-lo e falar-lhe contanto que imediatamente à operação, e mudados os apósitos, ele te não veja.
― Mas, logo que me veja, é provável que me reconheça...
― Se assim for, a tua dignidade te aconselhará. Sobretudo, é preciso que atendas aos créditos do cirurgião. Se sobrevierem febres em resultado de comoções violentas, perderei o prazer de mostrar ao conde de Gondar uma família feliz sem brasão no portal nem ouro nas arcas. Quando o conde souber em casa de quem está, desejo muito que a senhora de casa se faça tão-somente conhecer por filha de D. Maria d’Antas.
De onde se prova que as singulares utopias no amor dos dezoito anos semelhavam muito em Francisco Costa, aos trinta e três anos, umas singulares utopias de dignidade humana.
XXVIII CONFIDÊNCIAS DO CEGO
Batia alvoroçado o coração de Ângela quando ao longe tilintava a guisalhada da liteira, em que entrava nas Boticas o conde de Gondar. Joana e Vitorina, pasmadas da casualidade, faziam considerações muito religiosas sobre o caso.
Francisco saíra à extrema da aldeia para guiar o liteireiro. O cego, sabendo que o doutor o viera esperar, mandou parar o veículo, para apertar a mão do “segundo criador da sua luz”, dizia ele.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Os Brilhantes do Brasileiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1779 . Acesso em: 17 jun. 2026.