Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Portuguesa

A brasileira de Prazins

Por Camilo Castelo Branco (1882)

Depois do convénio de Gramido, Zeferino recolhera às Lamelas com alguns dos seus primitivos legionários. Ele tinha passado transes amargos. Juntara-se ao aventureiro Reinaldo MacDonnell, em Guimarães, quando o escocês descia do Marco de Canaveses para Braga; esteve nas barricadas da Cruz da Pedra quando o barão do Casal espatifou a resistência daqueles desgraçados iludidos pelo caudilho estrangeiro; foi dos primeiros a fugir por Carvalho de Este, a compreender a inutilidade da defesa, e por montes e vales deu consigo em Porto de Ave, e daqui foi para Guimarães, onde se aquartelaram o MacDonell com o seu estado-maior. Logo que chegou foi procurar o tenente-coronel Cerveira Lobo, que fazia parte do cortejo do general. Mandaram-no ao palacete do visconde da Azenha, onde o escocês se tinha aquartelado com o seu estadomaior. O Cerveira Lobo estava a beberricar conhaque velho copiosaimente sobre uma ceia farta, comida sem sobressaltos. À mesa, onde faiscavam os cristais dos licores, avultavam, cintilando os metais das suas fardas, o quartel-mestre-general Vitorino Tavares, de Fagilde, José Maria de Abreu, ajudante-de-ordens, o morgado de Pé de Moura, o Cerveira Lobo e o Sebastião de Castro, do Covo, comandante do batalhão de voluntários realistas de Oliveira de Azeméis, que arredondava 42 praças, e seu irmão António Carlos de Castro, ajudante-de-ordens do general – dois homens gentilmente valorosos; – o coronel Abreu Freire, morgado de Avanca, e o Bandeira de Estarreja que é hoje padre.

A noite era de 27 de Dezembro de 1846, muito fria. Bebia-se forte. A garrafeira da casa do Arco era um calorífico. O MacDonell, muito rubro, naquela bebedeira crónica que lhe assistiu na vida e na morte, esmoía a ceia passeando num vasto salão, de braço dado com uma formosa senhora da casa, D. Emília Correia Leite de Almada. Dirse- ia que o bravo septuagenário tinha vencido uma batalha decisiva, e procurava matizar com flores de Cupido os seus louros de Mavorte. E o Cerveira Lobo bebia e relatava proezas dos seus saudosos dragões de Chaves com gestos bélicos e as pernas desviadas como se apertasse nas coxas a sela de um cavalo empinado no fragor da peleja. Nisto entrou um camarada, às 11 da noite, a chamar apressadamente o quartel-mestre-general, que o procurava com muita urgência um capitão de atiradores do batalhão do Pópulo.

O Vitorino de Fagilde encontrou na sala de espera o capitão Pinho Leal , um robusto e jovialíssimo rapaz, de trinta anos, com uma fé política, antípoda da sua forte inteligência – uma espécie de poeta medieval com um grande amor romântico às catedrais e às instituições obsoletas e extintas. Ele tinha muitos destes camaradas visionários e respeitáveis na sua falange da Madre-Silva...

– Que há? – perguntou o quartel-mestre-general.

– Há que estamos cercados pelos Cabrais. Os nossos piquetes de Santa Luzia e do Castelo já foram atacados, e ouve-se fogo de fuzil em outros pontos. Veja lá o que quer que eu faça.

O Vitorino ficou passado de terror, e levou o capitão à sala em que o MacDonell passeava pelo braço de D. Emília Azenha, e o visconde, o hospedeiro fidalgo palestrava com numerosos hóspedes, cónegos, abades, capitãesmores, antigos magistrados. Pinho Leal repetiu ao escocês o que dissera ao seu quartel-mestre. Mas a dama assustada desprendeu-se do braço do general, e foi preparar os baús para a fuga; e os do estado-maior compeliram o general a fugir também. Era uma hora da noite quando o exército realista abandonou Guimarães e entrou na estrada de Amarante.

Pinho Leal inventara o ataque dos eabralistas para salvar-se a si e aos outros da carniçaria inevitável; porque, ao romper a manhã do dia seguinte, entraram em Guimarães seiscentos soldados do Casal ainda embriagados da sangueira de Braga. Reproduzem-se textualmente no seu estilo militarmente pitoresco os veracíssimos esclarecimentos de Pinho Leal: ...A besta do escocês continuava na sua pânria sem se importar da guerra para nada, e o mesmo faziam os da sua . Eu, vendo que de um momento para outro, podíamos ser surpreendidos e trucidadas pelos Cabrais, aproveitando a circunsttância de estar e tendo na casa da câmara um de cem homens, comandados pelo alferes José Maria (o morgado do Triste) dei-lhe a ele somente parte do que ia pôr em execução. Escolhi da gente do um sargento e quatro soldados da mesma companhia, de todo o segredo e confiança. Saí com eles por um beco e fui com eles pela frente dar uma descarga no nosso piquete de Santa Luzia, e outra no piquete do Castelo. Ao mesmo tempo, não sei quem é que estava num monte ao norte de Guimarães que deu uns poucos de tiros que muito ajudaram o meu plano. O em vista da nossa prévia combinação, mandou tocar a reunir e formou o suporte debaixo dos Arcos da Câmara. Eu e os meus cinco homens viemos sorrateiramente metermo-nos na vila. Fui a tempo em que já na Praça da Oliveira estava muita gente armada .

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...4950515253...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →