Por Eça de Queirós (1900)
- Realmente! sois todos surdos, nesta pobre casa!... Além disso a porta do pomar fechada! Tivede lhe atirar um empurrão. Ficou em pedaços.
Então um dos moços, o mais alentado, ruivo, com um queixo de cavalo, pensando que o Fidalgo censurava a frouxidão da porta pouco cuidada, coçou a cabeça, numa desculpa:
- Pois, com perdão do Fidalgo!... Mas já depois da saída do Relho se lhe pôs uma travessa efechadura nova... E valente!
- Qual fechadura! - gritou o Fidalgo soberbamente. - Despedacei a fechadura, despedacei atravessa... Tudo em estilhas!
O outro moço, mais desembaraçado e esperto, riu, para agradar:
- Santo nome de Deus!... Então, é que o Fidalgo lhe atirou com força!
E o companheiro, convencido, espetando O queixo enorme:
- Mas que força! a matar! Que a porta era rija... E fechadura nova, já depois do Relho!
A certeza da sua força, louvada por aqueles fortes, reconfortou inteiramente o Fidalgo da Torre, já brando, quase paternal:
- Graças a Deus, para arrombar uma porta, mesma nova, não me falta força. O que eu nãopodia, por decência, era arrastar aí por essas estradas um bêbedo com uma foice até casa do Regedor... Foi para isso que chamei, que gritei. Para que vocês o agarrassem, o levassem ao Regedor!... Bem, acabou. Oh! Rosa, dê a estes rapazes, para a ceia, mais uma caneca de vinho... A ver se para outra vez se afoutam, se aparecem...
Era agora como um antigo senhor, um Ramires de outros séculos, justo e avisado, que repreende uma fraqueza dos seus solarengos - e logo perdoa por conta e amor das façanhas próximas. Depois com a bengala ab ombro, como uma lança, subiu pela lôbrega escada da cozinha. E em cima no quarto, apenas o Bento entrara para o vestir, recomeçou a sua epopéia, mais carregada, mais terrifica - assombrando o sensível homem, estacado rente da cômoda, sem mesmo pousar a infusa d'água quente, as botas envernizadas, a braçada de toalhas que o ajoujavam... O Casco! O José Casco das Bravais, bêbedo, rompendo para ele, sem o conhecer, com uma foice enorme, a berrar - "Morra, que é marrão!... E ele na estrada, diante do bruto, de bengalinha! Mas atira um salto, a foiçada resvala sobre um tronco de pinheiro... Então arremete desabaladamente, brandindo a bengala, gritando pelo Ricardo e pelo Manuel como se ambos o escoltassem - e ataranta o Casco, que recua, se some pela azinhaga, a cambalear, a grunhir...
- Hem, que te parece? Se não é a minha audácia, o homem positivamente me ferra um tiro de espingarda!
O Bento, que quase se babava, com o jarro esquecido a pingar no tapete, pestanejou, confuso, mais atônito:
- Mas o Sr. Dr. disse que era uma foice!
Gonçalo bateu o pé, impaciente:
- Correu para mim com uma foice. Mas vinha atrás do carro... E no carro trazia uma espingarda.O Casco é caçador, anda sempre de espingarda... Enfim estou aqui vivo, na Torre, por mercê de Deus. E também porque felizmente, nestes casos, não me falta decisão!
E apressou o Bento - porque com o abalo, o esforço, positivamente lhe tremiam as pernas de cansaço e de fome... Além da sede!
- Sobretudo sede! Esse vinho que venha bem fresco... Do Verde e do Alvaralhão, para misturar.
O Bento, com um trêmulo suspiro da emoção atravessada, enchera a bacia, estendia as toalhas. Depois, gravemente:
- Pois, Sr. Dr., temos esse andaço nos sítios! Foi o mesmo que sucedeu ao Sr. SanchesLucena, na Feitosa...
- Como, ao Sr. Sanches Lucena?
O Bento desenrolou então uma tremenda história trazida à Torre, durante a estada do Sr Doutor em Oliveira, pelo cunhado da Críspola, o Rui carpinteiro, que trabalhava nas obras da Feitosa. O Sr. Sanches Lucena descera uma tarde, ao lusco-fusco, à porta do Mirante, quando passam na estrada dois jornaleiros, bêbedos ou facínoras, que implicam com o excelente senhor. E chufas, risinhos, momices... O Sr. Sanches, com paciência, aconselhou os homens que seguissem, não se desmandassem. De repente um deles, um rapazola, sacode a jaqueta do ombro, ergue o cajado! Felizmente o companheiro, que se afirmara, ainda gritou: - "Ai! rapaz, que ele é o nosso deputado!" O rapazola abalou, espavorido. O outro até se atirou de joelhos diante do Sr. Sanches Lucena... Mas o pobre senhor, com o abalo, recolheu à cama!
Gonçalo acompanhara a história, secando vagarosamente as mãos à toalha, impressionado:
- Quando foi isso?
- Pois disse ao Sr. ...... Quando o Sr. Dr. estava em Oliveira. Um dia antes ou um dia depois dosanos da Sra. D. Graça.
O Fidalgo arremessou a toalha, limpou pensativamente as unhas. Depois com um risinho incerto e leve:
- Enfim, sempre serviu de alguma coisa ao Sanches Lucena ser Deputado por Vila-Clara...
E já vestido, abastecendo a charuteira (porque resolvera passar a noite na Vila, a desabafar com o Gouveia) - de novo se voltou para Bento, que arrumava a roupa:
- Então o bêbedo, quando o outro lhe gritou "Ai, que é o nosso deputado", caiu em si, fugiu, hem?... Ora vê tu! Ainda vale ser deputado! Ainda inspira respeito, homem! Pela menos inspira mais respeito que descender dos Reis de Leão!... Paciência, toca a jantar.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.