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#Romances#Literatura Portuguesa

Coração, Cabeça e Estômago

Por Camilo Castelo Branco (1862)

- Queria que o Sr. Silvestre se deixasse estar mais alguns dias por aqui; mas, se tem que fazer na sua casa, vá. Lembra-se quando estivemos, faz anos para a Semana Santa, nas Endoenças de Santo Amaro?

- Lembro.

- Pois olhe que nunca mais me esqueceu! Vossemecê lembra-se de me ver? - Mal me recordo...

- Lá me parecia...

- Porquê? Tem razão para supor que eu não a devia lembrar?

- É dum modo de dizer... Nem se lembra que eu lhe dei duas cavacas em casa do Sr. Vigário? - Ah!, agora me lembro... levava os cabelos louros com laços de fita, não levava?

- E vestido vermelho de cetim.

- Tal e qual. Que linda ia! Fiquei a pensar em si muitos dias...

- Mas esqueceu-se, e nem me conheceu agora. Uma rapariga em dez anos muda de cara; estou já ve-

lha...

- Não está sequer mudada, menina.

- E ele a dar-lhe!... não gosto que me chame menina.

Chame-me Tomásia.

Neste momento chegou o sargento-mor e disse com muito afável gesto:

- Ó rapariga, olha que teus tios já lá estão perguntando se tu fugiste com o Sr. Silvestre.

- Estamos a tratar disso, meu pai; quer vossemecê fugir também connosco? - respondeu ela com muita graça e desembaraço.

- Pois vamos lá com Deus.

E o velho, aproximando-se mais, reparou na costura de Tomásia, e disse:

- Não tens vergonha de estar a remendar camisas diante deste senhor?

- Agora tenho! Pois isto é vergonha? Vergonha é trazê-las rotas. Ó Sr. Silvestre, ainda que eu seja confiada, diga-me: quem lhe arranja a sua roupa?

- A minha roupa está sempre desarranjada; quando se rompe, compro outra.

- É bom governo esse! - tornou ela -, assim é que há-de ir para diante a sua casa!... Se eu morasse mais perto de si, dizia-lhe que mandasse a roupa para cá... Ri-se? Talvez cuide que eu não sei engomar! Veja o colarinho da camisa de meu pai como está rijo!

- Pois o melhor de tudo - atalhou o velho - é que o Sr. Silvestre venha cá para casa de vez, e então lhe tratarás da roupa.

Tomásia compreendeu o figurado do dizer e pôs os olhos na costura.

Chegavam os padres, discutindo outro ponto do artigo de fundo da Nação, e caminhámos todos polemicando, até chegarmos a um campo marginal do rio, onde o sargento-mor tinha uma pequena casa com adega.

Entrámos na adega, cuja frescura consolava. Pouco depois chegou uma rapariga com o cesto da merenda. Era uma travessa de barro vermelho cogulada de trutas fritas.

Tomásia foi a uma poça colher celgas e agriões, de que fez salada, depois de esfregar as mãos com areia da margem do rio.

Rodeámos uma dorna de fundo ao alto, sobre a qual se colocou a travessa das trutas e o alguidar da salada, donde nos servimos todos com garfos de ferro mui lustrosos.

Tomásia tirou uma truta para cima duma fatia de pão e sentou-se no socalco da pipa, donde tirava o vinho, que ressaltava espumando pelo batoque. Bebíamos todos do mesmo pichel de estanho; e o pichel, quando caia na mão dum padre, voltava vazio à torneira.

- Dão-me que fazer os tios!... - disse Tomásia a rir.

- Anda lá, rapariga - acudiu o padre João -, que tu também gostas de ver o fundo da caneca... Essas cores não se criam com água.

- Bebe, bebe, cachopa - disse o sargento-mor -, que o vinho é meia mantença.

Quando o pichel passou da minha mão à de Tomásia, reparei que ela assentou os lábios no rebordo molhado por onde eu tinha bebido. E, como visse que eu dera fé, corou. Ao entardecer voltámos a casa.

VI

Depois de ceia, Tomásia saiu a uma varanda de cantaria que dominava dilatadas várzeas orladas de arvoredo.

Os padres, o sargento-mor e eu ficámos praticando em sistemas de governo e discutindo as vantagens da representação nacional sobre o alvitre dum só homem. Os ardores da polémica eram refrigerados com beijos no pichel, beijos longos, longos, e absorventes como beijos de amantes.

O sargento-mor, como já não entendesse as teorias absolutistas dos irmãos, nem as minhas de emancipação social, adormeceu encostado ao espaldar duma cadeira de couro.

A questão foi esmorecendo consoante as forças intelectuais iam convergindo para o lavor da digestão. A ceia tinha sido pouco menos chorumenta que o jantar. Afora duas galinhas, amarelas de gordas, com o seu préstito de salpicões, no centro da mesa, estava o alguidar do anho assado, que lourejava estirado sobre um vasto plano de arroz, atauxiado de rodelas de lingüiça.

Três padres foram deitar-se, e o mais letrado dos quatro, padre João, disse-me se eu queria ir à varanda ver o rio prateado pela Lua e as penumbras dos altos serros circumpostos à graciosa aldeia.

Quando passávamos para a varanda, parei, e pedi ao padre que parasse.

Estava Tomásia cantando uma toada popular, triste como todas as cantilenas do Minho e Trás-osMontes. A melancolia não a dava a letra menos que a música. Dizia assim:

Teus cabelos me prenderam, E teus olhos me mataram;

Teus lindos pés me fugiram,

Quando morta me deixaram.

Entre as mãos frias de neve Um raminho me puseste;

Levaste as rosas e os cravos, Deixaste murta e cipreste.

Entrei de surpresa na varando e disse à maviosa cantora:

(continua...)

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