Por Camilo Castelo Branco (1864)
Deitei-me, confiado na esperança de cair em letargia de sentidos. Revolvi-me sobre espinhos em incêndio febril. Se algum instante o sopor me desfalecia, pulava-me o coração com tamanho ímpeto que eu espertava convulso, atirando-me do leito contra a janela, em agonias de estrangulado. O máximo horror das minhas visões era ela, nos braços daquele miserável, àquela hora. As mínimas circunstâncias de um espectáculo de devassidão, as mais secretas e lúbricas minudências se me traçavam patentes a uma claridade infernal. A oração, esse divino desabafo de enormes aflições. nem esse bem me valia um relâmpago de sossego à alma. Começava orando, a ansiedade recrescia, a fé desamparava-me, e então sobrevinha o desprezo de Deus, a negação da Providência e um feroz deleite de blasfemar. Eu amava a mulher abismada, a mulher prostituída! Eu, Santo Deus, com instintos tão nobres, educação tão religiosa e respeitos tão profundos à dignidade! Pensava-o eu assim; dava-me eu então os epítetos usurpados à honra!... Eu que me enfatuara perante o mundo de acorrentar à minha vaidade a mulher formosa, em cuja fronte a moral escrevera um estigma, que eu cobria de brilhantes e flores, cuidando que a sociedade havia de respeitá-la assim, e humilhar-se diante da minha afrontadora opulência! Eu, ver-me esmagado, ousar pedir contas a Deus da iniquidade do seu arbítrio, e renegá-lo como ente inútil ao remédio da minha desgraça!...
"Mal me entreluziu a manhã, fiz aparelhar os cavalos e voltei para Lisboa sem propósito feito. Durante a caminhada, o meu velho Tranqueira, enquanto as cavalgaduras se desfadigavam, acercou-se de mim com os olhos envidrados de lágrimas e disse a medo: "Meu amo, vamos embora de Lisboa; vamos para a nossa terra, que.Deus e a Virgem Maria dará remédio." Não respondi; mas pensei. A quietação da minha aldeia convidava-me; porém, entrando em espírito no interior da minha casa de Ruivães, ouvia com pavor o som dos meus passos naquelas salas desertas; faltava-me minha mãe ali; o anjo consolador fugira antes do meu resgate. Acudia-me à lembrança a minha triste Mafalda, a irmã terna, a meiguice da virgem compadecida; porém, o meu coração, a porejar o esqualor da sua hedionda chaga, rejeitava os bálsamos de um afecto purificador.
"O tumulto das grandes cidades, com o seu engodo atraente da desordem da vida, quadrava mais à alma sedenta de não sei que filtros de lágrimas e sangue. Estava traçado o meu plano, quando cheguei a Lisboa. Qualquer resolução sacode o mais paralisado espírito. Senti-me forte para entrar em minha casa. Fui ao gabinete de Palmira e abri as suas gavetas despejadas de todas as coisas de algum valor. A minha razão logrou um momento de lucidez: afigurou-se-me rasteira a índole de uma mulher que, em conflito de tamanha vergonha, tivera ânimo para se andar por suas próprias mãos enfardando vestidos e enfeites, no intento de vestir as galas sedutoras de amantes novos. Refugi como envilecido dos aposentos de Palmira. Fui ao meu quarto. Fiz encaixotar as minhas roupas. Guardei a correspondência de minha mãe e de Mafalda.
Queimei os restantes papéis, excepto as cartas de Teodora das Ursulinas. Porquê?
Nem eu sei. Queria aquelas memórias da criança que então morrera...
"Chamei os criados e despedi-os. Mandei fechar as portas ao meu Tranqueira e, nesse mesmo dia, expedi ordens para a venda de carruagens, cavalos e mobília. Alguns amigos conseguiram rastrear a minha residência obscura num hotel inglês em Buenos Aires.
"Procuraram-me, e eu não os recebi. A minha vaidade envergonhava-se deles. Nem a despedaçadora curiosidade de saber o destino de Palmira pôde vencer o orgulho escarnecido.
"No fim de nove dias, recebi carta de Mafalda, respondendo à minha. Ei-la aqui: Ambos te queremos do coração, Afonso. Meu pai não diz a teu respeito palavra de censura: chama-te infeliz, e mais nada. Quando tua mãe dizia em ânsias: "Perdi meu filho!", o meu bom pai ajuntava sempre: "Ele virá, minha irmã, que a sua índole é boa." Mostrei-lhe a tua carta, e vi-o chorar; pedi-lhe que te escrevesse, e. ele disse-me:
"Escreve-lhe tu, com a bênção de teu pai; diz-lhe que o amas sempre: eu dou-lhe o amor da minha Mafalda, consinto que ela o ame; é o mais que posso dar-lhe". Estas palavras escrevo-as por sua ordem, e desconfio que são inúteis para a tua felicidade.
Ainda assim, em quereres a nossa amizade, primo Afonso, nos dás grande satisfação. Vejo que vives muito amargurado, desde que morreu a nossa chorada mãe. Se te mortifica o pesar de não ter vindo assistir-lhe à morte, tranquilize-te a certeza de que ela te perdoou. Bem sabes que santinha e que mãe ela era. Eu fui ler à beira da sua sepultura a tua carta. Li-a em voz alta, cortada de gemidos. Depois orei muito, e levanteime de ao pé dela tão desoprimida e satisfeita que tomei por instinto do Céu a minha alegria. Pode ser que esta carta vá encontrar-te no gozo do alívio que eu senti então.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Salvação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=88534 . Acesso em: 28 jun. 2026.