Por Camilo Castelo Branco (1862)
— Não há de ser tanto assim. Eu tenho perguntado muito por isso à mulher dum preso, que cumpriu dez anos de sentença na Índia, e viveu muito bem em uma terra chamada Solor, onde teve uma tenda; e, se não fossem as saudades, diz ela que não vinha, porque lhe corria melhor por lá a vida que por cá. Eu, se for por vontade do Senhor Simão, vou pôr uma lojinha também. Verá como eu amanho a vida. Afeita ao calor estou eu; vossa senhoria não está; mas não há de ter precisão, se Deus quiser, de andar ao tempo.
— E suponha, Mariana, que eu morro apenas chegar ao degredo?
— Não falemos nisso, senhor Simão...
— Falemos, minha amiga, porque eu hei de sentir à hora da morte, a pesarme na alma, a responsabilidade do seu destino... Seu eu morrer?
— Se o senhor morrer, eu saberei morrer também.
— Ninguém morre quando quer, Mariana...
— Oh! se morre!... E vive também quando quer... Não mo disse já a senhora D. Teresa?
— Que lhe disse ela?
— Que estava a passar quando vossa senhoria chegou ao Porto, e que a sua chegada lhe dera vida. Pois há muita gente assim, senhor Simão... E mais a fidalga é fraquinha, e eu sou mulher do campo, vezada a todos os trabalhos; e, se fosse preciso meter uma lanceta no braço e deixar correr o sangue até morrer, faziao como quem o diz.
— Ouça-me, Mariana que espera de mim?
— Que hei de eu esperar!... Por que me diz isso o senhor Simão?
— Os sacrifícios que Mariana tem feito e quer fazer por mim só podiam ter uma paga, embora nos não faça esperando recompensa. Abre-me o seu coração, Mariana?
— Que quer que eu lhe diga?
— Conhece a minha vida tão bem como eu, não é verdade?
— Conheço. E que tem isso?
— Sabe que eu estou ligado pela vida e pela morte àquela desgraçada senhora?
— E dai? Quem lhe diz menos disso?!
— Os sentimentos do coração só os posso agradecer com amizade.
— Eu já lhe pedi mais alguma coisa, senhor Simão?!
— Nada me pediu, Mariana; mas obriga-me tanto, que me faz mais infeliz o peso da obrigação.
Mariana não respondeu; chorou.
— E por que chora? — tornou Simão carinhosamente.
— Isso é ingratidão... e eu não mereço que me diga que o faço infeliz.
— Não me compreendeu... Sou infeliz por não poder fazê-la minha mulher. Eu queria que Mariana pudesse dizer:
— "Sacrifiquei-me por meu marido; no dia em que o vi ferido em casa de meu pai, velei as noites a seu lado; quando a desgraça o encerrou entre ferros, deilhe o pão que nem seus ricos pais lhe davam; quando o vi sentenciado à forca, endoideci; quando a luz da minha razão me tornou num raio de compaixão divina, corri ao segundo cárcere, alimentei-o, vesti-o, e adornei-lhe as paredes nuas do seu antro; quando o desterraram, acompanhei-o, fiz-me a pátria daquele pobre coração, trabalhei à luz do sol homicida para ele se resguardar do clima, do trabalho, e do desamparo, que o matariam..."
O espírito de Mariana não podia altear-se à expressão do preso; mas o coração adivinhava-lhe as idéias. E a pobre moça sorria e chorava a um tempo. Simão continuou:
— Tem vinte e seis anos, Mariana. Viva, que esta sua existência não pode ser senão um suplício oculto. Viva, que não deve dar tudo a quem lhe não pode restituir senão as lágrimas que eu lhe tenho custado. O tempo do meu desterro não pode estar longe; esperar outro melhor destino seria uma loucura. Se eu ficasse na pátria, livre ou preso, pediria a minha irmã que completasse a obra generosa da sua compaixão, esperando que eu lhe desse a última palavra da minha vida. Mas não vá comigo à África ou à Índia, que sei que voltará sozinha à pátria depois que eu fechar os olhos. Se o meu degredo for temporário, e a morte me guardar para maiores naufrágios, voltarei à pátria um dia. É preciso que Mariana aqui esteja para eu poder dizer que venho para a minha família, que tenho aqui uma alma extremosa que me espera. Se a encontrar com marido e filhos, a sua extremosa família será a minha. Se a vir livre e só, irei para a companhia de minha irmã. Que me responde, Mariana? A filha de João da Cruz, erguendo os olhos do pavimento. disse:
— Eu verei o que hei de fazer quando o senhor Simão partir para o degredo...
— Pense desde já, Mariana.
— Não tenho que pensar... A minha tenção está feita... — Fale, minha amiga; diga qual é a sua tenção.
Mariana hesitou alguns segundos, e respondeu serenamente:
— Quando eu vir que não lhe sou precisa, acabo com a vida. Cuida que eu ponho muito em me matar? Não tenho pai, não tenho ninguém, a minha vida não faz falta a pessoa nenhuma. O senhor Simão pode viver sem mim? Paciência!... Eu é que não posso...
Susteve o complemento da idéia como quem se peja duma ousadia. O preso apertou-a nos braços estremecidamente, e disse:
— Irá, irá comigo, minha irmã. Pense muito no infortúnio de nós ambos d'ora em diante, que ele é comum; é um veneno que havemos de tragar unidos, e lá teremos uma sepultura de terra tão pesada como a da pátria.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Perdição. 1862. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16586 . Acesso em: 17 jun. 2026.