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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Brilhantes do Brasileiro

Por Camilo Castelo Branco (1869)

― Vê? Estes olhos não tem luz, tem o sangue do coração. Olhe que eu sou o mais castigado e desgraçado homem que nasceu debaixo do Sol. A sepultura repele-me há cinqüenta anos, porque eu morri então. Morri então, senhor...

E estreitava convulsamente ao seio as duas mãos do cavalheiro.

― Está bom... – prosseguiu ele com satisfação. – Estou melhor... desafoguei... Sinto-me tão bem!...

Quem pudera chorar uma hora em cada doze de tonturas...

Já vê vossa excelência quanto lhe seria consoladora uma família... Foi fatal o perdimento de sua filha. E vossa excelência sabe que a perdi?

― Sei por ter tido a honra de o ouvir há pouco dizer ao senhor conde..

― Ah! Fui eu?...

― Sim; disse-me vossa excelência que sua filha tinha morrido.

― Viva ou morta... morreu. Nunca ouviu falar dela?

― Não, senhor.

― Esqueceram-na todos! Ninguém aqui em Ponte... nem os Abreus lhe falaram dela?

― Não, senhor conde.

― É porque ela empobreceu... é porque eu a repeli... Desprezaram-na todos, e não curaram de saber se eu tinha razão, ou se ela tinha infâmias para ser desprezada... E por isso... morreu!

O flaviense não formava da intelectualidade do conde um juízo satisfatório para uma certidão de sanidade. Não acabava de entender se a filha do conde era viva ou morta; nem ousava protrair indagações irritantes da torvação mental do velho.

Calou-se, aproveitou o ensejo oportuno de despedir-se, e foi indagar o mistério de tal filha.

Os informadores disseram-lhe concordemente que em verdade o conde tivera na sua mocidade uma filha natural de uma célebre fidalga do seu tempo; mas que essa menina se havia perdido em libertinagens como sua mãe. O cavalheiro entendeu então o que era morrer, e condoeu-se profundamente do pai da perdida.

XXVII VEM ROMPENDO A LUZ

Francisco José da Costa foi chamado urgentemente para visitar um senhor conde hospedado em Monte Alegre.

― Conde de quê? – perguntou Ângela, curiosa de saber que titular subia as montanhas de Barroso em busca de seu marido.

― Conde de Gondar – disse o enviado.

― De Gondar? – observou Ângela ao marido. – Cuidei que só havia o Paço de Gondar de meu pai!

Ora, Francisco não lia gazetas, nem sabia que o general Noronha passasse a titular. Não ponderou por isso a observação da esposa, nem inquiriu a procedência do conde.

Chegou à casa nobre de Monte Alegre.

Levaram-no à presença dum ancião cego, de aspecto cadavérico e tocantemente amargurado.

Costa examinou-o em breve espaço, e perguntou:

― Senhor conde, há que tempo começou o seu padecimento de olhos?

― Há nove anos. Estava eu em Paris a tratar-me de nevralgias de cabeça.

― E quando cegou completamente?

― Há dois anos, tendo voltado a Paris para consultar de novo os especialistas.

― Disseram a vossa excelência que era catarata negra a cegueira?

― Juntamente; mas era intempestiva a operação. Depois, cá em Portugal, dois facultativos que consultei não votaram pela operação: um deles pendia a crer que a minha cegueira fosse paralisia.

― É catarata negra – disse Francisco Costa.

― Pode operar-se? – perguntou o conde, agitado.

― Pode, senhor conde.

― Vossa senhoria tem esperanças?

― As que pode ter-se em operatória.

― E espera dar-me vista?

― Espero, creio que vossa excelência verá.

― Feliz hora em que este amigo que está a meu lado me levou a Ponte do Lima a notícia de vossa senhoria! – exclamou o conde.

― O senhor conde de Gondar – disse o cavaleiro de Chaves ao operador – é o bem conhecido general Simão de Noronha.

Costa fitou o semblante do cego, e baixou maquinalmente a cabeça.

O apresentante prosseguiu:

― Eu tinha visto dois prodígios de vossa senhoria, e assim que soube dos padecimentos de sua excelência, animei-me a solicitar a sua vinda com grande confiança na perícia do senhor doutor.

Agradeço a vossa excelência a confiança imerecida com que honra o pouco que sei e valho. Onde quer ser operado o senhor conde?

― Se fosse possível, na terra onde vossa senhoria reside – respondeu o cego.

― Nas Boticas não creio que haja casa capaz – observou Pizarro.

― Há – contradisse o cirurgião.

― Sim? – acudiu o conde.

― É a minha – tornou Costa. – Se vossa excelência quiser...

― Quero, meu Deus, quero; nem posso querer outra coisa, e desde já lhe aperto as mãos com o mais sentido reconhecimento – disse o velho com alegria.

― Não pode hospedar-se melhor – confirmou o parente.

― A casa é de aldeia – tornou Costa, sorrindo – mas, enquanto o senhor conde for cego, dispensa o luxo dos ornatos; e, depois que tiver vista, irá para sua casa. O essencial é que vossa excelência tenha um leito, um cirurgião a ponto, e pessoas que o sirvam. Isso lhe ofereço.

― Não ouso dizer a vossa senhoria que remunerarei o que é remunerável – disse o conde -; mas o maior número dos seus favores não se retribui a dinheiro.

― O dinheiro nestas aldeias, senhor conde – volveu Francisco – não é extremamente apetecível, porque faltam cá, ainda bem, as tentações que o encarecem.

(continua...)

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