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#Crônicas#Literatura Portuguesa

Crónicas de Londres

Por Eça de Queirós (1940)

Uma curiosidade de Londres – foi o desafio a andar entre o célebre caminhador O’Leary e o seu rival Welton. O desafio foi em Albert Hall e durou seis dias – durante esse tempo, os andarilhos tiveram apenas algumas horas de descanso! O’Leary ganhou, tendo andado quinhentas e vinte milhas; Welton perdeu por dez milhas. O’Leary caminhava com os cotovelos apertados aos rins, calado, olhar direito, tendo agarrado em cada mão, com uma força convulsiva, uma varinha. Welton caminhava bamboleando-se, falando, com um chicote numa das mãos, a outra à cinta – e para se excitar fez-se tocar constantemente à banda alemã de instrumentos de metal uma marcha estridente. Trinta mil pessoas assistiram sucessivamente a este singular desafio. O que se provou? Incontestavelmente que a constituição humana tem um prodigioso poder de resistência, e que esta máquina de carne e ossos não é inferior às de Birmingham. Mas o que é estranho é que no tempo dos caminhos de ferro – se exerça essa preciosa força de resistência, numa arte inútil, obsoleta, quase bárbaras marchas!

O grande teatro da Alhambra representa uma peça fantástica, cortada de bailados, que tem, em Inglaterra, uma singular qualidade – e imoral! É a primeira vez que vejo num palco inglês o amante idealizado e o marido apupado! Milhares de pessoas vão sucessivamente saborear aquele escandalozinho gigante. Vejam a censura inglesa! Admite esta farsa impudente, povoada de mulheres quase nuas, e recusa a Dama das Camélias! Mas é que em Inglaterra não existe censura; Lord Chambellan, um velho caturra de outras idades, excêntrico e variável, é a censura. Governa despoticamente do meio do seu mau humor os teatros de Londres, e com tanta inteligência que permite as farsas imorais de um rabiscador idiota – e impede a representação da obra de Dumas, da Academia Francesa!

II

Londres, 14 de Maio [de 1877]

Lembram-se, decerto, de eu lhes dizer na minha última carta que o soldado russo era o mais vagaroso dos soldados de ataque; aí têm a prova: há um mês que começou a guerra, e nem no Danúbio, nem na Ásia Menor, tem havido um facto decisivo: as estradas da România, é verdade, têm estado quase impraticáveis pelas chuvas incessantes e pelos temporais tão oportunos que parecem estar às ordens do sultão e pertencer ao estado-maior turco; é verdade que na Ásia Menor as dificuldades de transporte e de trânsito para um forte exército invasor são consideráveis: todavia repete-se um facto histórico e militar: toda a invasão russa é sempre uma campanha protraída e monótona.

No Danúbio tem havido apenas alguns duelos de artilharia entre os fortes das duas margens, com resultados (consoladores para os humanitários) de algum cavalo morto ou de algum tecto de colmo queimado.

O facto mais enérgico foi a passagem de Hobart Paxá, a bordo de um navio turco, através do fogo das baterias russas. À chegada dos Russos à România e aos portos do Danúbio, Hobbart Paxá estava, em serviço de inspecção, a bordo de um navio de guerra – no Alto Danúbio –, e ficou portanto bloqueado pela instalação fortificada das vanguardas russas. Com uma decisão destemida, toda a força de caldeira, todos os fogos acesos, esperando a cada momento tocar algum torpedo e ir pelos ares, raspou-se à razão de quinze milhas por hora, sob um fogo desesperado dos Russos, incólume e com bandeira alta.

Hobbart Paxá é certamente uma das figuras mais salientes e mais originais desta guerra. E inglês e par de Inglaterra: é filho do conde de Buckinghamshire e herdou o titulo há anos, quando tomou assento na Câmara dos Lordes. Entrou na marinha e pouco tempo depois fezse frade. Serviu a Turquia na insurreição de Creta, e na guerra dos Estados Unidos quebrou muitas vezes, a bordo do seu navio corsário, o bloqueio do Sul. Agora é paxá e almirante turco. E um homem inteligente, heróico, com sérias qualidades de organizador. Tem quarenta e cinco anos, a barba toda espessa, o olhar agudo, o sobrolho carregado e um certo ar de bonomia altiva. E um aventureiro de bem – ou antes, uma heroicidade disponível, que procura emprego.

Na Ásia Menor a marcha dos Russos tem encontrado dificuldades: tudo o que têm adiantado são duas milhas alemãs; é incontestável que em encontros parciais, mas violentos, os Turcos têm tido vantagens; as forças voluntárias turcas organizam-se com um impulso fanático e duplicam a resistência.

(continua...)

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