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#Romances#Literatura Portuguesa

O Conde d'Abranhos

Por Eça de Queirós (1925)

O Conde, portanto, é da família dos Noronhas – e dos Noronhas que direi que o não saiba a Pátria? O seu nome está na História pelos altos feitos e na Legenda pelos poéticos amores.

Não vos lembrais da nobre canção:

Aldina na alta torre

Alta torre d'Algeciras,

Chora de noite e de dia

Que condenou-a seu pai

A não ter mais alegria...

Levai-lhe os prantos, oh! rios,

Nuvens, levai-lhe os suspiros...

Aldina é uma Noronha. Da torre de Algeciras restam vestígios – todo um lanço de alvenaria, evidentemente do século XIII, descoberto ultimamente pelo nosso distinto arqueólogo Macedo Garção, que ofereceu à família Noronha uma formosa fotografia da ruína.

Outra Noronha foi de grande beleza e ilustrou o seu nome e o da sua raça, partilhando o leito do nosso Rei D. Afonso V.

D. Violante de Noronha, de uma beleza clássica que lhe mereceu o nome de Juno (nesta família, a beleza das mulheres iguala a bravura dos homens) recebeu o mesmo alto favor do nosso senhor Rei D. Pedro II.

Dos varões desta casa citarei Fernando de Noronha, tão cioso da sua raça que um dia, entrando no momento em que um criado repelia com força seu filho Afonso que num inocente brinquedo lhe arrepelava os cabelos, mandou decepar a mão direita ao lacaio.

Estes actos inspiravam um terror salutar e ainda que nos nossos tempos mais doces poderiam ser desaprovados e o júri decerto mandaria o seu autor para a costa de África, eram todavia necessários nessa época gloriosa da monarquia, para manter as classes nos justos limites indicados pela Providência.

Citarei também Camilo de Noronha, que, já neste século foi notável como toureiro e varredor de feiras. A sua destreza no jogo de pau era tal, que chegava a um arraial, apeava e destroçava a multidão, atirando homens por terra como uma criança que derrota um regimento de soldadinhos de chumbo. Contam-se dele deliciosas anedotas. Na Covilhã, por exemplo, tinha um cavalo adestrado que escoiceava, mal o alegre Camilo de Noronha assobiava. Costumava aproximá-lo de fidalgos e senhoras (mas sobretudo de plebeus)... Um assobio rápido, um coice imprevisto, e o indivíduo ou a dama eram levados em braços, no meio da hilaridade que entre os seus amigos causavam sempre tais façanhas. Sem inteiramente aprovar estas distracções violentas, não se pode, todavia, deixar de reconhecer que há em tais actos uma plenitude de seiva, de vida animal e de força que agrada em jovens fidalgos.

Estas migalhas de História, apanhadas ao acaso, pintam a traços largos a feição desta família ilustre. Os Noronhas usam sobre o campo de prata três castelos de ouro e este mote: In Chistro spes meu (em Cristo a minha esperança), sublime divisa, a melhor, a mais nobre. E foi esta a divisa do Conde d'Abranhos, até que, por decreto do 1º de Janeiro de 1860, S. M. lhe concedeu o título de Conde. Tomou então este outro mote: Ex corde pro rege (do coração pelo Rei!) Estas palavras, partindo de um homem que não era um cortesão e até então não mostrara especial dedicação pelo Monarca, parecem-me exemplo alto e resplandecente de reconhecimento, neste século de ingratidões endurecidas e lealdades frouxas.

Foi sempre para mim um motivo de assombro que durante a sua infância, Alípio Abranhos não tivesse – como Napoleão, Chateaubriand ou Lord Byron – revelado a sua futura elevação de espírito e de carácter por alguma dessas estranhas precocidades que são como as faíscas inesperadas que saem de um fogo ainda incubado. Os seus primeiros anos são sem relevo e inteiramente incaracterísticos. Ele mesmo o reconhecia com modéstia, quando dizia, sorrindo: «–Como toda a gente, apanhei ninhos e fiz papagaios de papel...

É certo que o meio em que se passou a sua mocidade não oferecia ocasião a que se revelassem os seus gostos inatos e se acentuassem as suas tendências. Estou bem certo que se tivesse sido educado numa dessas velhas casas morgadas, onde gerações letradas formavam ricas e sábias bibliotecas, veríamos o pequeno Alípio deixar os ninhos e os papagaios, para se ir esconder nalgum recanto da silenciosa livraria, e ali, folhear os antigos romances de cavalaria, ou, o que era mais natural à feição nativa do seu espírito, ler, compreendendo-os mal, os filósofos do passado. E porém sabido que seu pai – e não creio ofender a sua memória revelando-o – tinha um pequeno e honesto estabelecimento de alfaiate, e as únicas publicações que decerto ali se veriam entre os cortes de pano, seriam os volumes do antigo Espelho da Moda. Eu creio, porém, que esta falta de vida intelectual foi singularmente favorável ao seu desenvolvimento físico. Não tendo livros que o prendessem em casa, Alípio passava os seus dias pelas hortas e pelos quintais, crescendo em plena natureza, crestado pelo Sol, batido dos largos ares, e, como dizia um poeta antigo, mamando à farta nos peitos de Cíbele.

(continua...)

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