Por Eça de Queirós (1875)
- Lá isso! exclamou o cônego parando outra vez. Lá isso! Bem conservada até ali! Pois olhe que não é uma criança! Mas nem um cabelo branco, nem um, nem um só! E então que cor de pele! - E mais baixo, com um sorriso guloso: - E isto aqui! ó Mendes, e isto aqui! - Indicava o lado do pescoço debaixo do queixo, passando-lhe devagar por cima a sua mão papuda: - É uma perfeição! E depois mulher de asseio, muitíssimo asseio! E que lembrançazinhas! Não há dia que me não mande o seu presente! é o covilhete de geléia, é o pratinho de arroz-doce, é a bela morcela de Arouca! Ontem me mandou ela uma torta de maçã. Ora havia de você ver aquilo! A maçã parecia um creme! Até a mana Josefa disse: "Está tão boa que parece que foi cozida em água benta!" - E pondo a mão espalmada sobre o peito: - São coisas que tocam a gente cá por dentro, Mendes! Não, não é lá por dizer, mas não há outra.
O coadjutor escutava com a taciturnidade da inveja.
- Eu bem sei, disse o cônego parando de novo e tirando lentamente as palavras, eu bem sei que por ai rosnam, rosnam... Pois é uma grandíssima calúnia! O que é, é que eu tenho muito apego àquela gente. Já o tinha em tempo do marido. Você bem o sabe, Mendes.
O coadjutor teve um gesto afirmativo.
- A S. Joaneira é uma pessoa de bem! olhe que é uma pessoa de bem, Mendes! exclamava o cônego batendo no chão fortemente com a ponteira do guarda. sol.
- As línguas do mundo são venenosas, senhor cônego, disse o coadjutor com uma voz chorosa. E depois dum silêncio, acrescentou baixo: - Mas aquilo a vossa senhoria deve-lhe sair caro!
- Pois aí está, meu amigo! Imagine você que desde que o secretário-geral se foi embora a pobre da mulher tem tido a casa vazia: eu é que tenho dado para a panela, Mendes!
- Que ela tem uma fazendita, considerou o coadjutor.
- Uma nesga de terra, meu rico senhor, uma nesga de terra! E depois as décimas, os jornais! Por isso digo eu, o pároco é uma mina. Com os seis tostões que ele der, com que eu ajudar, com alguma coisa que ela tire da hortaliça que vende da fazenda, já se governa. E para mim é um alívio, Mendes.
- É um alívio, senhor cônego! repetiu o coadjutor.
Ficaram calados. A tarde descaía muito límpida; o alto céu tinha uma pálida cor azul; o ar estava imóvel. Naquele tempo o rio ia muito vazio; pedaços de areia reluziam em seco; e a água baixa arrastavase com um marulho brando, toda enrugada do roçar dos seixos.
Duas vacas, guardadas por uma rapariga, apareceram então pelo caminho lodoso que do outro lado do rio, defronte da alameda, corre junto de um silvado; entraram no rio devagar, e estendendo o pescoço pelado da canga, bebiam de leve, sem ruído; a espaços erguiam a cabeça bondosa, olhavam em redor com a passiva tranqüilidade dos seres fartos - e fios de água, babados, luzidios à luz, pendiam-lhes dos cantos do focinho. Com a inclinação do sol a água perdia a sua claridade espelhada, estendiam-se as sombras dos arcos da Ponte. Do lado das colinas ia subindo um crepúsculo esfumado, e as nuvens cor de sangüínea e cor de laranja que anunciam o calor faziam, sobre os lados do mar, uma decoração muito rica.
- Bonita tarde! disse o coadjutor.
O cônego bocejou, e fazendo uma cruz sobre o bocejo:
- Vamo-nos chegando às Ave-Marias, hem?
Quando, daí a pouco, iam subindo as escadarias da Sé, o cônego parou, e voltando-se para o coadjutor:
- Pois está decidido, amigo Mendes, ferro o Amaro na casa da S. Joaneira! É uma pechincha para todos.
- Uma grande pechincha! disse respeitosamente o coadjutor. Uma grande pechincha! E entraram na igreja, persignando-se.
II
Uma semana depois, soube-se que o novo pároco devia chegar pela diligência de Chão de Maçãs, que traz o correio à tarde; e desde as seis horas o cônego Dias e o coadjutor passeavam no Largo do Chafariz, à espera de Amaro.
Era então nos fins de Agosto. Na longa alameda macadamizada que vai junto do rio, entre os dois renques de velhos choupos, entreviam-se vestidos claros de senhoras passeando. Do lado do Arco, na correnteza de casebres pobres, velhas fiavam à porta; crianças sujas brincavam pelo chão, mostrando seus enormes ventres nus; e galinhas em redor iam picando vorazmente as imundícies esquecidas. Em redor do chafariz cheio de ruído, onde os cântaros arrastam sobre a pedra, criadas ralham, soldados, com a sua fardeta suja, enormes botas cambadas, namoravam, meneando a chibata de junco; com o seu cântaro bojudo de barro equilibrado à cabeça sobre a rodilha, raparigas iam-se aos pares, meneando os quadris; e dois oficiais ociosos, com a farda desapertada sobre o estômago, conversavam, esperando, a ver quem viria. A diligência tardava. Quando o crepúsculo desceu, uma lamparina luziu no nicho do santo, por cima do Arco; e defronte iam-se iluminando uma a uma, com uma luz soturna, as janelas do hospital.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1791 . Acesso em: 29 jun. 2026.