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#Contos#Literatura Portuguesa

Coisas Que Só Eu Sei

Por Camilo Castelo Branco (1889)

Laura umedecia os lábios com a língua. As surpresas pungentes produzem uma febre, e aquecem o mais belo calculado sangue-frio. A incógnita, profundamente conhecedora da situação da sua vítima, falou ao ouvido de Carlos :

— “Estuda-me aquela fisionomia. Eu não estou em circunstâncias de ser Max… Sofro demasiado para contar as pulsações deste coração. Se te sentires condoído desta mulher, tem compaixão de mim, que sou mais desgraçada que ela.”

E voltando-se para Laura :

— “Procuro, há quatro anos, uma ocasião de prestar homenagem à tua conquista. Deus, que é Deus, não despreza os incensos do verme da terra, nem esconde à vista dos homens a sua fronte majestosa num manto de estrelas. Tu, Laura, que és mulher, embora os homens te chamem anjo, não desprezarás vaidosa a homenagem de uma pobre criatura, que vem depor a teus pés o óbolo sincero da sua adoração.”

Laura não levantava os olhos do leque ; mas a mão, que o sustinha, tremia ; e os olhos, que o contemplavam, pareciam absortos num quadro aflitivo. E o dominó continuou :

— “Foste muito feliz, minha cara amiga ! Eras digna de o ser. Colheste o fruto abençoado da abençoada semente que o Senhor fecundou no teu coração de pomba !… Olha, Laura, deves dar muitas graças à Providência, que velou os teus passos no caminho do crime. Quando devias resvalar no abismo da prostituição, subiste, radiante de virtudes, ao trono das virgens. O teu anjo da guarda foi-te leal ! És uma excepção a milhares de desgraçadas, que nasceram em estofos de damasco, cresceram em perfumes de opulência. E, quanto mais, minha ditosa Laura, tu nasceste nas palhas da miséria, cresceste nos andrajos da indigência, ainda viste com os olhos da razão a desgraça sentada à cabeceira do teu leito… e, contudo, eis-te aí rica, honrada, formosa, e soberba de encantos, com que podes insultar toda essa turba de mulheres, que te admiram !… Há tanta mulher infeliz !… Queres saber a história de uma ?…”

Laura, contorcendo-se como se fosse de espinhos a cadeira em que estava, não tinha ainda balbuciado um monossílabo ; mas a urgente pergunta, duas vezes repetida, do dominó, obrigou-a a responder afirmativamente com um gesto.

— “Pois bem, Laura, conversemos amigavelmente.”

Um dos indivíduos, que estava presente, e ouvira pronunciar Laura, perguntou à mulher que assim era chamada :

— “Elisa, ela chama-te Laura ?”

— “Não, meu pai…” - respondeu Elisa, titubeando.

— “Chamo Laura, chamo… e que tem lá isso, Sr. Visconde ?” — atalhou a incógnita, com afabilidade, erguendo o falsete para ser bem ouvida. — “É um nome de Carnaval, que passa com os dominós. Quarta-feira de cinza torna a filha de V. Exa. a chamar-se Elisa.”

O visconde sorriu-se, e o dominó continuou, abaixando a voz, e falando naturalmente :

CAPÍTULO III

— “Henriqueta…”

Esta palavra foi um abalo que fez vibrar todas a fibras de Elisa. O rosto incendiou-se-lhe daquele encarnado do pudo ou da raiva. Esta sensação violenta não podia ser desapercebida. O visconde, que parecia estranho à conversação íntima daquelas supostas amigas, não o pôde ser à agitação febril de sua filha.

— “Que tens, Elisa ?!” - perguntou ele sobressaltado.

— “Nada, meu pai… Foi um ligeiro incomodo… Estou quase boa…” — “Se queres respirar vamos ao salão, ou vamos para casa…” — “Antes para casa” — respondeu Elisa.

— “Eu vou mandar buscar a sege” — disse o visconde ; e retirou-se.

— “Não vás, Elisa…” - disse o dominó, com uma voz imperiosa, semelhante a uma ameaça inexorável.— “Não vás… Porque, se vais, contarei a todo o mundo uma história que só tu hás-de-saber. Este outro dominó, que tu não conheces, é um cavalheiro : não temas a menor imprudência.”

— “Não me martirizes !” — disse Elisa. — “Eu sou infeliz de mais, para ser flagelada com a tua vingança… Tu és Henriqueta, não és ?”

— “Que te importa a ti saber quem eu sou ?!…”

— “Importa muito… Sei que és desgraçada !… Não sabia que vivias no Porto; mas palpitou-me o coração que eras tu, apenas me chamaste Laura.”

O visconde entrou afadigado, dizendo que a sege não podia tardar, e convidando a filha para dar alguns passeios no salão do teatro. Elisa satisfez a carinhosa ansiedade do pai, dizendo que se sentia boa, e pedindo-lhe que se demorasse até mais tarde.

— “Onde julgavas tu que eu existia ? No cemitério, não é assim ?” - perguntou Henriqueta.

— “Não : sabia que vivias, e profetizava que devia encontrar-te… Que história me queres tu contar ?… A tua ? Essa já eu sei… Imagino-a… Tens sido muito infeliz… Olha, Henriqueta… Deixa-me dar-te esse tratamento afetuoso com que nos conhecemos, com que fomos tão amigas, alguns fugitivos dias, no tempo em que o destino nos marcava com o mesmo estigma de infortúnio…” — “O mesmo… Não !…” — atalhou Henriqueta.

— “O mesmo, sim, o mesmo… E se me forças a contradizer-te, direi que

invejo a tua sorte, seja ela qual for…”

(continua...)

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