Por Eça de Queirós (1925)
A machina silvava. E Arthur, excitado, via agora, á esquerda, estender-se o rio largo e baço, agitado sob o vento. Os montes da outra-banda confundiamse com o empastamento das nuvens. Uma falua, de vela cheia, cortava a espuma, á bolina, na manhã aspera. Arthur devorava com os olhos aquellas vizinhanças de Lisboa : uma fachada suja de casa que passava, uma pilha de madeira, altas chaminés de tijolo. Nos Olivaes, o sujeito da pelliça, julgando vêr um amigo entre a gente na plataforma, precipitou-se para a portinhola, gritando :
— Oh, visconde ! oh, visconde !
Mas o comboio partiu. Antigos wagons desmantelados, um alpendre com fardos, correram ao lado —e um empregado, todo molhado, abrindo vivamente a portinhola, recolheu á pressa os bilhetes.
Arthur palpitava todo. Lisboa ! Era emfim Lisboa ! Abaixara a vidraça e o ar parecia-lhe cheio d'uma vida mais intensa, todo penetrado da respiração larga da cidade que ainda dormia na manhã humida.
Com um grande estrondo o comboio entrou na estação. A plataforma ficou logo cheia de gente, que ia, arrebatada, com embrulhos, chapeleiras, acotovelando-se. Saloios com os passos pesados das suas solas pregueadas, apressavam-se ; havia nas faces um ar estremunhado e pasmado ; uxna creanga chorava desesperadamente, e, quando á porta de
sahida o empregado lhe quiz vêr as malas, Arthur, empúrrado, atarantado, envergonhado, não encontrava as chaves. As mãos tremiam-lhe, sentia-se timido, quasi tinha saudades da casa das tias, da pequenez d'Oliveira d'Azemeis. E depois, @om o seu bilhete de bagagem, muito embaraçado, quasi affli Oto, errava pela grande sala d'espera, dando aqui e além um olhar aos annuncios, onde se lia em grandes letras nomes de cidades — Sevilha, Cor dova, Madrid, Paris — que lhe representavam ci vilisagões magnificas e lhe davam um acanhamento
Emfim, um carregador, que parecia occupado por deleite proprio em resmungar blasphemias, leVou-lhe com um ar soturno o bahú a uma caleche, o cocheiro bateu para o HespanhoJ.
Á beira do assento, com as mãos nos joelhos, -Arthur, atravez dos vidros embaciados, ia olhando ávidamente as fachadas das casas, os cartazes nas esquinas, a prolongação das ruas. Gallegos curvados sob o barril chapinhavam na lama, gente passava encolhida sob os guarda-chuvas. Teve um espanto ao Vêr de repente os arcos do Terreiro do Paço, o rio, Ü1astreagões de esquadras ! Pela rua da Prata, ia lendo ávidamente as taboletas. Quem viveria n'aquellas altas casas, cerradas ainda ? Áquella hora, de certo, os jornalistas, as duquezas, dormiam, de dag agitações intellectuaes e amorosas da noite , . . — uma felicidade exuberante encheu-lhe subitamente o peito.
A caleche parou.
Da escada do Hespanhol, sombria, sahia um cheiro enjoativo de amoniaco. Um oreado, de suiças e cabelleira esguedelhada, que o tratou por usted, levou-o para um quarto pequeno, forrado de papel verde. A janella abria para um saguão melancolico e a agua que cahia da goteira cantava em baixo n'um balde de zinco.
D'ahi a pouco, encolhido nos lençoes, Arthur dormia profundamente,
Acordou ao ruido da porta : o creado, em mangas de camiga, com um par de bota8 na mão, dizia reprehendendo-o :
— Então usted não vae comer São horas. Já usted vê ! La comida é ás cinco.
Cinco horas já ! Arthur sentia os rins doridos ; o tom crepuscular do quarto, ruido de pratos que ouvia ao lado, o rabujar d'uma creanga, deramlhe uma vaga tristeza.
O oreado, então, revirou as botas na mão, considerou um momento com melancolia o elastico esfiado e o tacão tombado, e rosnou :
— Estão na ultima . . .
Arthur fez-se vermelho.
— Pois quando usted quizer eomer, é lá em bai• xo — accrescentou o homem. E antes de sahir, arrastando os sapatos achinelados, repetiu ainda, indicando com tristeza as botas : — Estão na uktima ! Já ugted vê !
Servia-se a sopa, quando Arthur se veio sentar timidamente á mesa. Defronte d'elle, dous hespanhoes, de barbas d'azeviche e faces cavadas, comiam, soturnos, com as capas ao hombro ; na outra extremidade estava uma rapariga gordita e baixa' bonita, de robe-de-chambre escarlate e penteado alto ; ao pé d'ella um individuo calvo, de cachaço fradesco, muita côr nas faces rechonchudas, um bigodito grisalho, via-a jantar, com uns olhinhos de ternura babosa, fazendo entre os dedos bolinhas de pão.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.