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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

E endireitava para O pinhal, com as pernas moles, um suor arrepiado na espinha - quando o Casco, num rodeio, num salto leve, atrevidamente se lhe plantou diante, atravessando o cajado:

- O Fidalgo há-de dizer aqui mesmo! O Fidalgo deu a sua palavra!... A mim não se me fazemdessas desfeitas... O Fidalgo deu a sua palavra!

Gonçalo relanceou esgazeadamente em redor, na ânsia dum socorro. Só o cercava solidão, arvoredo cerrado. Na estrada, apenas clara sob um resto de tarde, o carro de lenha, ao longe, chiava, mais vago. As ramas altas dos pinheiros gemiam com um gemer dormente e remoto. Entre os troncos já se adensava sombra e névoa. Então, estarrecido, Gonçalo tentou um refúgio na idéia de Justiça e de Lei, que aterra os homens do campo. E como amigo que aconselha um amigo, com brandura, os beiços ressequidos e trêmulos:

- Escute, Casco, escute, homem! As coisas não se arranjam assim, a gritar. Pode haverdesgosto, aparecer o Regedor. Depois é o tribunal, é a cadeia. E você tem mulher, tem filhos pequenos... Escute! Se descobriu motivo para se queixar, vá à Torre, conversamos. Pacatamente tudo se esclarece, homem... Com berros, não! Vem o cabo, vem a enxovia...

Então de repente o Casco cresceu todo, no solitário caminho, negro e alto como um pinheiro, num furor que lhe esbugalhava os olhos esbraseados, quase sangrentos:

- Pois o Fidalgo ainda me ameaça com a justiça!... Pois ainda por cima de me fazer a maroteirame ameaça com a cadeia!... Então, com os diabos! primeiro que entre na cadeia lhe hei-de eu esmigalhar esses ossos!...

Erguera o cajado... - Mas, num lampejo de razão e respeito, ainda gritou, com a cabeça a tremer para trás, através dos dentes cerrados:

- Fuja, Fidalgo, que me perco!... Fuja que o mato e me perco!

Gonçalo Mendes Ramires correu à cancela entalada nos velhos umbrais de granito, pulou por sobre as tábuas mal pregadas, enfiou pela latada que orla o muro, numa carreira furiosa de lebre acossada! Ao fim da vinha, junto aos milheirais, uma figueira brava, densa em folha, alastrara dentro dum espigueiro de granito destelhado e desusado. Nesse esconderijo de rama e pedra se alapou o Fidalgo da Torre, arquejando. O crepúsculo descera sobre os campos - e com ele uma serenidade em que adormeciam frondes e relvas. Afoutado pelo silêncio, pelo sossego, Gonçalo abandonou o cerrado abrigo, recomeçou a correr, num correr manso, na ponta das botas brancas, sobre o chão mole das chuvadas, até o muro da Mãe d'Água. De novo estacou, esfalfado. E julgando entrever, longe, à orla do arvoredo, uma mancha clara, algum jornaleiro em mangas de camisa, atirou um berro ansioso: - "Oh! Ricardo! Oh! Manuel! Eh lá! alguém! Vai aí alguém...? - A mancha indecisa fundira na indecisa folhagem. Uma rã pinchou num regueiro. Estremecendo, Gonçalo retomou a carreira até o canto do pomar - onde encontrou fechada uma porta, velha porta mal segura, que abanava nos gonzos ferrugentos. Furioso, atirou contra ela os ombros que o terror enrijara como trancas. Duas tábuas cederam, ele furou através, esgarçando a quinzena num prego. - E respirou enfim no agasalho do pomar murado, diante das varandas da casa abertas à frescura da tarde, junto da Torre, da sua Torre, negra e de mil anos, mais negra e como mais carregada de anos contra a macia claridade da lua nova que subia.

Com o chapéu na mão, enxugando o suor, entrou na horta, costeou o feijoal. E agora subitamente sentia uma cólera amarga pelo desamparo em que se encontrara, numa quinta tão povoada, enxameando de gentes e dependentes! Nem um caseiro, nem um jornaleiro, quando ele gritara, tão aflito, da borda da Mãe d'Água! De cinco criados nenhum acudira - e ele perdido, ali, a uma pedrada da eira e da abegoaria! Pois que dois homens corressem com paus ou enxadas - e ainda colhiam o Casco na estrada, o malhavam como uma espiga.

Ao pé do galinheiro, sentindo uma risada fina de rapariga, atravessou o pátio para a porta alumiada da cozinha. Dois moços da horta, a filha da Críspola, a Rosa, tagarelavam, regaladamente sentados num banco de pedra, sob a fresca escuridão da latada. Dentro o lume estralejava - e a panela do caldo, fervendo, rescendia. Toda a cólera do Fidalgo rompeu:

- Então, que sarau é este? Vocês não me ouviram chamar?... Pois encontrei lá embaixo, ao pédo pinheiral, um bêbedo, que me não conheceu, veio para mim com uma foice!... Felizmente levava a bengala. E chamo, grito... Qual! Tudo aqui de palestra, e a ceia a cozer! Que desaforo! Outra vez que suceda, todos para a rua... E quem resmungar, a cacete!

A sua face chamejava, alta e valente. A pequena da Críspola logo se escapulira, encolhida, para a recanto da cozinha, para trás da masseira. Os dois moços, erguidos, vergavam como duas espigas sob um grande vento. E enquanto a Rosa, aterrada, se benzia, se derretia em lamentações sobre "desgraças que assim se armam!" - Gonçalo, deleitado pela submissão dos dois homens, ambos tão rijos, com tão grossos varapaus encostados à parede, amansava:

(continua...)

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