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#Romances#Literatura Portuguesa

Coração, Cabeça e Estômago

Por Camilo Castelo Branco (1862)

Ao assomarmos ao beirado da eira, os criados, que andavam a limpar o centeio com pás e peneiras, redobraram de canseira.

- Assim que nos lobrigaram - disse Tomásia -, olhe como eles labutam! São uns calaceiros daquela casta!

E, levantando a voz, disse:

- Venham à fruta, a ver se refrescam. O serviço que vocês todos seis Têm feito fazia-o eu sozinha com uma perna às costas. Sempre estão umas rabaças, vocês!

Enquanto os criados comiam sofregamente as cerejas, as peras, os malápios e os gelemendes, Tomásia, ora com a pá, ora com a peneira, limpou uma rima de centeio, procurando a eminência mais ventilada da eira. O vento sacudia-lhe levemente a fimbria da saia de chita curta de grandes rofegos na cintura. Como erguia os braços ao alto, as largas mangas da camisa arregaçavam até aos ombros, e os folhos alvíssimos do peitilho, soprados pela viração, descobriam-lhe o seio, até onde o vento pode descobrir sem desairar o pudor.

Pareceu-me bonita assim, muito mais que vestida de amazona, calçada de duraque, e implumada, qual a vi na romagem do S. João.

Voltaram os servos para o trabalho, e Tomásia veio sentar-se ao pé de mim debaixo dum coberto de colmo.

- Está fatigada? - disse-lhe eu!

- Agora estou! Vim para aqui fazer-lhe um migalho de companhia e depois torno lá. Hoje o pão há-de ficar nas tulhas, custe o que custar.

- E deixa-me sozinho aqui?!

- Vossemecê, em se aborrecendo, vá para a casa, que lá está o pai e os tios. Vá jogar a bisca com os padres, que eles gostam muito. Sempre são!... Eu, se tivesse filhos, padre, Deus me perdoe, que não havia de ser nenhum!

- Porquê? Tem zanga dos padres?

- Agora tenho; os padres são a imagem de Deus; mas não fazem nada numa casa; dizem a sua missa, vão aos enterros e às festas, mas coisa de botarem a mão a uma sachola para tapar uma poça, ou cortar um agueiro, isso não é capaz! Olhe vossemecê ali em minha casa quatro padres duma assentada sem fazerem nada, a olharem uns pròs outros e a lerem a gazeta de Lisboa... Eles aí vêm... é milagre saírem de casa a esta hora! Vêm cá pr’amor do Sr. Silvestre.

Chegam os quatro clérigos, e um deles vinha com a Nação em punho, explicando aos outros um relanço difícil do artigo de fundo.

Fui consultado acerca da passagem obscura, e o meu parecer esclareceu as dúvidas. Tomásia, enquanto eu falava uma linguagem para ela inapercebida, estava com os olhos postos em mim. Os padres louvaram a minha esperteza, e o mais velho, oráculo dos outros, disse:

- Ora o senhor, com esse talento que Deus lhe deu, devia ser realista!... É uma ingratidão não defender a religião de nossos pais quem tanto deve à Providência.

Redargui que respeitava a religião de nossos pais e que a política era uma coisa incidental na vida das nações, de todo o ponto estranho à religião.

Discutimos mansamente uma hora.

Tomásia fatigou-se logo de nos ouvir e foi trabalhar.

V

À hora da sesta fui sentar-me num escuro souto de castanheiros e meditei.

Estava o estômago no mais activo de sua chilificação. Havia uma insólita claridade no meu espírito. Nenhum devaneio dos que arrombam poetas em ermos e sombras me perturbava o cozimento das pingues substâncias em que abundara o jantar. As minhas meditações eram pachorrentas, terra a terra, sem enlevos que me deslocassem da felicidade do momento para me transportarem ao passado, onde estava a saudade, ou ao futuro donde me podia estar mentindo a esperança.

Que a saudade, para além dos trinta anos, é uma enchente de lágrimas que desdobra o peito daqueles mesmos que se não sentem viver no coração.

E a esperança é uma virgem de encantos doidos, a qual vos não deixa gozar os encantos doutra virgem que vos alinda os bens presentes.

E a meditar assim adormeci, reclinado sobre uma moita de malmequeres e boninas.

Quando acordei tinha sobre a face um lenço de linho, branco de neve.

Enxuguei o suor, relanceei em derredor os olhos e vi, a distância de cem passos, Tomásia, sentada à beira dum tanque, coberto de ramagens de para, costurando e cantando a meia voz.

- Boas tardes, Sr. Silvestre! - disse ela, risonha.

- Ande lá, que se regalou de dormir; e, se não sou eu, as moscas e os mosquitos chupavam-lhe o sangue.

- Muito obrigado, menina.

- Menina! - tornou ela. - Eu sou mulher, não sou menina.

Ergui-me e fui lavar a cara na bica do tanque. Tomásia tirou o seu avental de linho para eu me limpar.

Sentei-me, depois, à sua beira, e vi que ela estava remendando uma camisa.

- Remenda o teu pano, e chegar-te-á ao ano; torna-o a remendar, e tornará a chegar – disse ela. Estivemos silenciosos alguns segundos. Cortou Tomásia o silêncio, perguntando: - Vai-se embora amanhã?

- Vou.

- Não gosta de estar conosco?

- Gosto; mas cada um de nós tem a sua casa.

- Isso é verdade... - disse ela, com a mão da agulha suspensa e os olhos fitos em qualquer coisa dis-

tante.

- É feliz, não é, Sra. Tomásia?

- Feliz é quem está no Céu. Diz meu tio padre João que neste mundo ninguém é contente da sorte que tem.

- Que lhe falta a si? Não tem tudo o que deseja?

- Eu desejo pouco...

- Então que mais quer para ser feliz?

(continua...)

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