Por Camilo Castelo Branco (1862)
— Mataram-me!... Mariana, não te vejo mais!...
O assassino teria dado cinqüenta passos a todo o galope da espantada mula, quando João da Cruz, debruçado sobre o banco, arrancava o último suspiro com a cara posta no chão, donde apontara ao peito do almocreve dez anos antes.
Os caminheiros, que perpassaram pelo cavaleiro inadvertidamente, ajuntaram-se em redor do cadáver. Josefa acudiu ao estrondo do tiro, e já não ouviu as últimas palavras de seu cunhado. Quis transportá-lo para dentro e correr a chamar cirurgião; mas um cirurgião estava no ajuntamento, e declarou morto o homem.
— Quem o matou? — exclamavam trinta vozes a um tempo.
Nesse mesmo dia vieram justiça de Viseu lavrar auto e devassar: nenhum indício lhes deu o fio do misterioso assassínio. O escrivão dos órfãos inventariou os objetos encontrados, e fechou as portas quando os sinos corriam o derradeiro dobre ao cair da lousa sobre João da Cruz.
Deus terá descontado nos instintos sanguinários do teu temperamento a nobreza de tua alma! Pensando nas incoerências da tua índole, homem que me explicas a providência, assombram-me as caprichosas antíteses que a mão de Deus infunde em alentos na criatura. Dorme o teu sono infinito, se nenhum outro tribunal te cita a responder pelas vidas que tiraste, e pelo uso que fizeste da tua. Mas, se há estância de castigo e de misericórdia, as lágrimas de tua filha terão sido, na presença do Juiz Supremo, os teus merecimentos.
Fez Josefa escrever a Mariana, noticiando-lhe a morte de seu pai, mas sobrescritou a carta a Simão Botelho, para maior segurança. Estava Mariana no quarto do preso, quando a carta lhe foi entregue.
— Não conheço a letra, Mariana... E a obreia é preta...
Mariana examinou o sobrescrito, e empalideceu.
— Eu conheço a letra — disse ela — é do Joaquim da loja. Abra, depressa, senhor Simão... Meu pai morreria?
— Que lembrança! Pois não teve há três dias carta dele?... E não disse que estava bom?
— Isso que tem?... Veja quem assina.
Simão buscou a assinatura, e disse:
— Josefa Maria!... É a tua tia que lhe escreve.
— Leia... leia... Que diz ela? Deixe-me ler a mim...
O preso lia mentalmente, e Mariana instou:
— Leia alto, por quem é, senhor Simão, que estou a tremer... e vossa senhoria descora... Que é, meu Deus?
Simão deixou cair a carta, e sentou-se prostrado de ânimo. Mariana correu a levantar a carta, e ele, tomando-lhe a mão, murmurou:
— Pobre amigo!... Choremo-lo ambos... choremo-lo, Mariana, que o amávamos como filhos...
— Pois morreu? — bradou ela. — Morreu... mataram-no!...
A moça expediu um grito estrídulo, e foi com o rosto contra os ferros das grades. Simão inclinou-a para o seio, e disse-lhe com muita ternura e veemência:
— Mariana, lembre-se que é o meu amparo. Lembre-se de que as últimas palavras de seu pai deviam ser recomendar-lhe o desgraçado que recebe das tuas mãos benfeitoras o pão da vida. Mariana, minha querida irmã, vença a dor, que pode matá-la, e vença-a por amor de mim. Ouve-me, amiga da minha alma?
Mariana exclamou:
— Deixe-me chorar, por caridade!... Ai! meu Deus, se eu torno a endoidecer!
— Que seria de mim! — A quem deixaria Mariana o seu nobre coração para me suavizar este martírio? Quem me levaria ao desterro uma palavra amiga que me animasse a crer em Deus? Não há de enlouquecer, Mariana, porque eu sei que me estima, que me ama, e que afrontará com coragem a maior desgraça que ainda pode sugerir-me o inferno! Chore, minha irmã, chore: mas veja-me através das suas lágrimas!
CAPÍTULO XVIII
Mariana, decorridos dias, foi a Viseu recolher a herança paterna Em proporção com o seu nascimento, bem dotada a deixara o laborioso ferrador. Afora os campos, cujo rendimento bastaria para a sustentação dela, Mariana levantou a laje conhecida da lareira e achou os quatrocentos mil réis com que João da Cruz contava para alimentar as regalias de sua decrepitude inerte. Vendeu Mariana as terras, e deixou a casa a sua tia, que nascera nela, e onde seu pai casara.
Liquidada a herança, tornou para o Porto, e depositou o seu cabedal nas mãos de Simão Botelho, dizendo que receava ser roubada na casinha em que vivia, fronteira à Relação, na Rua de S. Bento.
— Por que vendeu as suas terras, Mariana? — perguntou o preso.
— Vendi-as, porque não faço tenção de lá voltar.
— Não faz?... Para onde há de ir, Mariana, indo eu degredado? Fica no Porto?
— Não, senhor, não fico — balbuciou ela como admirada desta pergunta, à qual o seu coração julgava ter respondido de muito.
— Pois não?!
— Vou para o degredo, se vossa senhoria me quiser na sua companhia.
Fingindo-se surpreendido, Simão seria ridículo aos seus próprios olhos.
— Esperava essa resposta, Mariana, e sabia que não me dava outra. Mas sabe o que é o degredo, minha amiga?
— Tenho ouvido dizer muitas vezes o que é, senhor Simão... É uma terra mais quente que a nossa; mas também há lá pão, e vive-se...
— E morre-se abrasado ao sol doentio daquele céu morre-se de saudades da pátria, morre-se muitas vezes dos maus tratos dos governadores das galés, que têm um condenado na conta de fera.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Perdição. 1862. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16586 . Acesso em: 17 jun. 2026.