Por Camilo Castelo Branco (1882)
José Dias e o pai permaneciam em Braga, porque em diferentes pontos da província continuavam as agitações miguelistas; o novo ministério não tinha força, e o Zeferino das Lamelas nunca depusera as armas. Os serezinos faziam excursões e batiam os realistas ou prendiam os agitadores. José Dias, numa dessas surtidas a Vila Verde, a pé e com pouca saúde, ganhara uma bronquite que o teve de cama largo tempo. Quando se levantou, numa aparente convalescença, a tísica tuberculosa recrudescia pessimamente caracterizada. O padre Osório fora visitá-lo, ouvira o médico e sabia que o seu amigo estava perdido. Falou ao pai, em particular, no estado do filho. Lembroulhe a sua promessa de consentir no casamento com a pobre Marta, que se perdera confiada nos compromissos do José. O lavrador mostrou não perceber a conveniência de Marta em casar, se o seu filho tinha de morrer cedo. – Que a viúva, dizia, nada ganhava com isso, porque os herdeiros de José eram seus pais. Não compreendeu a questão por outra face. Mas, apertado pela palavra que dera, repetiu que ele pela sua parte concedia a licença, se a mãe a desse; e justificava-se deste respeito à mulher, alegando que a casa de Vilalva era toda da sua companheira, e o que ele levara para o casal não valia dois caracóis.
– Enfim – concluía – se o rapaz arrijar, casa querendo a mãe; mas, enquanto ele assim estiver, faça favor de lhe não falar na rapariga... Bem lhe basta o seu mal... E um homem que está doente deveras não deve pensar em mulheres, é na salvação da sua alma. Eu penso assim, amigo padre Osório.
– O vigário aprende o padre-nosso – dizia o de Caldelas.
Entretanto, o doente, muito animado, não sentia aqueles desalentos e presságios de morte que meses antes o afligiam. Habituara-se ao sofrimento; já não tinha memória das perfeitas delícias da saúde. Quando expectorava sem violência, e a dispneia cedia aos xaropes e ao pez de Borgonha, julgava-se numa quase-completa restauração. Escrevia ao Osório e a Marta com muita alegria e devotos agradecimentos a Deus e a Maria Santíssima, com quem se apegara fervorosamente desde que padecia, e também com o óleo de fígado de bacalhau.
A repugnância de Marta, face a face do tio Feliciano, seria um afrontoso desengano para o milionário, se não interviesse o implacável e engenhoso ciúme de Zeferino. Este chefe de guerrilha em armistício soube que o brasileiro queria casar com a sobrinha e que o José Dias estava em Braga muito acabado, a dar à casca. O pedreiro chamou os bravos da sua jolda e fez-lhes saber que o brasileiro de Prazins pedira para Famalicão um regimento da divisão do Antas para deitar cerco às casas dos realistas, e sujeitara-se a sustentar o regimento à sua custa. Resolveram atacar o Feliciano, prendêlo como cabralista, e fazê-lo pôr à má cara o dinheiro que havia de dar à tropa. Um dos da malta, vizinho do brasileiro, o Metro, tinha-o convidado para padrinho de um filho. Procurou-o às escondidas e avisou-o que se escondesse. Feliciano fugiu para o Porto a toda a pressa. Queria que a sobrinha também fosse. Escrevia-lhe que, se quisesse ir, compraria casa no Porto. Marta respondia que estava muito doente, que não podia sair da cama. O pai chegava a descompô-la: – Que não tinha moléstia nenhuma, que era por causa do Zé Dias; mas que perdesse dai a ideia porque estivera com o Dr. Pedrosa, de Santo Tirso, que o vira em Braga, e lhe dissera que o Dias estava ethego e mais mês menos mês esticava a canela.
Marta respondia com serenidade de alma forte, e escorada numa resolução suicida:
– Se não casar com ele neste mundo, casarei no outro.
– Que te leve o Diabo! – resmungava o Simeão, riçando freneticamente as suíças. Depois voltava manso e velhaco à beira do leito: – Olha, menina, teu tio está velho e esmagriçado. Aquilo não pode ir longe. Tu ficas para aí podre de rica, e podes casar depois com um fidalgo, se quiseres...
– Valha-me Nossa Senhora! – murmurava Marta, pondo os olhos na litografia da Mãe de Jesus traspassada das sete espadas. – Quem me dera morrer...
A tísica do José Dias com as frialdades húmidas de Novembro entrou no segundo período. Recrudesceram as dores de peito e a dispneia, com acessos febris nocturnos. Expectoração esverdeada com estrias amarelas, e extrema magreza com repugnância a todo o alimento. Pela auscultação ouvia-se-lhe o som gargarejado do fervor cavernoso. Os médicos disseram ao pai que o tirasse de Braga, das incomodidades da estalagem, e o levasse para casa, onde lhe seria mais suave a morte na sua cama, com a assistência da família. Foi para Vilalva transportado numa liteira, e dizia ao pai que se sentia melhor, que respirava mais desafogado; e que, se há mais tempo tivessem saído de Braga, já ele estaria rijo.
A mãe, quando o viu entrar tão acabado, tão desfigurado, fez um berreiro descomunal, e não teve mão em si que não rogasse pragas à Marta, que lhe matara o seu querido filhinho. As vizinhas concordavam: – que diabos levasse a mulher que o tolhera!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. A brasileira de Prazins. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1778 . Acesso em: 17 jun. 2026.