Por Eça de Queirós (1925)
dividuo, depois de ge installar, cumprimentou cortezmente, dizendo :
— Que terrivel noite !
— Terrivel — concordou Arthur.
Julgou-o então um diplomata, vindo de Madrid ou de Paris. Examinava-lhe a rica pelliça, a charuteira com uma coroa de prata em relevo, d'onde escolhia um breca, as luvas muito grossas, d'uma pelle aspera e branca, e pensava, fascinado, que aquella figura digna atravessara salões reaes, rogara personagens historicos.
— P'ra Lisboa, creio eu ? — perguntou-lhe o sujeito.
— Sim, vou p'ra Lisboa — disse Arthur.
— Que tal S. Carlos este anno
Arthur cuspilhou uma pellicula de tabaco e córando um pouco :
— Este anno . . . Este anno, muito bom.
— Valha-nos isso — disse o individuo.
E ficou immovel, com as palpebrag cerradas, fumando com beatitude.
Arthur receou logo outras perguntas sobre Lisboa, familias fidalgas, musicos, e não querendo revelar ignorancia plebeia, ia affectar uma somnolencia fatigada, repoltreando-se no seu canto — quando viu o sujeito desapertar as fitas do cesto e tirar para o regaço um cãozinho amarello, que lhe pareceu semelhante a um sapo, de focinho negro e achatado, vincado de duas rugas velhas, e olhos redondos e estupidos.
— Tem tido uma jornada trabalhosa — disse o sujeito.
— Tem vindo no cesto
— Desde Paris, pobre John !
Levou-o aos labios como uma cousa preciosa e santa, e deu-lhe sobre o ventre macio e liso beijinhos chilreados. Chamou-lhe ainda perda, anjo. Acalentou-o gob a pelliça, contra o coração. E exclamava compenetrado para Arthur :
—É um amor ! — E depois d'uma fumaça : —É para a Snr. a Marqueza de Folhes. . . Conhece talvez Arthur disse baixo :
— Sim , . .
— Ah, conhece — exclamou o individuo, com a face clareada de riso.
Inquieto, Arthur acudia :
— De nome !
— Ah ! . . . Excellente senhora.
Accommodou maternalmente John no cesto, sobre o seu leito d'algodão, e estirando discretamente os braços: declarou que o que tinham a fazer era dormir até Lisboa. S. Ex. a dava licença que corresse 0 transparente da lampada, não Perfeitamente. Arranjou o travesseiro, estirou-se com um ah de gozo, cruzou as mãos sobre a pelliça, e cantarolou com melancolia, como uma oração da noite :
Si tu n'avais rien à me dire
Pourquoi venir anpres de moi ?
Bocejou enormemente e d'ahi a pouco resonava com dignidade.
Axthur, fatigado, foi cerrando os olhos, no seu canto, na penumbra do wagon Parecia-lhe estar n'um sala, toda d'ouro e velludo, onde a senhora Marqueza de Folhes conversava com a tia Sabina, fallando d'elle . . . mas não as ouvia bem por causa d'um estrondo de ferragens que rolavam surdamente. De repente, fazia-se um silencio e acordava: luzes mortiças, ao lado, alumiavam uma estação ; vultos abafados, fóra, na noite, passavam com lanternas. Chovia sempre ; havia um silencio infinito na negrura dos campos adormecidos, e adeante, na sombra, sem descontinuar, a machina resfolgava baixo. Depois o comboio rolava de novo, e o seu sonho retomava-o atravez d'uma sensação de frialdade nos pés : reconhecia que era um lago muito azul, batido de luar ; o Rabecaz e elle remavam n'um bote, com o Almirante ao leme. Então, junto d'elle, na escuridão, uma voz de timbre andaluz suspirava o seu nomo ; voltava-se, via dous olhos arabes, scintillando sob uma mantilha hespanhola : ia beijal-os, mas a mantilha, escorregando, descobria uma caveira ! Acordou com um estremeção Uma voz ia dizendo ao comprido do comboio parado :
— Alhandra ! Alhandra !
Um ar livido de madrugada clareava atravez da neblina chuvosa. Saloios de varapaus, encolhidos nas mantas listradas, passavam ; na plataforma, descarregavam-se caixotes ; um comboio de mercadorias rolou ao lado, com wagons carregados de pipas, e outros, gradeados, d'onde sahiam cornos de bois. Depois, um creado de farda passou, correndo, com um ramo de flores na mão.
O coração d'Arthur bateu, invadido da alegria d'aquella proximidade de Lisboa.
O comboio partiu de novo. Pareceu-lhe, atravez da nevoa, avistar uma superficie de rio côr d'aço ; depois um campo d'oliveirag correu ao lado ; e os seus olhos, fixos nos vidros embaciados, foram-se cerrando, na fadiga d'aquella madrugada fria . . .
— Povoa ! Povoa !
Despertou.
O sujeito de pelliça, sentado, espreguiçava-se. — Ora emfim ! Nous coità !
Ergueu-se, ageitou a pelliça, poz um chapéu de casimira, e entreabrindo o cesto do pug :
— Amor, estamos no fim dos nossos trabalhos. Como tem dormido o amigo John, hein ? Chegámos, percebeu? . . . Aqui está na patria de Luiz de Camões! Voltou-se para Arthur, rindo do seu gracejo :
Não é má, hein ? — e repetiu ao pug que gaInia : -—- Aqui estamos na patria de Camões.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.