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#Contos#Literatura Portuguesa

São Cristóvão

Por Eça de Queirós (1912)

De madrugada, os Jacques levantaram o campo, e guiados sempre pelo velho e pelo frade, partiram ao longo do regato, até que chegando aos primeiros carvalhos de um grande bosque, sentiram um cheiro nauseabundo, e viram um homem, um servo, enforcado num ramo de árvore, e já meio roído pelos corvos. Uma indignação correu entre os Jacques, quando alguns que se tinham adiantado descobriram outros corpos pendentes das árvores. Ao rumor da turba, os corvos fugiam de entre as ramagens: e sob os pés dos mortos, suspenso no alto, o chão estava todo espezinhado das patas dos lobos. Lá em cima, numa colina, negras na luz clara, apareciam as torres de um castelo. E aquilo era decerto a justiça do Senhor!

Então um clamor de cólera correu entre os Jacques. Uns queriam lançar fogo à floresta, para envolver o castelo. Outros falavam em abater as árvores, para fazer aríetes com que bater as muralhas. E Cristóvão, impelido pela multidão, que atrás dele brandia as foices e os chuços, começou a subir um caminho que levava ao castelo, entre as rochas que o musgo cobria.

Avistaram, por fim, ladeando uma torre de menagem, altas muralhas negras e sombrias, com grandes manchas brancas de pedra nova, que eram como cicatrizes de assédios. A ponte levadiça estava fechada, o gradil de ferro descido. E uma estacada de vigas cercava o fosso, de água esverdeada. Nem um rumor saía das muralhas. Tudo parecia abandonado. De um dos lados, grandes rochas rolavam em desordem, para um precipício. Uma águia voava nas alturas.

Uma inquietação deteve os Jacques ante aquele silêncio sinistro. Alguns, pensando o castelo abandonado, gritavam que se seguisse. Outros falavam de o escalar. E Cristóvão, ao acaso, caminhou para a ponte levadiça. Mas, subitamente, as correntes rangeram, a ponte abateu, e das portas que se escancararam, um troço e cavaleiros saiu, de viseira baixa, a lança em riste, num grande galope e estridor de armaduras. Os Jacques recuaram em massa. Cristóvão estava só no planalto.

À frente dos cavaleiros, um, de grandes plumas brancas no elmo, a lança enristada, correu sobre ele. Cristóvão já não tinha a sua barra de ferro.

Mas correu a um pinheiro, agarrou-o às mãos ambas, arrancou-o da terra, e tomando-o como uma monstruosa vassoura, atirou-o num gesto de servo que varre, contra o cavaleiro e o cavalo, que rolaram, com um estampido de armas, embrulhados na rama densa. Num pulo Cristóvão empolgou o cavaleiro, e segurando-o entre os joelhos como uma criança débil, partiu-lhe as fivelas do elmo, descobriu uma cabeça lívida, uma espessa barba ruiva. Depois, erguendo-o ao ar como um broquel contra os outros cavaleiros, que tinham estacado num espanto mudo, gritou desesperadamente: “resgate, resgate!” Os Jacques cercavam Cristóvão, querendo despedaçar o Senhor prisioneiro. E ele erguia mais alto o miserável, que nem se movia, seguro nas mãos de ferro, e gritava: “Resgate, resgate!”

Os outros cavaleiros, num furor súbito, correram sobre ele. Mas Cristóvão, saltando para a beira do precipício, debruçou sobre ele o prisioneiro, como se fosse despenhar na corrente e nas penedias, gritando sempre: “Resgate!” Então os cavaleiros pararam, e rapidamente consultaram-se, com grandes gestos dos seus guantes de ferro até que um, avançando, bradou: “Está resgatado!”

O velho avançou também, e expôs o resgate. Queria dinheiro, vinte sacos de pão, vacas, vinho, para sustentar a sua gente, um juramento sobre a cruz que não seriam perseguidos, e dois carros para levar os mantimentos. O cavaleiro estendeu a mão sobre a cruz do frade, e jurou.

Então os Jacques, abaixando as armas, esperaram – enquanto Cristóvão, sentado na rocha, tinha o cavaleiro atravessado sobre os joelhos, com a mão direita agarrando-lhe as pernas, com a esquerda a garganta. Pouco a pouco os servos saíram da castelo trazendo o resgate – e os Jacques desceram o caminho, rodeando os animais e os dois carros com os sacos, o ouro e os odres de vinho; Cristóvão ficara só com o cavaleiro. Quando o último homem desapareceu para além da colina, ele pousou o cavaleiro no chão com cuidado, e murmurou simplesmente: “Vai”.

E, sem se voltar, passo a passo, foi-se juntar aos Jacques.

(continua...)

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