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#Romances#Literatura Portuguesa

O Mistério da Estrada de Sintra

Por Eça de Queirós (1870)

— Vê-lo. Quero vê-lo. Quero! Não me diga que não. Quero pedir-lhe perdão, amá-lo,servi-lo, ser a sua criada, a sua enfermeira... Parou, e, desprendendo-se do meu braço: — E a outra? Não a quero ver lá! Ela está lá? Não quero que ela o trate. Mato-a, se avejo. A outra, não, não, não! Não a deixe che gar ao pé dele. Peço-lhe a si. Não, não a deixe chegar. Eu só, só eu basto.Subitamente cerrou os olhos, estremeceu, deu um grande sus piro, e caiu no chão imóvel.

Levantei-a, deitei-a no sofá, borrifei-a de água; e ela com uma voz expirante:

— Eu morro! Eu morro... Chame um padre. Não lhe tinha di to... Envenenei-me. — Envenenouse? — gritei aterrado. — Naquele frasco, ali!

XII

O médico, apressadamente chamado, declarou que não havia perigo. Cármen tinha tomado o veneno num preparado fraco, e nu ma porção diminuta. Podia, porém, recear-seque a sua extrema susceptibilidade nervosa, a exaltação do seu espírito, provocassem uma febre cerebral. Mas, ao despontar do dia, adormeceu, vencida por uma prostração absoluta, em que a vida só se fazia sentir pe los ais soluçados que se lhe desprendiam do peito.Fui então ver a condessa. Não se tinha deitado. Ficara em brulhada num xaile, sentada aos pés da cama, numa atitude ab sorta de dor e de inércia que me encheu de piedade. Eradia. Mas as janelas conservavam-se fechadas, e as luzes ardiam melancoli camente. As jarras estavam cheias de flores.

Sobre uma pequena mesa havia um serviço de chocolate, de porcelana azul, para duaspessoas. O chocolate tinha arrefecido, as flores murchavam.

— Então? — disse ela quando me nu.- Então! Ele está curado, e bom num mês. A condessa deve partir dentro de quinze dias.

— Ao menos quero dizer-lhe adeus... um momento, um instan te que seja! Não me podeimpedir isto: não me impeça, não?

— De modo algum, prima. Eu mesmo lhe facilito. — E ela?- Ela, minha prima? Entrei no quarto dela para a arrastar ao primeiro policeman que passasse. Sai jurando que em toda a parte aquela mulher me havia de achar ao seu lado paradefender e, se ela o quisesse, para a amar.

Tem talvez razão: é uma verdadeira mulher. — É mais do que isso, minha prima... Se alguma vez a paixão se encarnou neste mundonum aspecto divino foi naquela mulher. É a deusa da paixão. De resto tem a grande qualidade: — a lógica.Eu, na realidade, tomara por Cármen uma grande admiração! Eu, que na sua saúde, e na sua beleza feliz, nunca lhe dissera uma palavra galante, era agora, nas suas horas de dor e doença, o seu fiel cavalliere serviente. Vi-a convalescer sob os meus cuidados. D. Nicaziotinha ido para Sicília. Sustentei és primeiros passes que ela deu no seu quarto, extremamente magra, como olhar quebra do, uma transparência mórbid a na fisionomia, e a imaginaçãodoente.

Começou logo a entregar-se alongas orações, a leituras piedo sas. O seu intento era entrar num convento em Espanha, e ali, ma tar o seu corpo na penitência e na dor. Passavaagora os dias nas igrejas. Estava mudada nos seus hábitos e nas suas maneiras. A sua beleza mesmo tomava uma expressão ascética. Tinha-se ver dadeiramente desligado do mundo. Àsvezes olhava-me, e dizia de repente, lembrando o convento:

— É triste! Aos vinte e oito anos! Mas a exaltação religiosa retomava-a, e então perdia-se em esperanças, ideias de umaredenção pela oração, pele jejum, pelo silêncio e pela contemplação. Naquele espírito visitado por todas as paixões, e sempre numa vibração exaltada, entrava por seu tur no esombrio catolicismo espanhol, e vende o lugar deserto das ou tras ideias do mundo, acampava lá serenamente.

Um dia pediu-me para ir ver Rytmel antes de partir para Es panha.

— É como irmã da caridade que o quero ver! Levei-a a casa de Rytmel, uma noite. O quarto estava mal ilu minado pela desmaiada luz de velas de estearina. A palidez de Rytmel era dolorosa sobre a brancura do seutravesseiro. Cármen entrou, arremessou-se de joelhos ao pé da cama dele, tomou-lhe uma das mãos e ficou ali soluçando longo tempo. Rytmel chorava também.

Eu tinha-me encostado à parede, e sentia invadir-me uma tristeza, profunda einsondável come a noite. Um vizinho, cuja ja nela abria para o estreito pátio, para onde dava também a janela de Rytmel, tocava nesse momento na sua rabeca, com uma melan coliaplangente, a valsa do Baile de Máscaras, que, sendo doce e te nebrosa, desperta não sei queideias de festa e de morte, de amor e de claustro.

(continua...)

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