Por Eça de Queirós (1900)
Uma girândola de foguetes estoirou ao longe, para o lado dos Bravais, onde no domingo se fazia a romaria celebrada da Senhora das Candeias. Depois da chuva daqueles três dias, uma frescura descia do céu amaciado e lavado sobre as campos mais verdes. E como ainda restava meia hora farta antes de jantar, o Fidalgo agarrou o chapéu, e mesmo na sua velha quinzena de trabalho, com uma bengalinha de cana, desceu à estrada, tomou pelo caminho que se estreita entre o muro da Torre e as terras de centeio onde assentavam no século XII as barbacãs da Honra de Santa Irenéia.
Pela silenciosa vereda, ainda úmida, Gonçalo pensava nos seus avós formidáveis. Como eles ressurgiam, na sua Novela, sólidos e ressoantes! E realmente uma compreensão tão segura daquelas almas Afonsinas mostrava que a sua alma conservava o mesmo quilate e saíra do mesmo rico bloco de ouro. Porque um coração mole, ou degenerado, não saberia narrar corações tão fortes, de eras tão fortes - e nunca o bom Manuel Duarte ou o Barrolo excelente entenderiam, bastante para lhes reconstruir os altos espíritos, Martim de Freitas ou Afonso de Albuquerque... Nesta fina verdade desejaria ele que os críticos insistissem ao estudar depois a Torre de D. Ramires - pois que o Castanheiro lhe assegurara artigos consideráveis nas
Novidades e na Manhã. Sim! eis o que convinha marcar com relevo (e ele o lembraria ao Castanheiro!) - que os Ricos-homens de Santa Irenéia reviviam no seu neto, se não pela continuação heróica das mesmas façanhas, pela mesma alevantada compreensão do heroísmo... Que diabo! sob o reinado do horrendo S. Fulgêncio ele não podia desmantelar o solar de Baião, desmantelado há seiscentos anos por seu avô Leonel Ramires - nem retomar aos Mouros essa torreada Monforte onde o Antoninho Moreno era o lânguido Governador Civil! Mas sentia a grandeza e o préstimo histórico desse arrojo que outrora impelia os seus a arrasar Solares rivais, a escalar Vilas mouriscas; ressuscitava pelo Saber e pela Arte, arrojava para a vida ambiente esses varões temerosos, com os seus corações, os seus trajes, as suas imensas cutiladas, as suas bravatas sublimes; dentro do espírito e das expressões do seu Século era pois um bom Ramires - um Ramires de nobres energias, não façanhudas, mas intelectuais, como competia numa Idade de intelectual descanso. E os jornais, que tanto motejam a decadência dos Fidalgos de Portugal, deveriam em justiça afirmar (e ele o lembraria ao Castanheiro!): -"Eis aí um, e o maior, que, com as formas e os modos do seu tempo, continua e honra a sua raça!"
Através destes pensamentos, que mais lhe enrijavam as passadas sobre chão tão calcado pelos seus - o Fidalgo da Torre chegara à esquina do muro da quinta, onde uma ladeirenta e apertada azinhaga a divide do pinheiral e da mata. Do portão nobre, que outrora se erguera nesse recanto com lavores e brasão de armas, restam apenas os dois umbrais de granito, amarelados de musgo, cerrados contra o gado por uma cancela de tábuas mal pregadas, carcomidas da chuva e dos anos. E nesse momento, da azinhaga funda, apagada em sombra, subia chiando, carregada de mato, um carro de bois, que uma linda boeirinha guiava
- Nosso Senhor lhe dê muito boas-tardes!
- Boas-tardes, florzinha!
O carro lento passou. E logo atrás surgiu um homem, esgrouviado e escuro, trazendo ao ombro O cajado, donde pendia um molho de cordas.
O Fidalgo da Torre reconheceu o José Casco dos Bravais. E seguia, como desatento, pela orla do pinheiral, assobiando, raspando com a bengalinha as silvas floridas do valado. O outro porém estugou o passo esgalgado, lançou duramente, no silêncio do arvoredo e da tarde, o nome do Fidalgo. Então, com um pulo do coração, Gonçalo Mendes Ramires parou, forçando um sorriso afável:
- Olá! É você, José! Então que temos?
O Casco engasgara, com as costelas a arfar sob a encardida camisa de trabalho. Por fim, desenfiando das cordas o marmeleiro que cravou no chão pela choupa:
- Temos que eu falei sempre claro com o Fidalgo, e não era para que depois me faltasse àpalavra!
Gonçalo Ramires levantou a cabeça com uma dignidade lenta e custosa - como se levantasse uma maça de ferro:
- Que está você a dizer, Casco? Faltar à palavra! em que lhe faltei eu à palavra?... Por causa doarrendamento da Torre? Essa é nova! Então houve por acaso escritura assinada entre nós? Você não voltou, não apareceu...
O Casco emudecera, assombrado. Depois, com uma cólera em que lhe tremiam os beiços brancos, lhe tremiam as secas mãos cabeludas, fincadas ao cabo do varapau:
- Se houvesse papel assinado o Fidalgo não podia recuar!... Mas era como se houvesse, paragente de bem!... Até V. Sra. disse, quando eu aceitei: "viva! está tratado!" O Fidalgo deu a sua palavra!
Gonçalo, enfiado, aparentou a paciência dum senhor benévolo:
- Escute, José Casco. Aqui não é lugar, na estrada. Se quer conversar comigo apareça na Torre.Eu lá estou sempre, como você sabe, de manhã... Vá amanhã, não me incomoda.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.