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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Brilhantes do Brasileiro

Por Camilo Castelo Branco (1869)

― Fidalgo, vossa excelência, se quer que Deus o escute, siga a lei cristã: tenha pena de sua filha, perdoe-lhe pelo divino amor de Deus. Pode ser que depois a misericórdia de Jesus Cristo se compadeça de vossa excelência.

― E quem te disse a ti que ela era minha filha? – repetiu o cego a pergunta feita um ano antes.

― Disse-mo vossa excelência, quando ela o visitava; muitas vezes me escreveu lá para o Paço: “Manda-me boa fruta que tenho cá minha filha”. Há de perdoar-me, fidalgo; mas vossa excelência só deixou de lhe chamar filha depois que ela quis casar com um homem mecânico...

― E se perverteu... – atalhou rancoroso o cego.

― Mentiram-lhe, fidalgo; ela não praticou ação má senão a de querer ser esposa dum pobre. ― Não sabes nada, pedaço de asno. Tenho ali uma carta de minha irmã Beatriz.

― Bem sei, meu senhor.

― Sabes? quem to disse?

― A Sr.ª D. Ângela.

― Quem lha mostrou?

― Viu-a ela, quando escreveu a vossa excelência uma carta sobre a sua escrivaninha. Essa carta diz que os criados da senhora sua irmã, a quem Deus perdoe, tinham arrancado a fidalga dos braços do tal filho do sacristão. Era uma mentira de clamar vingança aos anjos. Sua excelentíssima filha, quando, desesperada, procurara o tal homem, não o encontrou, tinha saído para o Porto.

― Quem to contou?

― Vitorina, que saiu de Gondar com a Sr.ª D. Ângela, quando tinha dois anos; o próprio capelão, e todos os criados da Sr.ª D. Beatriz, que lá está onde as contas são apertadas.

― Por que não disseste isso até hoje?

― Porque vossa excelência se desesperava assim que eu começava a falar na Sr.ª D. Ângela, e depois...

― Depois o que?... Não respondes?!

― Vossa excelência começava a dizer que via a mãe da menina, e a sacudir os braços que me fazia terror.

― Está bom! Está bom! – murmurava guturalmente o velho, procurando com as mãos trêmulas a boca do criado.

E recaía na concentrada prostração que durava horas e dias.

Uma vez, o general acordou de sobressalto, por noite fora, chamou João Pedro com aflição, e disse-lhe:

― Quem anda na casa?

― Ninguém, senhor... Serão os ratos que os há nela de tamanho de leitões.

― Não mangues comigo, João!

― Ó fidalgo! Eu mangar com vossa excelência!...

― Aí anda gente... os passos e a voz são de Ângela...

― Deus permitisse que fosse ela... O senhor general estava agora sonhando, e às vezes falava em sua filha.

― Falava?

― Sim, meu senhor.

― Então era sonho...

― E, se ela lhe aparecesse... se vossa excelência a visse de repente...

― Não vês que estou cego... Cego, meu Deus!

― Pois sim; mas se vossa excelência lhe ouvisse a voz, e lhe deixasse beijar as mãos...

Tu quando a viste?

Eu, senhor? Vi-a há oito anos, quando vossa excelência estava em França, e me mandou entregar-lhe o cofre dos enfeites.

― E estava aonde?

― Perto da vila de Barrosas, e casou no dia em que lá cheguei... Eu já contei a vossa excelência isto... ― Mas ela escreveu-me há coisas de ano e meio. Onde estava então?

― No Porto.

― E nunca mais soubeste dela nada?

― Não, fidalgo... Isto é... – tartamudeou o mordomo – quero dizer...

― Soubeste, ou não?

― Ela a mim nunca me escreveu; mas, cá em Ponte, ouvi dizer que o marido a deixara e fora para o Brasil.

― Por quê?

― Não sei... – responde pronto João Pedro, como quem esperava a pergunta, e tencionava esconder os boatos desairosos para a filha de seu amo.

― Não sabes? Alguma nova desonra!... Quem te contou isso? Quero saber...

― Não me recordo a quem o ouvi... Parece-me que foi um padre que já morreu.

― E que é feito dela? Sabes?

― Não sei, meu senhor.

― Quero que saibas... Vai saber isso ao Porto... Indaga por lá.

― E quem há de ficar à beira de vossa excelência?

― Um criado qualquer. Vai já hoje, assim que amanhecer... Sonhei que a via... Ver, meu Deus, ver!... Sonhei que a via... E o meu coração estava alegre... Procura-ma, procura-ma, João!

Seis dias depois, o mordomo voltava triste do Porto. As inculcas lançadas informaram-no de que Ângela, coberta de opróbrio e justo desprezo de todo mundo, se casara com um cirurgião, por amor de quem o marido morrera apaixonado; e ninguém sabia dizer, na vizinhança da casa onde ela habitara, o destino que levaram com certeza; havia, no entanto, quem afirmasse que tinham ido para o Brasil.

Das informações colhidas, João Pedro disse simplesmente que a Sr.ª D. Ângela, viúva do primeiro marido, casara segunda vez, e saíra ou para o Brasil ou para onde se não sabia.

E o mordomo, vendo contrair-se de angústia o rosto cavado de seu amo, chorou de compaixão dele, e de pesar de não ter encontrado Ângela.

― Agora, não se aflija, fidalgo... – disse com a voz quebrada o extremoso servo.

― Deus – soluçou o ancião – despertou-me o desejo de a ter comigo para me redobrar o martírio!... Seja feita a vossa vontade, Senhor!...

XXVI A PROVIDÊNCIA

Pernoitou em Ponte do Lima, no ano de 1853, um cavalheiro de Chaves, de apelido Pizarro, em casa de parentes que também o eram do general Simão de Noronha.

(continua...)

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