Por Camilo Castelo Branco (1882)
Feliciano tinha quarenta e sete anos. Não se parecia com a maioria dos nossos patrícios que regressam do Brasil com unia opulência de formas almofadadas de carnes socadas. Era magro esqueleticamente, um organismo de poeta sugado pelos vampiros do spleen. Dizia, porém, que tinha febras de aço e nunca tomara remédios de botica. Muito míope, usava de monóculo redondo num aro de búfalo verde. Como era económico até à miséria, dizia-se em Pernambuco que o Feliciano usava um vidro só para não comprar dois; e que, se pudesse, venderia um olho como coisa inútil. Com a economia e o trabalho bem propiciado em trinta anos arredondara trezentos contos. Chegara aos quarenta e sete, ao outono da vida, sem ter amado. Nunca se conspurcara nos latíbulos da Vénus vagabunda. A sua virgindade era adnnrada e notória; depunham a favor dela os seus caixeiros, os feitores, e – o que mais é – as suas escravas. Os seus patrícios devassos chamavam-lhe o Feliciano Pudicício. Ele não se envergonhava de confessar a sua castidade ao pároco de Caldelas. Tinha vivido como um dessexuado; – que trabalhava muito nos seus armazéns, que dormia poucas horas, e não dava folga ao corpo nem pega aos vícios. Originalíssimo. Que lhe saíram casamentos ricos; mas que ele para ser rico não tinha precisão de mulher; que vira algumas meninas pobres a namorá-lo; mas que desconfiara que lhe namorassem o seu dinheiro. Não tinha queda para o sexo, que ele dizia seixo. Numa palavra, estava virgem. Ele podia dizer como Hamlet. Não me deleitam os homens nem tão-pouco as mulheres.
A sobrinha reformara aquela natureza aleijada. Talvez o desdém com que Marta o tratava na crise da sua paixão, fosse grande parte no amor do brasileiro. Além disto, a moça, muito parecida com ele na delgadeza das formas, tinha encantos que dispensavam a esquivança para se fazer amar de um homem de quarenta e sete anos – intacto demais a mais. O presente que lhe fez de uma meada de cordões de ouro significava uma desordem, pelo menos interina, na sua condição sovina. Marta aceitou a dádiva sem entusiasmo nem alegria. Lembrava-se que o pai a prevenira da possibilidade de ser mulher de seu tio, se adregasse gostar dela. Quando o tio lhe deu os cordões, teve-lhe uma náusea, um quase-ódio, suspeitando-lhe os projectos; e quando ele fugiu para o Porto, com medo às guerrilhas, sentiu ela uma satisfação incomparável. Entretanto, apesar das más informações do brasileiro da Rita Chasca, o Feliciano sentia filtrar-selhe nas células impolutas do coração o veneno doce de uma paixão cheia de condescendências, pouco superciliosa em pontos de honra, como quem pensa que no tálamo conjugal não se faz mister a virgindade em duplicado. Mas não era assim que ele pensava. Ninguém lhe desdourara a honra da sobrinha, nem o derriço com o José Dias fazia implicância à sua honestidade. Ele não tinha os rudimentos de malícia necessária para desconfiar que uma menina de dezasseis anos, criada nos seios da natureza imaculada de uma aldeia do Minho, pudesse abrir de noite uma janela, debruçar-se no peitoril e ajudar a subir um homem. O oficial do pedreiro é que sabia casos, anomalias, desde aquela noite em que o luar o enganou.
Marta ouvira aterrada a noticia que o pai lhe deu da vontade do tio. Irritou-se. Tinha sido criada com muito mimo, sem mãe, voluntariosa, e com uns ares senhoris que desautorizavam o respeito que o pai, rústico lavrador, não sabia incutir. Em vez de chorar corno as filhas desgraçadas e humildes, respondeu desabridamente que não casava com o tio; que o desenganasse, se quisesse; e, se não quisesse, ela o desenganaria. A terrível nota golpearalhe o coração cheio de saudades de José Dias, que lhe escrevera de Braga, por intervenção do padre Osório, dandolhe coragem e esperança no casamento logo que cessasse a guerra. Foi esse alento que a revoltou contra o pai quando ele instava com ela a casar com o tio, que era talvez, dizia, o homem mais rico de Portugal, abaixo do rei. Marta replicava com trejeitos de tédio desdenhoso; e, exaltada pela boçal insistência do pai, protestava, se a apoquentassem, atirar-se ao rio como sua mãe.
O Simeão perdeu a vontade de comer; andava atordoado numa tristeza estúpida a dar uns ais pela casa que pareciam mugidos de bezerro perdido na serra. A pequena já não queria ir à mesa, metia-se na cama e fingia-se doente para não encontrar o tio Feliciano.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. A brasileira de Prazins. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1778 . Acesso em: 17 jun. 2026.