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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

N'essa noite, por despedida, Arthur ceou com Rabecaz, que tinha preparado uma carta de recommendação para o pandego do Melchior 9.

— O amigo indaga onde elle vive, entrega-lhe a carta, e elle ha-do-o fazer gosar ! Onde conta o famigo hospedar-se

Arthur tencionava ir viver com Damião. Afinal era o unico amigo que tinha em Lisboa. Além d'isso, um Damião, um genio, devia estar relacionado na litteratura, na imprensa . . . e, emfim, elle queria sobretudo viver no meio intellectual . . .

O Rabecaz oscillava a cabeça, desapprovando :

— Ferre-se n'um bom hotel, ferre-se no Universal, no Chiado. Tem as cantoras á mão . . . Bella mesa redonda . . . tudo do fino, tudo do catita. Vó pom o que lhe digo, ferre-se no Universal.

Mas Arthur, nos primeiros tempos, não queria afrontar o laxo desproporcionado d'um hotel no Chiado. Mais tarde, sim, quando tivesse feito fato, roupa branca . . .

— Então, ferre-se no HespanhoZ, na rua da Prata. Tem boa pandega tambem Vá para o Hespanhol.

E até á porta de casa, foi-lhe fazendo recommendações : que visse Cintra, que fosse ao João da Mouraria, para gosar o verdadeiro fadinho que não deixasse d'ir ás hespanholas. E que lhe escrevosse !

Arthur, pesado da ceia, escutava-o vagamente, de mãos nos bolsos, charuto caro nos dentes, e, no fundo escuro da noite, parecia-lhe vêr a sua vida em Lisboa erguer-se, muito alta, como um tropheu muito ornado, onde, de cima abaixo, felicidades vagas e deliciosas scintillassem.

Quando bateu á porta, ficou surprehendido de ouvir uma voz grave que não conhecia, perguntar com desconfiança :

— Quem é

Houve um ruido de trancas, de ferrolho corrido, e o forte portão abriu-se devagar. Um rapazote, de espingarda aperrada, esperava no meio do pateo, e a tia Sabina, de saiote pelos hombros, alumiava do patamar. Com tanto dinheiro em casa, não tinham querido ficar sós. O Vasco approvára, e ti-

nham mandado vir da quinta o moço com a espingarda.

No dia seguinte, a despedida foi triste. Desde manhã, Sabina chorava pela casa. Ricardina, para disfarçar a sua desconsolação, ralhava, muito nervoga, Até o Albuquerquezinho parecia impressionado : toda a manhã passeara pela sala de jantar, de testa franzida, as mios atraz das costas, rosnando :

— Ingrato ingrato ! Mau pirata, mau pirata !

O dia estava escuro e ventoso. Ao lado, na Egreja, tocava a finados pela mulher do Dr. Marques, e aquelle negrume d'inverno, o dobre do sino, pareciam augmentar a melancolia da separação.

Arthur, commovido, repetia a cada momento que era só por dois mezes :

— Mal comece o calor da primavera, cá estou de volta.

E era sincero, tomado d'uma saudade por aquelIas affeições simples que deixava, pelo seu quarto, que durante esses longos annos elle povoára de sonhos e d'imaginações queridas.

Ás duas horas, o moço do char-à-bancs veio buscar o bahú e Rabecaz appareceu. Ia acompanhar Arthur á estação, e conservava-se á porta da gala, de chapéu na mão, erecto, muito digno na presenga das senhoras,

— Adeus, tias, adeus !

Então, n'um romper de soluços, Arthur foi dos braços de Ricardina para os de Sabina.

— É por pouco tempo, é por pouco tempo — balbuciava.

— E vae bem rocommendado, exoellentissimas senhoras — disse Rabecaz, curvando-se.

E Arthur sahiu com os olhos arrazados de lagrimas.

No pateo, encontrou o Albuquerquezinho, de braços abertos :

— Boa viagem, Arthurzinho. Fique deseangado, eu cá vigiarei. Ha-de haver ordem a bor do

No meio da estrada, um tirante que se quebrou atrazou o carro. Um vento triste gemia entre os pinheiraes ; já começavam a cahir gotas de chuva. Arthur ie calado, ainda commovido, e o Rabecaz fumava sombriamente, com a chapeleira d'Arthur entre os joelhos.

Mas á vista da estação, da machina que já so prava, voltada para Lisboa, uma alegria tumultuosa invadiu Arthur: já no wagon, ria, de nervoso, sentindo a molleza do assento, estofado de casimira suja, ceder confortavelmente, como um antegozo da vida em que se ia installar agora. Ã portinhola, Rabecaz continuava os seus conselhos : que fosse ás hespanholas ! Que gozasse !

de vez em quando, contemplando-o oom amargura :

— Seu felizão . — rosnava.

A locomotiva silvou — o comboio rolou.

— Não se esqueça da boquilha ! — gritou-lhe ainda o Rabecaz,

No Entroncamento, depois de cear, Arthur embrulhou regaladamente os joelhos na manta e accendeu o seu charuto com uma felicidade immensa,

O comboio de Madrid, atrazado, acabava de chegar : o trem ia partir. Fóra, chovia, ventava forte, e Arthur seguia com os olhos uma lanterna avermelhada que errava, do lado dos raiZg, na noite tenebrosa, quando a porta se abriu vivamente, e um sujeito esbaforido apparecen, atirando para o assento uma maleta envernizada, um rolo de plaids, outro de bengalinhas, um cesto atado com fitas de sêda azul e uma almofada de folhos. Vinha abafado n'uma pelliça, e a alta gola erguida, o gorro de pelles sobre os olhos, apenas deixavam vêr uma face rosada c nutrida e uma bella barba alourada.

Arthur suppol-o logo estrangeiro — mas o in-

(continua...)

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