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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Maias

Por Eça de Queirós (1888)

- E o pésinho? - E o marquez, já com os olhos accesos, passava de vagar a mão pela calva.

Taveira não reparara no pé. Não era amador de pés...

- Quem estava? perguntou Carlos, indolente e bocejando.

- A gente do costume... É verdade, sabes quem tomou a frisa ao lado da tua? Os Gouvarinhos. Lá appareceram hoje...

Carlos não conhecia os Gouvarinhos. Em redor explicaram-lhe: o conde de Gouvarinho, o par do reino, um homem alto, de lunetas, poseur... E a condessa, uma senhora inglesada, de cabello côr de cenoura, muito bem feita... Emfim, Carlos não conhecia.

Villaça encontrava o conde no centro progressista, onde elle era uma columna do partido. Rapaz de talento, segundo o Villaça. O que o espantava é que elle podesse ter assim frisa de assignatura, atrapalhado como estava: ainda não havia tres mezes lhe tinham protestado uma letra de oitocentos mil réis, no tribunal do commercio...

- Um asno, um caloteiro! disse o marquez com nojo.

- Passa-se lá bem, ás terças feiras... - disse Taveira, mirando a sua meia de seda.

Depois fallou-se do duello do Azevedo da Opinião com o Sá Nunes, auctor d'El-Rei Bolacha, a grande magica da Rua dos Condes, e ultimamente ministro da marinha: tinham-se tratado furiosamente nos jornaes de pulhas e de ladrões: e havia dez interminaveis dias que estavam desafiados e que Lisboa, em pasmaceira, esperava o sangue. Cruges ouvira que Sá Nunes não se queria bater, por estar de luto por uma tia; dizia-se tambem que o Azevedo partira precipitadamente para o Algarve. Mas a verdade, segundo Villaça, era que o ministro do reino, primo do Azevedo, para evitar o recontro, conservava a casa dos dois cavalheiros bloqueada pela policia...

- Uma canalha! exclamou o marquez com um dos seus resumos brutaes que varriam tudo.

- O ministro não deixa de ter razão, observou Villaça. Isto ás vezes, em duellos, póde bem succeder uma desgraça...

Houve um curto silencio. Carlos, que caía de somno, perguntou ao Taveira, atravez doutro bocejo, se vira o Ega no theatro.

- Podera! La estava de serviço, no seu posto, na frisa dos Cohens, todo puxado...

- Então essa cousa do Ega com a mulher do Cohen, disse o marquez, parece clara...

- Transparente, diaphana! um crystal!...

Carlos, que se erguera a accender uma cigarette para despertar, lembrou logo a grande maxima de D. Diogo: essas cousas nunca se sabiam, e era preferivel não se saberem! Mas o marquez, a isto, lançou-se em considerações pesadas. Estimava que o Ega se atirasse; e

via ahi um facto de represalia social, por o Cohen ser judeu e banqueiro. Em geral não gostava de judeus; mas nada lhe ofendia tanto o gosto e a razão como a especie banqueiro. Comprehendia o salteador de clavina, n'um pinheiral; admittia o communista, arriscando a

pelle sobre uma barricada. Mas os argentarios, os Fulanos e Cas. faziam-n'o encavacar... E achava que destruir-lhes a paz domestica era acto meritorio!

- Duas horas e um quarto! exclamou Taveira, que olhara o relogio. E eu aqui, empregado publico, tendo deveres para com o Estado, logo ás dez horas da manhã.

- Que diabo se faz no tribunal de contas? perguntou Carlos. Joga-se? Cavaquea-se?

- Faz-se um bocado de tudo, para matar tempo... Até contas!

Affonso da Maia já estava recolhido. Sequeira e Steinbroken tinham partido; e D. Diogo, no fundo da sua velha traquitana, lá fôra tambem a tomar ainda gemada, a pôr ainda o emplastro, sob o olho solicito da Margarida, sua cozinheira e seu derradeiro amor. E os

outros não tardaram a deixar o Ramalhete. Taveira, de novo sepultado na ulster, trotou até casa, uma vivendasinha perto com um bonito jardim. O marquez conseguiu levar Cruges no coupé, para lhe ir fazer musica a casa, no orgão, até ás tres ou quatro horas, musica religiosa e triste, que o fazia chorar, pensando nos seus amores e comendo frango frio com fatias de salame. E o viuvo, o Eusebiosinho, esse, batendo o queixo, tão morosa e soturnamente como se caminhasse para a sua propria sepultura, lá se dirigiu ao lupanar onde tinha uma paixão.

O laboratorio de Carlos estava prompto - e muito convidativo, com o seu soalho novo, fornos de tijolo fresco, uma vasta meza de marmore, um amplo divan de clina para o repouso depois das grandes descobertas, e em redor, por sobre peanhas e prateleiras, um

rico brilho de metaes e crystaes; mas as semanas passavam, e todo esse bello material de experimentação, sob a luz branca da claraboia, jazia virgem e ocioso. Só pela manhã um servente ia ganhar o seu tostão diario, dando lá uma volta preguiçosa com um espanador na mão.

(continua...)

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