Por Eça de Queirós (1900)
E o Bastardo, no seu fouveiro, que uma rede de malha cobria, toda acairelada de ouro, atirava a mão calçada de ferro, clamava:
- Para trás, donde vieste, voltarás, burlão traidor, se eu por mercê mandar a teu pai o teu corponumas andas!
Estes feros desafios rolavam em versos serenamente compassados no Poemeto do tio Duarte. E depois de os reforçar, Gonçalo Mendes Ramires (sentindo a alma enfunada pelo heroísmo da sua raça como por um vento que sopra de funda campina) arrojou um contra o outro os dois bandos valorosos. Grande briga, grande grita...
- Ala! Ala!
- Rompe! Rompe!
- Cerra por Baião!
- Casca pelos Ramires!
Através da grossa poeirada e do alevanto zunem os garruchões, as rudes balas de barro despedidas das fundas. Almograves de Santa Irenéia, almograves da Hoste Real, em turmas ligeiras, carregam, topam, com baralhado arremesso de ascumas que se partem, de dardos que se cravam; e ambas logo refogem, refluem enquanto, no chão revolto, algum mal ferido estrebucha aos urros, e os atordoados cambaleando buscam, sob o abrigo do arvoredo, a fresquidão do riacho. Ao meio, no embate mais nobre da peleja, por cima dos corcéis que se empinam, arfando ao peso das coberturas de malha, as lisas pranchas dos montantes lampejam, retinem, embebidas nas chapas dos broquéis; e já, dos altos arções de couro vermelho, desaba algum hirto e chapeado senhor, com um baque de ferragens sobre a terra mole. Cavaleiros e infanções, porém, como num torneio, apenas terçam lanças para se derribarem, abolados os arneses, com clamores de excitada ufania; e sobre a vilanagem contrária, em quem cevam o furor da matança, se abatem os seus espadões, se despenham as suas achas, esmigalhando os cascos de ferro como bilhas de greda.
Por entre a peonagem de Baião e da Hoste Real Lourenço Ramires avança mais levemente que ceifeiro apressado entre erva tenra. A cada arranque do seu rijo murzelo, alagado de espuma, que sacode furiosamente a testeira rostrada - sempre, entre pragas ou gritos por Jesus!, um peito verga trespassado, braços se retorcem em agonia. Todo o seu afã era chocar armas com Lopo. Mas o Bastardo, tão arremessado e afrontador em combate, não se arredara nessa manhã da lomba do outeiro onde uma fila de lanças o guardava, como uma estacada; e com brados, não com golpes, aquentava a lide! No ardor desesperado de romper a viva cerca Lourenço gastava as forças, berrando roucamente pelo Bastardo com os duros ultrajes de churdo! e marrano! Já dentre a trama falseada do camalho lhe borbulhavam do ombro, pela loriga, fios lentos de sangue. Um lanço de virotão, que lhe partira as charneiras da greva esquerda, fendera a perna donde mais sangue brotava, ensopando o forro de estopa. Depois, varado por uma frecha na anca, o seu grande ginete abateu, rolou, estalando no escoucear as cilhas pregueadas. E, desembrulhado dos loros com um salto, Lourenço Ramires encontrou em roda uma sebe eriçada de espadas e chuços, que o cerraram - enquanto do outeiro, debruçado na sela, o Bastardo bramava:
- Tende! tende! para que o colhais às mãos!
Trepando por cima de corpos, que se estorcem sob os seus sapatos de ferro, o valente moço arremete, a golpes arquejados, contra as pontas luzentes que recuam, se furtam... E, triunfantes, redobram os gritos de Lopo de Baião:
- Vivo, vivo! tomade-lo vivo!
- Não, se me restar alma, vilão! - rugia Lourenço.
E mais raivosamente investia, quando um calhau agudo lhe acertou no braço - que logo amorteceu, pendeu, com a espada arrastando, presa ainda ao punho pelo grilhão, mas sem mais servir que uma roca. Num relance ficou agarrado por peões que lhe filavam a gorja, enquanto outros com varadas de ascuma lhe vergavam as pernas retesadas. Tombou por fim direito como um madeiro; e nas cordas com que logo o amarraram, jazeu hirto, sem elmo, sem cervilheira, os olhos duramente cerrados, os cabelos presos numa pasta de poeira e de sangue.
Eis pois cativo Lourenço Ramires! E, diante das andas feitas de ramos e franças de faias em que O estenderam, depois de o borrifarem à pressa com a água fresca do riacho - o Bastardo, limpando às costas da mão o suor que lhe escorria pela face formosa, pelas barbas douradas, murmurava, comovido:
- Ah! Lourenço, Lourenço, grande dor, que bem pudéramos ser irmãos e amigos!
Assim, ajudado pelo tio Duarte, por Walter Scott, por notícias do Panorama, compusera Gonçalo a mal-aventurada lide de Canta-Pedra. E com este desabafo de Lopo, onde perpassava a mágoa do amor vedado, fechou o Cap. II, sobre que labutara três dias - tão embrenhadamente que em torno o Mundo como que se calara e se fundira em penumbra.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.