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#Romances#Literatura Portuguesa

A Cidade e as Serras

Por Eça de Queirós (1901)

Ao meu Príncipe aparecia como desventura suprema essa noite em Medina, numa fonda2 sórdida, fedendo a alho, com gordas filas de percevejos através dos lençóis de estopa encardida!... Não cessei então de fitar, num desassossego, os ponteiros do relógio: - enquanto Jacinto, pela vidraça escancarada, todo fustigado da chuva clamorosa, furava a negrura, na esperança de avistar as luzes de Medina e um comboio paciente fumegando... Depois recaía no divã, limpava os bigodes e os olhos, maldizia a Espanha. O trem arquejava, rompendo o vasto da planura desolada. E a cada apito era um alvoroço. Medina?... Não! algum sumido apeadeiro, onde o trem se atardava, esfalfado, resfolgando, enquanto dormentes figuras encarapuçadas, embrulhadas em mantas, rondavam sob o telheiro do barracão, que as lanternas baças tornavam mais soturno. Jacinto esmurrava o joelho: - “Mas pôr que pára este infame comboio? Não há tráfico, não há gente! Ó esta Espanha!...” A sineta badalava, moribunda. De novo fendíamos a noite e a borrasca.

Resignadamente comecei a percorrer um Jornal do Comércio, antigo, trazido de Paris. Jacinto esmagava o espesso tapete do salão com passadas rancorosas, rosnando como uma fera. E ainda assim escoou, às gotas, uma hora cheia de eternidade. – Um silvo, outro silvo!... Luzes mais fortes, longe, palpitaram na neblina. As rodas trilharam, com rijos solavancos, os encontros de carris. Enfim, Medina!... Um muro sujo de barracão alvejou – e bruscamente, à portinhola aberta com violência, aparece um cavalheiro barbudo, de capa à espanhola, gritando pelo sr. D. Jacinto!...

Depressa! Depressa! Que parte o comboio de Salamanca.

-“Que no hay um momento, caballeros! Que no hay un momento!”

Agarro estonteadamente o meu paletó, o Jornal do Comércio. Saltamos com ânsia: - e, pela plataforma, pôr sobre os trilhos, através de charcos, tropeçando em fardos, empurrados pelo vento, pelo homem da capa à espanhola, enfiamos outra portinhola, que se fechou com um estalo tremendo... Ambos arquejávamos. Era um salão forrado dum pano verde que comia a luz escassa. E eu estendia o braço, para receber dos carregadores açodados as nossas malas, os nossos livros, as nossas mantas – quando, em silêncio, sem um apito, o trem despegou e rolou. Ambos nos atiramos às vidraças, em brados furiosos:

-Pare! – As nossas malas, as nossas mantas!... Pára aqui!... Ó Grilo! Ó Grilo!

Uma imensa rajada levou os nossos brados. Era de novo o descampado tenebroso, sob a chuva despenhada. Jacinto ergueu os punhos num furor que o engasgava:

Fonda: Hospedaria, estalagem, pousada. É termo espanhol.

-Ó! Que serviço! Ó que canalhas!... Só em Espanha!... E agora? As malas perdidas!... Nem uma camisa, nem uma escova!

Calmei o meu desgraçado amigo:

-Escuta! Eu entrevi dois carregadores arrebanhando as nossas coisas... Decerto o Grilo fiscalizou. Mas na pressa, naturalmente, atirou com tudo para o se compartimento... Foi um erro não trazer o Grilo conosco, no salão... Até podíamos jogar a manilha!

De resto a solicitude da Companhia, Deusa onipresente, velava sobre o nosso conforto – pois que à porta do lavatório branqueava o cesto da nossa ceia, mostrando na tampa um bilhete de D. Esteban com estas doces palavras a lápis – á D. Jacinto y su egregio amigo, que les dê gusto! Farejei um aroma de perdiz. E alguma tranqüilidade nos penetrou no coração, sentindo também as nossas malas sob a tutela da Deusa onipresente.

-Tens fome, Jacinto?

-Não. Tenho horror, furor, rancor!... e tenho sono.

Com efeito! depois de tão desencontradas emoções só apetecíamos as camas que esperavam, macias e abertas. Quando caí sobre a travesseira, sem gravata, em ceroulas, já o meu Príncipe, que não se despira, apenas embrulhara os pés no meu paletó, nosso único agasalho, ressonava com majestade.

Depois, muito tarde e muito longe, percebi junto do meu catre, na cidadezinha da manhã, coada pelas cortinas verdes, uma fardeta, um boné, que murmuravam baixinho com imensa doçura:

-V. Exas não têm nada a declarar?... Não há malinhas de mão?...

Era a minha terra! Murmurei baixinho com imensa ternura:

-Não temos aqui nada... pergunte V.Ex.ª pelo Grilo... Aí atrás, num compartimento... Ele tem as chaves, tem tudo... É o Grilo.

A fardeta desapareceu, sem rumor, como sombra benéfica. E eu readormeci com o pensamento em Guiães, onde a tia Vicência, atarefada, de lenço branco cruzado no peito, decerto já preparava o leitão.

Acordei envolto num largo e doce silêncio. Era uma Estação muito sossegada, muito varrida, com rosinhas brancas trepando pelas paredes – e outras rosas em moutas, num jardim, onde um tanquezinho abafado de limos dormia sob mimosas em flor que recendiam. Um moço pálido, de paletó cor de mel, vergando a bengalinha contra o chão, contemplava pensativamente o comboio. Agachada rente à grade da horta, uma velha, diante da sua cesta de ovos, contava moedas de cobre no regaço. Sobre o telhado secavam abóboras. Pôr cima rebrilhava o profundo, rico e macio azul de que meus olhos andavam aguados.

(continua...)

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