Por Camilo Castelo Branco (1862)
— Muito bem — disse o corregedor, erguendo-se. — Leve este abraço ao pai, e diga-lhe que o condiscípulo cá está leal e dedicado como sempre. Eu tenho de lhe escrever brevemente.
— E outro abraço a sua virtuosa, mãe — acrescentou o desembargador.
— Vou desconfiado! — disse o Mosqueira ao colega. — Manuel Botelho tinha, há coisa de um ano, fugido para Espanha com uma senhora casada. Aquela mulher que vimos não é irmã dele.
— Pois, se nos mentiu, é patife, por nos obrigar a cortejar uma concubina!... Eu me informarei... — disse o corregedor, ofendido no seu austero pundonor.
E no próximo correio, escrevendo a Domingos Botelho, dizia no período final "Tive o gosto de conhecer teu filho Manuel e uma de tuas filhas; por ele te mandei um abraço, e por ela te mandaria outro, se fosse moda ensinarem velhos a meninas bonitas como se dão os abraços nos pais".
Estava já Manuel em casa, e cuidava em trajar uma modesta casa para a açoreana, auxiliado por sua bondosa e indulgente mãe. Domingos Botelho fora informado da vinda, e dissera que não queria ver o filho, avisando-o de que era considerado desertor de cavalaria seis desde que abandonara os estudos, onde estava com licença.
Recebeu depois a carta do corregedor do crime, e mandou imediata e secretamente devassar se em Vila-Real estava a senhora que indicava a carta. A espionagem deu-a como certa na estalagem, enquanto Manuel Botelho cuidava nos adornos de uma casa. Escreveu o magistrado ao juiz de fora, e este mandou chamar à sua presença a mulher suspeita, e ouviu dela a sua história sincera e lacrimosamente contada. Condoeu-se o juiz, e revelou ao colega as suas averiguações, Domingos Botelho foi a Vila-Real, e hospedou-se em casa do juiz de fora, onde a senhora foi novamente chamada, sendo que ao mesmo tempo o general da província lavrava ordem de prisão para o cadete desertor de cavalaria de Bragança.
A açoreana, em vez do juiz, encontrou um feio homem, de carrancuda sambra, e aparência de intenções sinistras.
— Eu sou pai de Manuel — disse Domingos Botelho. Sei a história da senhora. O infame é ele. Vossa senhoria é a vítima. O castigo da senhora principiou desde o momento em que a sua consciência lhe disse que praticou uma ação indigna. Se a consciência lho não disse ainda, ela lho dirá. Donde é?
— Da ilha do Faial — respondeu trêmula a dama.
— Tem família?
— Tenho mãe e irmãs.
— Sua mãe aceitá-la-ia, se a senhora lhe pedisse abrigo?
— Creio que sim.
— Sabe que Manuel é um desertor, que a estas horas está preso ou fugitivo?
— Não sabia...
— Quer isto dizer que a senhora não tem proteção de alguém...
A pobre mulher soluçava, abafada por ânsias, e debulhada em lágrimas.
— Por que não vai para sua mãe?
— Não tenho recursos alguns — respondeu ela.
— Quer partir hoje mesmo? A porta da estalagem. daqui a pouco, encontrará uma liteira e uma criada para acompanhá-la até ao Porto. Lá entregará uma carta. A pessoa a quem escrevo lhe cuidará da passagem para Lisboa. Em Lisboa outra pessoa a levará a bordo da primeira embarcação que sair para os Açores. Estamos combinados? Aceita?
— E beijo as mãos de vossa senhoria... Uma desgraçada como eu não podia esperar tanta caridade.
Poucas horas depois. a esposa do médico...
— Que tinha morrido de paixão e vergonha talvez! — exclama uma leitora sensível.
— Não, minha senhora; o estudante continuava nesse ano a freqüentar a Universidade; e, como tinha já vasta instrução em patologia, poupou-se à morte da vergonha. que é uma morte inventada pelo visconde de A. Garrett no Fr. Luiz de Sousa, e à morte da paixão. que é outra morte inventada pelos namorados nas cartas despeitosas, e que não pega nos maridos a quem o século dotou de uns longes de filosofia, filosofia grega e romana, porque bem sabem que os filósofos da antigüidade davam por mimo as mulheres aos seus amigos, quando os seus amigos por favor lhas não tiravam, E esta filosofia hoje então...(6)
Pois o médico não morreu, nem sequer desmedrou, ou levou R significativo de preocupação do ânimo, insensível às amenidades da terapêutica.
A esposa, inquestionavelmente muito mais alquebrada e valetudinária que seu esposo, lavada em pranto, morta de saudades, sem futuro, sem esperanças, sem voz humana que a consolasse, entrou na liteira, e chegou ao Porto, onde procurou o corregedor do crime para entregar-lhe uma carta do doutor Domingos Botelho. Um período desta carta dizia assim:
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Perdição. 1862. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16586 . Acesso em: 17 jun. 2026.