Por Camilo Castelo Branco (1869)
Aquele silêncio de terra e céu era-lhe o ambiente lúcido das suas esperanças. Não ousara imaginá-las tão acordes com a sua índole, vendo-se ligada ao esposo querido que refletia a felicidade de todos sobredourando a sua.
Começou o doutor a curar, e a voz pública a pregoar milagres. Achaques inveterados, aleijões, nevralgias, que tinham resistido aos exorcismos, espinhelas caídas e nunca levantadas, todas as castas de enfermidades sem cura encontraram remédio ou alívio.
O assombro, porém, excedeu todo encarecimento quando o doutor chamou um cego mendigo, e depois de operá-lo e tratá-lo em sua casa, o mandou trabalhar com vista no seu antigo ofício de pedreiro.
Rodeavam-no as multidões de parentes e amigos perguntando todos a um tempo se os conhecia.
Convencidos de que o cego de vinte anos voltara a ver os filhos que deixara no berço, o doutor avultou-lhes como entre milagroso, ali mandado pela Senhora da Saúde, adorada com muita fé na sua igreja.
Alargou-se a área da clínica do facultativo a seis e mais léguas em redor, por caminhos precipitosos à orla de despenhadeiros.
Mas o inverno chegou.
Os pegões do vento outonal abateram quando as neves de novembro começaram a coroar os espinhaços das serras, e a sobrepor as suas camadas endurecidas pelo gear das noites, sobre as veredas de cabras que ligavam uma aldeia a outra. Sem impedimento dos rogos de sua família, Francisco Costa ia sempre que era chamado. E, quando transpunha as raias do concelho, a visitar doentes, em noite tempestuosa, por os mesmos caminhos já famigerados na vida de fr. Bartolomeu dos Mártires, e recebia duzentos e quarenta réis de recompensa, Francisco depunha no regaço da esposa o seu bem suado ou bem tiritado óbolo, e dizia a sorrir:
― É o dinheiro de dois operários: tanto labutou o lavrador para o tirar da terra, como eu para lho arrancar do cantinho da arca. Se eu lhe pedisse mais, o doente preferia a morte.
O que muito supria na sua receita era a arte operatória, exercitada longe, mormente as operações de catarata, que já tinham levado seu nome ao território espanhol.
Então aconteceu, duas vezes, no primeiro ano, Francisco Costa entesourar na caixa econômica de sua mulher uma dúzia de peças, com esta recomendação dita em gracejo:
― Vai guardando o patrimônio do nosso primeiro filho.
Ângela estremeceu da felicidade que já lhe estremecia no seio adiantados sinais de maternidade.
― E o nosso filho que será neste mundo? Que destino lhe hás de dar? – perguntou a filha do general Noronha.
― Visto que não é provável ser ele o vigésimo senhor do paço de Gondar – respondeu a rir Francisco Costa – será artista. ― Artista!...
― Artífice é mais português. Terá uma profissão que lhe abaste à sua subsistência e à de uma família criada com pouquíssimas necessidades. Não aprenderá a ler, para crer; não saberá nada da ciência humana para entender bem o Padre Nosso, que é a ciência divina baixada até ao homem; dormirá o sono pesado do operário para não sonhar as quimeras que me fizeram a mim o motor dos teus longos infortúnios, meu pobre anjo!
― Mas hoje, filho!... – atalhou ela. – Não estou eu esquecida de tudo!... A compensação não é tão superior ao que padeci? Se Deus me der filhas, a felicidade que eu peço para elas é esta minha...
― Mas padeceste muito, Ângela... E as tuas filhas poderão ser felizes como tu sem terem padecido... – E concluiu, acariciando-a: - É preciso que elas não saibam ler Sonhos nem escrever Esperanças...
XXV O CEGO
Os olhos do general Noronha cegaram inteiramente. Os especialistas de Paris tinham capitulado de catarata negra a próxima cegueira, muito semelhante nos sintomas à gota serena.
Declinava para os setenta anos o inconsolável cego. Queria voltar a Paris, esperançado na operação; mas escasseavam-lhe forças. A velhice deste homem disciplinado por pesares de toda a espécie, deste o terrível só até ao excruciar do remorso, causava a um tempo compaixão e medo. A caquexia lenta mirrara-o até lhe secar a pele sobre a aridez dos ossos; e os glóbulos dos olhos guinavam pardacentos nas órbitas descarnadas à procura dum raio de luz.
Os parentes e amigos que ele havia repelido não o procuravam nos derradeiros anos, porque sabiam que o testamento estava feito. Os legatários, entregues à sáfara da sua lavoura, nem sequer averiguavam se o senhor do Paço de Gondar era morto ou vivo. Ninguém portanto o visitava. O velho cheirava a cadáver, e o lastimar-se dum cego exasperado afugentaria até a comiseração dos herdeiros.
O mordomo, João Pedro, é que, dia e noite, lhe dava o braço ou vigiava o ansiado dormitar. Chorava, quando o via de súbito parar, voltados para o céu os olhos, e clamar: “Meu Deus, meu Deus, dai-me a minha vista, ou mataime!”
E, em uma dessas apóstrofes à Providência divina, que lhe visitara alfim a escuríssima cegueira de alma e corpo, João Pedro disse:
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Os Brilhantes do Brasileiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1779 . Acesso em: 17 jun. 2026.