Por Eça de Queirós (1925)
Arthur não encontrara o Coutinho : tinha ido para a fazenda, Quando atravessava a praça, sahia-se da missa das onze. Então, lembrou-se de Deus—e na humildade do seu reconhecimento, murmurou alli mesmo um Padre-Nosso. O Rabecaz, que apesar do seu atheismo frequentava a missa para não offender as opiniões catholicas do snr. administrador, appareceu, magestoso, no seu casa cão dos domingos, calçando as luvas pretas. Arthur correu para elle n'uma ancia de desabafar, e com um riso nervoso :
—O padrinho morreu, deixou-me um dinhei-
— Com mil diabos !
—Ú verdade, é verdade — disse Arthur com os olhos humidos, esfregando parvamente as mãos. — Dons contos de réis !
—E então Agora p'ra Lisboai?
— Pudera ! — exclamou Arthur com fervor.
— Ladrão !
Travou-lhe do braço com paixão, trouxe-o a caga fazendo logo o plano de se ir encontrar com elle em Lisboa, na primavera. Viveriam ambos juntos, e com a cheta em commum, havia de vir Lisboa abaixo,
Arthur resentia-se d'aquella participação que o Rabecaz se arregava na sua fortuna ; disse muito serio :
— Eu vou passar uma vida retirada , , . traba- lhar
O Rabecaz bateu firmemente com a bengala no lagedo :
— Não me venha com pieguices. Mande a litteratura ao diabo. Isso é bom para os pelintras. Você agora tem cheta, é gosar, é refocilar . . . E a primeira cousa gue você ha-de fazer é mandar. me uma boquilha d'egpuma . . .
Ao almoço, a tia Ricardina discutiu o emprego do dinheiro do menino. Tinha agora a sua fortuna certa. O Vasco queria passar a pharmacia, e, com aquelle dinheiro . . .
Arthur, indignado, pulou na cadeira :
— Ora essa ! comprar a pharmacia ! Enterrarme em Oliveira! — E declarou, dando uma punhada na mesa, que ao outro dia partia para Lisboa.
As velhas estavam assustadas da estridencia da sua voz, da insensatez das guas resoluções.
— Tu endoideceste, menino
— Endoidecia se aqui ficasse !
E n'uma exaltação, pela sala, fallou do seu talento, das altas posições que dto as letras, da influencia da imprensa, d'uma cadeira em S. Bento e da posteridade.
— Mae nunca has„de ser um Nelson — exclamou o Albuquerqaezinho, fixando-o.
— Mas posso vir a ser Ministro da Marinha, sn.r. Almirante — disse Arthur muito serio.
De tarde, espalhara-se na Villa a noticia da herança : uns diziam vinte contos, outros cem ; alguns affirmavam que ia haver demanda. O Vasco veio á noite, commovido, com D. Galathea, para abraçar o: herdeiro. Mas, a essa hora, Arthur estava na Corcovada, ingtallado deante dos licores do esta belecimento, com uma caixa de charutos ao lado ; e o Rabecaz, a cada freguez que apparecia, exclamava mostrando Arthur, com um largo gesto á Ecce Homo : — Eil-o ! Está miliionario !
E ás interrogações anciosas, respondia vagamente, agitando as mãos :
— Um fortunão ! De vir tudo abaixo . . , Vae bater carruagem em Lisboa. E eu estou aqui, estou lá cahido !
Arthu.r voltou para casa tarde, pesado de genebra. A tia Sabina veio-lhe em pontas de pés ao quarto, fallar ainda na pharmacia. O Vasco dissera-lhe que a cedia barata, @om pagamento a tres mezes. Depois, ellas estavam tão velhas . . . nao tinham mais ninguem no mundo Era necessario um homem na casa
-— Por cousa nenhuma fico aqui vinte e quatro horas mais, tia Sabina . , . .É inutil. Irra I
Sabina desceu a chorar. Parecia-lhe que o menino estava embriagado. deante do leito de Ricardina, já deitada, ia murmurando muito infeliz : — O maldito dinheiro ! O maldito dinheiro !
Ao outro dia, Arthur entrava na loja do Carneiro com a letra, muito inquieto, no receio de que, por vingança, o logista fizesse difficuldades » . . .
— Sei. ao que vem, recebi o aviso — disse seccamente o Carneiro. — Ouro ou notas
Então, n'um reconhecimento, Arthur balbuciou : — Ambas as cousas . , . Eu realmente, snr. Carneiro, tenho a pedir-lhe desculpa foi uma rapaziada
Áquelle cavalheirismo da parte d'um herdeiro, d'um capitalista, o Carneiro enterneceu-se e estendendo-lhe as mãos ambas n'uma effusão :
—O que lá vae, lá vae Nio me fez damno. Os meus parabeng. É gosar ! É gosar !
Fez-lhe recontar as notas, verificou o peso das libras. Á vista d'aquella fortuna alli amontoada, scintillando sobre o balcão, Arthur reprimia uma vontade de rir nervosa, e, quando sahiu, abotoando com amor o casaco sobre o dinheiro, sentiu o mundo a seus pés.
As tias, quando elle estendeu sobre a mesa o dinheiro para lh'O guardarem, ficaram aterradas. O quê ! Pois elle queria levar para Lisboa aquella ri. queza Até lhes parecia peccado, e olhavam o oiro,
o papel, com pavor, pensando que ia ser devorado na Babylonia, como so vissem reluzir nas libras olhos de sereias e nas notas negrejarem programmas de bachanaes. E não o queriam guardar ! Não queriam responsabilidades . . .
— Oh, tia, mas eu não hei-de andar com esso dinheirão na algibeira. O meu bahú tem a fechadura quebrada. Vou até comprar uma mala.
Por fim, ellas cederam, e fecharam o thesouro no gavetão da commoda que servia de altar, no oratorio, pondo-o sob a protecção vigilante dos santos amados.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.