Por Eça de Queirós (1900)
E ela, certamente, rendera também O coração àquele moço resplandecente e cor de ouro, que, nessa tarde de festa, arremessando o rojão contra os touros, ganhara duas faixas bordadas pela nobre dona de Lanhoso - e à noite, no sarau, se requebrara com tão repicado garbo na dança dos Marchatins... Mas Lopo era bastardo, dessa raça de Baião, inimiga dos Ramires por velhíssimas brigas de terras e precedências desde o Conde D. Henrique - ainda assanhadas depois, durante as contendas de D. Tareja e de Afonso Henriques, quando na cúria dos Barões, em Guimarães, Mendo de Baião, bandeado com o Conde de Trava, e Ramires o Cortador colaço do moço Infante, se arrojaram às faces os guantes ferrados. E, fiel ao ódio secular, Tructesindo Ramires recusara com áspera arrogância a mão de Violante ao mais velho dos de Baião, um dos valentes de Silves, que pelo Natal, na Alcáçova de Sta Irenéia, lha pedira para Lopo, seu sobrinho, o Claro-Sol, oferecendo avenças quase submissas de aliança e doce paz. Este ultraje revoltara o solar de Baião - que se honrava em Lopo, apesar de bastardo, pelo lustre da sua bravura e graça galante. E então Lopo, ferido doridamente no seu coração, mais furiosamente no seu orgulho, para fartar o esfaimado desejo, para infamar o claro nome dos Ramires - tentou raptar D. Violante. Era na primavera, com todas as veigas do Mondego já verdes. A donosa senhora, entre alguns escudeiros da Honra e parentes, jornadeava de Treixedo ao mosteiro de Lorvão, onde sua tia D. Branca era abadessa... Languidamente, no Bardo, descantara o tio Duarte o romântico lance:
Junto à fonte mourisca, entre os olmeiros, A cavalgadura pára...
E junto aos olmeiros da fonte surgira o Claro-Sol - que, com os seus, espreitava de um cabeço! Mas, logo no começo da curta briga, um primo de D. Violante, o agigantado senhor dos Paços de Avelim, o desarmou, o manteve um momento ajoelhado sob o lampejo e gume da sua adaga. E com vida perdoada, rugindo de surda raiva, o Bastardo abalou entre os poucos solarengos que o acompanhavam nesta afoita arremetida. Desde então mais fero ardera o rancor entre os de Baião e os Ramires. E eis agora, nesse começo da Guerra das Infantas, os dois inimigos rosto a rosto no vale estreito de Canta-Pedra! Lopo com um bando de trinta lanças e mais de cem besteiros da Hoste Real. Lourenço Mendes Ramires com quinze Cavaleiros e noventa homens de pé do seu pendão.
Agosto findava: e o demorado estio amarelecera toda a relva, as pastagens famosas do vale, até a folhagem de amieiros e freixos pela beira do riacho das Donas que se arrastava entre as pedras lustrosas, em fios escassos, com dormido murmúrio. Sobre um outeiro, dos lados de Ramilde, avultava, entre possantes ruínas eriçadas de sarças, a denegrida Torre Redonda, resto da velha Honra de Avelãs, incendiada durante as cruas rixas dos de Saízedas e dos de Landim, e agora habitada pela alma gemente de Guiomar de Landim, a Mal-casada. No cabeço fronteiro e mais alto, dominando o vale, o mosteiro de Recadâes estendia as suas cantarias novas, com o forte torreão, asseteado como o duma fortaleza - donde os monges se debruçavam, espreitando, inquietos com aquele coriscar de armas que desde alva enchia o vale. E o mesmo temor acossara as aldeias chegadas - porque, sobre a crista das colinas, se apressavam para o santo e murado refúgio do convento gentes com trouxas, carros toldados, magras filas de gados.
Ao avistar tão rijo troço de Cavaleiros e peões, espalhado até à beira do riacho por entre a sombra dos freixos, Lourenço Ramires sofreou, susteve a leva, junto dum montão de pedras onde apodrecia, encravada, uma tosca cruz de pau. E o seu esculca que largara rédeas soltas, estirado sob o escudo de couro, para reconhecer a mesnada - logo voltou, sem que frecha ou pedra de funda o colhessem, gritando:
- São homens de Baião e da Hoste Real! -
Tolhida pois a passagem! E em que desigualado recontro! Mas o denodado Ramires não duvidou avançar, travar peleja. Sozinho que assomasse ao vale, com uma quebradiça lança de monte, arremeteria contra todo o arraial do Bastardo... - No entanto já o Adail de Baião se adiantara, curveteando no rosilho magro, com a espada atravessada por cima do morrião que penas de garça emplumavam. E pregoava, atroava o vale com o rouco pregão:
- Deter, deter! que não há passagem! E o nobre senhor de Baião, em recado de El-Rei e pormercê de Sua Senhoria, vos guarda vidas salvas se volverdes costas sem rumor e tardança!
Lourenço Ramires gritou:
- A ele, besteiros!
Os virotes assobiaram. Toda a curta ala dos Cavaleiros de Santa Irenéia tropeou para dentro do vale, de lanças ristadas. E o filho de Tructesindo, erguido nos estribões de ferro, debaixo do pano solto do seu pendão que apressadamente o Alferes sacara da funda, descerrou a viseira do casco para que lhe mirassem bem a face destemida, e lançou ao Bastardo injúrias de furioso orgulho:
- Chama outros tantos dos vilões que te seguem que, por sobre eles e por sobre ti, chegarei estanoite a Montemor!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.