Por Eça de Queirós (1901)
Depois Jacinto, que espreitava pela janela embaciada, reconheceu o lento caminhar pernalto, o nariz bicudo e triste, do Historiador Danjon. Era ele, o facundo homem, vestido de xadrezinho, ao lado duma dama roliça que levava pela trela uma cadelinha felpuda. Jacinto baixou a vidraça violentamente, berrou pelo Historiador, na ânsia de comunicar ainda, através dele, com a Cidade, com o 202!... Mas o comboio mergulhara na chuva e névoa.
Sobre a ponte do Bidassoa, antevendo o termo da vida fácil, os abrolhos da Incivilização, Jacinto suspirou com desalento:
-Agora adeus, começa a Espanha!...
Indignado, eu, que já saboreava o generoso ar da terra bendita, saltei para diante do meu Príncipe, e num saracoteio de tremendo salero, castanholando os dedos, entoei uma “petenera” condigna:
A la puerta de mi casa
Ay Soledad, Soleda...á...á...á.
Ele estendeu os braços, suplicante:
-Zé Fernandes, tem piedade do enfermo e do triste!
-Irun! Irun!...
Nessa Irun almoçamos com suculência – porque sobre nós velava, como deus onipresente, a Companhia do Norte. Depois “el jefe d’Aduana, el jefe d’Estación”, preciosamente nos instalaram noutro salão, novo, com cetins cor de azeitona, mas tão pequeno que uma rica porção dos nossos confortos em mantas, livros, sacos e impermeáveis, passou para o compartimento do Sleeping onde se repoltreavam o Grilo e o Anatole, ambos de bonés escoceses, e fumando gordos charutos – Buen viage! Gracias! Servidores! – e entramos silvando nos Pireneus.
Sob a influência da chuva embaciadora, daquelas serras sempre iguais, que se densenrolavam, arrepiadas, diluídas na névoa, resvalei a uma sonolência doce; - e, quando descerrava as pálpebras, encontrava Jacinto a um canto, esquecido do livro fechado nos joelhos, sobre que cruzara os magros dedos, considerando vales e montes com a melancolia de quem penetra nas terras do seu desterro! Um momento veio em que, arremessando o livro, enterrando mais o chapéu mole, se ergueu com tanta decisão, que receei detivesse o comboio para saltar à estrada, correr através das Vascongadas e da Navarra, para trás, para o 202! Sacudi o meu torpor, exclamei: - “ó menino!...” Não! O pobre amigo ia apenas continuar o seu tédio para outro canto, enterrado noutra almofada, com outro livro fechado. E à maneira que a escuridão da tarde crescia, e com ela a borrasca de vento e água, uma inquietação mais aterrada se apoderava do meu Príncipe, assim desgarrado da Civilização, arrastado para a Natureza que já o cercava de brutalidade agreste. Não cessou então de me interrogar sobre Tormes:
-As noites são horríveis, hem, Zé Fernandes? Tudo negro, enorme solidão... E o médico?... Há médico?
Subitamente o comboio estacou. Mais grossa e ruidosa a chuva fustigou as vidraças. Era um descampado, todo em treva, onde rolava e lufava um grande vento solto. A máquina apitava, com angústia. Uma lanterna lampejou, correndo. Jacinto batia o pé: - É medonho! É medonho!...” Entreabri a portinhola. Da claridade incerta das vidraças surdiam cabeças esticadas, assustadas. – “Que hay? Que hay?” – A uma rajada, que me alagou, recuei:- e esperamos durante lentos, calados minutos, esfregando desesperadamente os vidros embaciados para sondar a escuridão. De repente o comboio recomeçou a rolar, muito sereno.
Em breve apareceram as luzinhas mortas duma estação abarracada. Um condutor, com o casacão de oleado todo a escorrer, trepou ao salão: - e pôr ele soubemos, enquanto carimbava apressadamente os bilhetes, que o trem, muito atrasado, talvez não alcançasse em Medina o comboio de Salamanca!
-Mas então?...
O casaco de oleado escorregara pela portinhola, fundido na noite, deixando um cheiro de umidade e azeite. E nós encetamos um novo tormento... Se o trem de Salamanca tivesse abalado? O salão, tomado até Medina, desengatava em Medina: - e eis os nossos preciosos corpos, com as nossas preciosas almas, despejados em Medina, para cima da lama, entre vinte e três malas, numa rude confusão espanhola, sob a tormenta de ventania e de água!
-Ó Zé Fernandes, uma noite em Medina!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1790 . Acesso em: 28 jun. 2026.