Por Camilo Castelo Branco (1862)
Não cuidem, porém, que eu hei-de consumir o restante da minha individualidade em comer. Há faculdades que não se obliteram imolando-as a uma única manifestação da vida orgânica: o mais que pode fazer o espírito é impulsioná-las, concentrá-las e convergi-las todas para um ponto. De maneira que todas as minhas faculdades de ora em diante em volta do estômago as rege, e não há-de alguma idéia preocupar-me sem sair elaborada nas mesmas cinco horas que os fisiologistas assinam às funções digestivas.
II
Logo que me aposentei para largo tempo na minha casa, curei de remover e prevenir todos os empeços ao sessego das minhas digestões.
Quando esta providência falta, nenhum cálculo vinga. Nenhuma semente vos desabrocha bem prosperada, se descurais o amanho da terra. Antes sair com as mãos feridas do arroteamento de carrascais e silvedos que ver abafados os renovos entre o mato. Notem já que a minha linguagem vai adquirindo um corpo e cor e uma certa consistência que não tinha. Os entendidos hão-de achar que esta gravidade sentenciosa só pode dá-la uma inteligência algum tanto espalmada pela pressão do estômago. E assim é que se explicam os adiposos bacamartes do frade, cujo intelecto se nutria e inflava nas roscas do cachaço, pedestal digno daquelas grandes e repletas cabeças. A ci6encia do frade, pois, era a ciência das funções alimentícias. Todo o estômago, bem regulado, produz um génio.
Convinha-me, pois, vassourar da minha testada um influência odiosa: era o regedor da freguesia que nunca ma havia perdoado os artigos em que lhe excruciei a estúpida ferocidade contra recrutas. A segunda vítima, destinada ao sacrifício da minha pachorrenta paz, era o vigário.
Enquanto ao regedor, as dificuldades deviam ser enormes, visto que todos os governos tinham achado nele um galopim, que vingava trezentos e vinte sufrágios.
Era preciso contaminar-lhe os créditos com a broca da retórica. Acerquei-me de três lavradores influentes da freguesia, expus-lhe a decadência do País e a inevitável perda da independência nacional, se continuássemos a dar o nosso voto irracionalmente a deputados da confiança do regedor.
Dei em minha casa prelecções de direito constitucional a estes e outros lavradores levados pelos primeiros. Feri faíscas naquelas cabeças tapadas como pedreiras de mármore negro, e posso afoitamente asseverar que nunca a eloquência fez maiores milagres. Falei-lhes em nome do estômago, como Menénio Agripa, no monte sagrado, aos romanos fugidiços de Roma. Compreenderam o apólogo melhor que eu mesmo, e pediam-me com entusiasmo a repetição da história. O meu fito, remedando o meu ilustre predecessor no doutrinamento da plebe, mirava a convencê-la de que o regedor da freguesia era o cancro do estômago social. Facto admirável do instinto! Quando eu disse isto, levaram todos a mão à barriga. E assim se prova que o órgão mais sensível à eloquência é ela, e que a humanidade sofredora é um estômago desconcertado, é bem assim se prova que todos os regedores facciosos podem ser banidos da confiança popular mediante o argumento do cancro, que eu ofereço a todas as oposições.
Acertou de estar próxima a luta eleitoral. O regedor bateu às portas dos eleitores com o macete das listas, e encontrou em cada lavrador um doutrinário, um cidadão que falava da liberdade do sufrágio com muito menos parvoiçadas que a maior parte dos jornalistas. Enraivecido contra as minhas sugestões, o funcionário oficiou ao governador civil pedindo-lhe autorização para me prender. O governador civil deu a ordem pedida, mandando ao secretário que a lavrasse, e citou a lei do código eleitoral que me aplicava a captura. Ora, como quer que o secretário folheasse o código e não encontrasse ao artigo, a autoridade superior do distrito oficiou ao regedor lamentando com ele a impossibilidade da minha prisão.
Seguiu-se perder o governo as eleições e o regedor adoeceu de maleitas.
Passados meses, caiu o Ministério, caíram as autoridades, e eu fui nomeado regedor.
Eis aqui o meu primeiro pulo na carreira política.
O meu velho inimigo, quando recebeu o ofício da demissão, tremia como Mariano Faliero ouvindo as fatais badaladas de S. Marcos. Um meu criado - para nada faltar à comparação com o desastre do infausto doge
- foi ao campanário da igreja e repenicou o sino. Ao mesmo tempo, o meu vizinho Joaquim do Quinchoso atirou aos astros dois foguetes de lágrimas, que tinha sisado ao mordomo da festa do orago. Na aldeia próxima saiu à rua o Tio Manuel da Bouça com o lombo, e o meu compadre João da Fonte, que fora músico das milícias de Miranda, acordou os ecos das serras com o seu trompão.
O ex-regedor, escorrendo o suor glacial da morte, ergueu-se sobre os joelhos no seu catre, inteiriçou os braços descarnados; e, quando ia morrer nos braços do vigário, comeu uma perna de galinha, e salvou-se.
Mais um argumento da capacidade do estômago para afogar em si as decepções da política!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Coração, Cabeça e Estômago. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1781 . Acesso em: 28 jun. 2026.