Por Camilo Castelo Branco (1864)
Afonso lançou mão da carta e recuou horrorizado da vilania de Palmira. Secou-selhe a garganta e lábios ao queimar de um hálito de cólera que lhe calcinava o peito. Não pôde falar. Saiu do quarto, chamando a brados o criado a quem incumbira a remessa da carta. Já não era criado de Afonso o miserável que vendera o sigilo do seu amo pelo ouro dele mesmo; fugira bem remunerado. No entanto, Palmira esbracejava de sala em sala, soltando gritos pavorosos. Afonso, congestionadas as fontes de sangue, e o coração em arrancos no peito, fincava os dedos nas carnes da face, tapando os ouvidos para não ouvir os clamores da mulher cuja fúria recrescia à proporção do desprezo com que os próprios criados lha escutavam.
Afonso de Teive saiu aforrado como quem foge; foi lançar a carta por sua mão; divagou horas no mais desfrequentado dos arvoredos do Campo Grande. Aí sentiu orvalhos do céu esfriar-lhe o afogo da febre. Olhou ao céu com as mãos erguidas, e disse: "Oh, minha mãe!" Ao cair da noite, voltou a casa, e viu no pátio o gig de D. José de Noronha. O seu lacaio particular, antigo criado de sua mãe, acercou-se cautelosamente dele e disse:
- Fidalgo, não se aflija... Tenha ânimo, fidalgo, e não deixe fazer o ninho atrás da orelha.
O chulo da frase ofendeu-o, e a intenção misteriosa ainda mais.
- Que queres dizer, animal? - perguntou Afonso.
O criado coçou-se, fechando os olhos, e respondeu:
- Lá em cima está o Sr. D. José de Noronha.
- Que tem isso? Não o tens aqui visto tantas vezes? Responde.
- Tenho, tenho, e Deus sabe se cá por dentro me não tem dado guinadas de lhe partir na cabeça o gig.
- Porquê? Vem cá... Entra nesta loja comigo... Fala claro! - dizia Afonso com sufocada veemência. - Que desconfias tu de D. José?
- Desconfio, fidalgo, que a Srª D. Palmira não é fiel a V. Exª.
- Mentes!, mentes! - bradou Afonso. - Prova-mo, senão mato-te.
- Não há-de matar, se Deus quiser. Sr. Morgado - volveu tranquilamente o Tranqueira, nome que merece ser lembrado. - Faz favor de tomar ar e ouvir com sossego. Estes negócios hão vão assim de afogadilho. Dê tempo ao tempo.
- Não é tempo ao tempo, é já, imediatamente. Diz o que sabes, Tranqueira, que se me fende a cabeça.
- Fidalgo, aí vai o que sei. O criado que fugiu esta manhã, sem que eu lhe pudesse pôr os dez mandamentos, foi cá metido pelo lacaio da senhora e era lá muito colaço dela.
Uns dias por outros, pisgava-se do serviço o rapaz, e andava por lá quatro horas.
Antes de ontem, tirei-me dos meus cuidados e fui-lhe na pista muito à socapa. Leveio de olho até à Rua de Santa Bárbara, e lá esgueirou-se-me. "Querem vocês ver que o Diabo as arranja?", disse eu cá cos meus botões. "Estará ele metido em casa de D. José de Noronha?" Meu dito, meu feito! Dai a menos de três credos saia o malandro de casa do tal suplicante, e vinha, anda que anda, por ali fora. Saí-lhe eu de uma travessa e disse: "Tu de onde vens, António?" O patife engasgou-se, e nem pra trás nem pra diante. "Tate!", disse eu, "aqui há tratantada. Se ele fosse a coisa boa, dizia-o." Pus-me a considerar no que havia de fazer. "Eu, se lhe digo que o vi sair de casa de D. José, espanto a caça, e fico por mentiroso, dizendo o que vi a meu amo! Que hei-de eu fazer?
Embucho o que sei; tomo à minha conta espreitar a ama... - a ama!, que a leve o Diabo, que quem me paga é o fidalgo-, espreito, e se pilho a melgueira em termos, esbarronda-se o negócio, e meu amo dá cabo deste ladrão que o veio desonrar a sua casa."
Afonso, além da voz do Tranqueira, ouvia um zunido e fisgadas dentro do crânio, como se lá se contorcesse e mordesse o cérebro um enxame de vespas. O criado continuou:
- Antes de ontem à noite apareceu aqui o D. José. Fui em palmilhas atrás dele. Vi-o entrar na sala do tapete azul, e retirei-me assim que vi V. Exª entrar também com a senhora. Desde então não tornou cá senão agora; mas como lá está com ele outro amigo, acho que não tem dúvida, e por isso vim para aqui esperar o fidalgo. Aqui está o que eu sei, meu amo. Bote lá as suas contas, e deixe-me dar uma carga de lenha no tal menino, se for preciso.
Afonso pôs a mão direita sobre o ombro do Tranqueira e disse:
- Obrigado, teu amo agradece-te os cuidados que tens com a sua honra. Recomendo-te que não digas uma palavra a tal respeito. Ouves, Tranqueira?
- Então isto fica em água de bacalhau? - perguntou o criado, abrindo e fechando as mãos.
- Já disse, nem uma palavra. Os teus cuidados agora passam para mim.
- Bem me fio eu nisso!-murmurou à lacaio na ausência do amo.
Afonso entrou no seu quarto; viu-se a um espelho; espetou que o rubor da excitação se descorasse, compôs o semblante e passou à sala onde estavam Palmira, D. José de Noronha e um particular amigo deste.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Salvação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=88534 . Acesso em: 28 jun. 2026.