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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Brilhantes do Brasileiro

Por Camilo Castelo Branco (1869)

― Ah! – acudiu Francisco – Tinha tenção de mostrar-te; mas esqueceu-me a carta e o intento. É o que foi. Mas olha, Ângela, este esquecimento não argüi insensibilidade, nem uma coisa impropriamente chamada cinismo. Sabes o que é? Conformidade, tolerância, e quase uma desculpa à opinião pública.

― Desculpa!... – interrompeu Ângela.

― Sim, filha. Porventura, tu já te justificaste? E eu já me justifiquei? Não. A sociedade sabia que uma mulher casada vendeu uns brilhantes; que o marido dessa mulher a expulsou; que esse marido morreu; que um homem, seis meses depois, aparece casado com a viúva do roubado, do assassinado a punhaladas de desonra... Que queres, Ângela? Quem ousará defender-nos?

― Mas faz tu pública essa paga assinada por...

― Deus me livre, minha louca. A quitação foi escrita e assinada para que soubesses que não devias nada a teu marido, e que a roubada em tuas jóias tinhas sido tu. Satisfações à sociedade? São justas, quando ela não condena antes de ouvir os réus, quando não escarra nas faces das vítimas, antes de examinar os vincos por onde passaram as lágrimas. A nossa causa de moral pública está perdida; não obstante, a reabilitação davam-ta os juizes, se houvesses herdado os duzentos contos de Fialho. Os que me denigrem o caráter, se eu a esta hora fosse o marido da viúva com duzentos contos, chamando-me “tratante feliz”, sentar-se-iam lisonjeados nos coxins das minhas cadeiras, e pediriam aos meus lacaios, com urbanidade, o favor de me entregarem os seus bilhetes de visita. Mas, filha, esta soledade que mora à volta de nós é o cordão com que a mão da Providência abaliza a felicidade de duas almas que não podem corar uma da outra. Quando eu desejar mais do que tenho, quando invejar felicidades que não sei imaginar, Ângela, hei de pedir-te perdão de ter sido o mais vil dos teus inimigos.

Apertou-o Ângela com arrebatamento nos braços, e murmurou:

― Se tu quisesses...

― O quê, minha filha?

― Viver numa aldeia, entre umas serras, sozinho com a nossa Joana, esquecidos, e tão amados...

― Sim, quero, minha providência... Adivinhaste a minha aspiração de não sei quantos anos...

― Eu sei, meu amor. Li-a nos teus livros, e que fantasias eu criava para completar as tuas!... Se eu tivesse filhos, e lhes pudesse incutir a certeza de que todo o seu futuro e mundo era o espaço contido nos horizontes das nossas montanhas...

― E não sabes tu, Ângela – volveu jubilosamente Francisco – não sabes que eu careço de ser cirurgião? Que todas as portas se me fecham aqui? Não cuidava que eu viesse quase pobre do Brasil? Vim, minha filha, vim. Contava com muito se lá permanecesse, mas a minha riqueza eras tu. Apenas tenho a subsistência segura de dois anos nesta mediania em que tu fazes milagres de abundância. Mas o futuro...

― Pois então para onde iremos, Francisco? Tenho pressa; quero ir amanhã, hoje, já...

― Olha numa terra, que chamam Barroso, não há facultativos. O sítio é triste, é montanhoso, as casas são colmadas, os alimentos grosseiros, os frios do inverno glaciais, e os ardores do estio queimam as urzes e secam as fontes. Queres ir para Barroso?

― E tu? Irias tu contente para aí?

― Vou.

― Vamos, filho – exclamou ela entusiasticamente!

― Assim que a doença ou a tristeza te ameaçar, passaremos a sítios mais amenos, iremos de aldeia em aldeia, até que uma casinha entre duas árvores te convide a viver e morrer nela.

Dias depois, Francisco Costa, o grande operador que honrara as escolas da sua pátria no Brasil, aceitava o partido de um conselho chamado Boticas, em terras de Barroso.

Vitorina acompanhou a ditosa família. Ao vizinharem da terra tão selvàticamente pintada por Francisco na imaginativa da esposa, a rústica expectativa demudou-se em alegres várzeas, terras colmadas de arvoredos, regatos que vertiam murmurosos por entre outeirinhos tapisados de boninas. A casa destinada ao cirurgião de partido era telhada, e olhava sobre uns almargeais por três janelinhas de portas envidraçadas. A horta supria mais substancialmente a falta de jardim, e em vez de musgos e trepadeiras floridas, verdejavam as couves galegas e trepavam florentes os feijões carrapatos – espetáculo bucólico de que muito se deliciava Vitorina, recordando a casinha rural de seus pais.

Ângela exclamava com as mãos postas:

― Isto é tão lindo! Se haverá uma alma triste neste povoado! Que miserável e escuro daqui se me figura o que deixamos!...

Joana cuidou em alindar a casa com a modestíssima mobília em que o município se mostrara generoso para granjear a estima do facultativo.

Ao outro dia, a esposa do boticário com sua cunhada, esposa do regedor, e as autoridades de Monte Alegre com suas famílias, visitaram o cirurgião, que ali era graduado em doutor.

De tudo isto entreluzia à cismadora Ângela um viver antigo, santa singeleza de costumes e dulcificação de almas que para ali viessem acerbadas do viver das cidades.

(continua...)

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