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#Romances#Literatura Portuguesa

A brasileira de Prazins

Por Camilo Castelo Branco (1882)

De tempo a tempo ia vê-la de dia; mas a mãe trazia-o muito espreitado, e ralava-o: – que a tal cróia havia de dar cabo dele. O cirurgião tinha-lhe dito delicadamente que o José abusava do 6º. Ela, como sabia os manda. mentos de cor e salteados, entendeu logo, e dizia a toda a gente que o seu Zé andava assim uni pilharengo por causa do 6º. Era o resultado de saber a doutrina cristã esta decência no explicar-se por números. As vizinhas entendiam-na e diziam-lhe que o José andava forgado, que lhe metesse uma enxada nas unhas e o pusesse a roçar mato oito dias, que ele perdia o cio.

Decorreram alguns meses. Com a Primavera a saúde de José Dias pareceu restaurar-se. Ele atribuiu as suas melhoras ao contentamento. O pai, que era regedor, a pedido do governador civil, que o mandou chamar a Braga, por intervenção do padre Osório, dava o consentimento; mas a mãe recalcitrava. Esperava-se, porém, a vinda dos missionários a Requião, para a reduzirem ao dever de católica. O vigário de Caldelas já tinha prevenido um egresso do Varatojo, Frei João de Borba da Montanha, das terras de Celorico de Basto, de uma força prodigiosa em empresas mais difíceis.

Marta recobrava alegres esperanças, e o Zeferino das Lamelas digeria a sua dor, assobiando a música da melancólica balada:

Ó mar, se queres, Tem dó de mim.

Para seu desafogo, ia a miúdo a Quadros saber quando chegaria o Sr. D. Miguel. O Cerveira estava relacionado com os setembristas. Formara-se a junção dos dois partidos hostis aos Cabrais, aproximados pelas eleições sanguinárias de 1845. O tenente-coronel reunia espingardas em Quadros e dava dinheiro para o fabrico de cartuchame no concelho da Póvoa de Lanhoso e nos arrabaldes de Guimarães. O padre Rocha comunicava-lhe as notícias enviadas de Londres pelo Saraiva, e conseguiu que ele fosse ao Porto receber o grau de comendador da Ordem de S. Miguel da Ala, a casa do João de Albuquerque, da Ínsua, que representava nas províncias do Norte o Grão- Mestrado. O Zeferino sentia momentos de júbilo de tigre que se agacha a medir o salto à presa. Tinha um riso que era um ringir de dentes. Parecia-lhe que estava a mastigar os fígados do José Dias.

XIV

Em Março daquele ano, 1846, os setembristas de Braga fomentaram os motins populares do concelho de Lanhoso. Na Inglaterra, na câmara dos comuns, lorde Bentinck explicou tragicamente, em frases pomposas, a origem dessa revolução, que um desdém indígena chamou . Ele disse que os Cabrais mandaram construir cemitérios; mas não os muraram; de modo que entravam neles cães, gatos e porcos-bravos em tamanha quantidade que chegaram a desenterrar os cadáveres . As nações e os naturalistas deviam formar uma ideia assaz agigantada do tamanho dos gatos portugueses que desenterravam cadáveres, e das boas avenças dos nossos cães com os referidos gatos na obra da exumação dos mortos, e não menos se espantariam da familiaridade dos javalis que vinham do Gerês colaborar com os cães e gatos naquela mineração das carnes podres das terras de Lanhoso. A origem pois da insurreição nacional de 1846 está definida nos fastos da Europa revolucionária. Foi ama reacção, uma batalha social à canzoada e gataria confederadas com o focinho profanador de porco-montês. E daí procedeu escreverem os jornalistas da Alemanha, um país sério, que a revolução do Minho era o . Os cadáveres servidos nos banquetes ilegais e nocturnos dos javalis, com a convivência de gatarrões a rosnarem com o lombo eriçado, e molossos de colmilhos ensanguentados foi caso que impressionou grandemente as raças tudescas, por ser um acto proibido pela Carta Constitucional. Quer fossem os setembristas de Braga, quer a alcateia das feras coligadas, o certo é que a insurreição do Alto Minho tabu esta província e a transmontana, devastando as papeletas impressas e os vinhos das tascas sertanejas. A guerra motivada pelos gatos ë seus cúmplices fez sofrer ao capital do país ama diminuição de 77 milhões e meio de cruzados, segundo o cálculo do ministro da Fazenda Franzini, muito retrógrado, mas um génio no algarismo.

O Zeferino das Lamelas, às primeiras comoções do vulcão popular, nos arredores de Guimarães, preparouse; e assim que ouviu repicar a rebate em Ronfe, cheio de ciúmes como o sineiro de Notre Dame, agarrou-se à corda do sino, reuniu no adro os jornaleiros e vadios de três freguesias, e pegou a dar morras aos Cabrais com aplauso universal. Depois, explicou o que era o cadastro, confundindo este expediente estatístico com canastro: – que os Cabrais e os seus empregados andavam a tomar as terras a rol para empenharem Portugal à Inglaterra; que esses réis estavam nos cartórios das administrações e em casa dos regedores; que era preciso queimar as papeletas e matar os cabralistas.

(continua...)

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