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#Crônicas#Literatura Portuguesa

Crónicas de Londres

Por Eça de Queirós (1940)

E toda a sua vida foi passada a fazer a Itália. Foi este o seu pensamento central; a ele sacrificou tudo; inclinações pessoais, repugnâncias de educação, devoções secretas, até orgulhos de família; decerto lhe custou a ele, educado por padres e amigo de Pio IX, católico fervente no fundo, causar tanta amargura ao chefe da Igreja; decerto lhe doeu a ele, de uma raça tão altiva, ceder à França a Sabóia, berço da sua raça; decerto lhe foi amargo o dia em que teve de dar sua filha Clotilde ao príncipe Napoleão, ateu, de uma família de aventureiros, quase velho, de costumes tão livres. Mas a Itália exigia um sacrifício. Decerto havia nele muita ambição. A família de Sabóia é orgulhosa, e ele não seria homem se lhe não fizesse bater o coração a ideia de reinar na Itália unida, e de deixar o trono, que foi de césares e de papas, à sua raça; mas se esse orgulho concorreu para fazer uma grande nação livre, que esse orgulho seja bendito!

Pessoalmente era o tipo do fidalgo: nobre, fiel à sua palavra, bravo, de hábitos sóbrios; caçar o chamois, comer a pulenta, viver nos montes, bastava-lhe; nos jantares oficiais conversava sem tocar nos pratos, com as mãos apoiadas aos copos da espada; era um conversador fino, vivo, rápido, sobretudo quando falava no seu querido dialecto piemontês. Em campanha gostava de dormir ao relento, embrulhado numa capa. Amava o cavalo como um cavaleiro andante. Depois da batalha de Novara, quando o despótico general Radeztky veio combinar à sua tenda as condições do armistício, Vítor Manuel não quis tratar sem que lhe fosse restituído o seu cavalo favorito, que fora perdido na confusão da retirada. Este traço tem um ar de legenda heróica, que encanta. Eram estes rasgos que o faziam amado.

Fala-se, com um certo ar repreensivo, dos seus muitos amores; para mim torna-se simplesmente mais simpático; ele não era um filósofo, nem um abade, nem um místico: a sua adoração da beleza faz parte do seu carácter de herói. A fidelidade a uma só é sentimento belo, mas pertence aos tempos líricos do rei Artur e da Távola Redonda. Sir Galahad, que tinha um lírio no escudo, dizia, percorrendo o mundo à busca do Santo Graal: «Eu sou forte, porque sou virgem.» E uma santa palavra; mas Sir Galahad, a não ser em verso e interpretado por Tennyson, faz ligeiramente sorrir. E neste ponto, o rei galantuomo seguia as tradições de seus avós da Renascença, e não as dos cavaleiros do rei Artur.

Foi uma pleurisia que o matou. Os príncipes de Sabóia vivem pouco. Em crianças são débeis; depois, subitamente, tomam um desenvolvimento robusto e declinam depressa. Até ao momento extremo conservou o espírito lúcido. Minutos antes de expirar, chamou o príncipe Humberto, apertou-lhe a mão, deu-lhe um olhar de amor e disse serenamente: «Addio!» O príncipe saiu chorando desesperadamente, e o rei morria. Tinha comungado. Dois vigários do Vaticano tinham vindo, com a bênção do papa, levantar a excomunhão. Pio IX, ao saber que a agonia do rei se aproximava, disse, muito agitado:

– Se não fossem estas pernas, que não querem, eu mesmo levaria os sacramentos ao rei!

É singular que Vítor Manuel, que vira passar como um sonho toda a velha Itália, tudo o que se lhe opôs e que o combateu – príncipes despóticos, grão-duques intriguistas, Bourbons fanáticos, o grande Mazzini, carbonários e conspiradores, camisas-vermelhas e garibaldinos – só não sobreviveu ao seu grande adversário: o papa. Esse aí fica, como uma personificação da velha Itália sacerdotal e autoritária. E é esse que, depois de tantas lutas e de tantas injúrias, o ajuda a bem morrer.

Assim vão desaparecendo os grandes italianos da unificação: Cavour, Ratazzi, Mazzini e Vítor Manuel. Garibaldi resta, mas tão velho que está mais na história que na vida.

E o velho papa fica, intratável, indomável, perturbando o mundo mesmo do seu leito de morte, vendo os seus inimigos morrerem um a um, e tendo a consolação de ver alguns virem, na hora final, pedir-lhe humildemente a sua bênção. Por isso os católicos aqui estão radiosos. Mas que importa? Os homens passam, são a parte decorativa das ideias; e se é Vítor Manuel que morre e o papa que sobrevive, é todavia o ultramontanismo que expira e a democracia que fica.

XII

Londres, 26 de Janeiro [de 1878]

(continua...)

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