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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

Sahiu, foi andando para casa. Ia pensando no poeta dos Idytlios e Decaneios. Os seus versos pareciam-lhe bem banaes — como a sua physionomia que elle conhecia de retratos — o cabello apartado ao meio, o grande pince-nez sobre o nariz grosso : e estava na soirée, apertava a mão dos embaixadores e os jornaes festejavam o seu dia d'annos t

Com algumas poesias mediocres imposera-se á Sociedade ! E isto apparecia-lhe como o resultado d'enredos subtis, d'influencias femininas porque a Sociedade, que só conhecia atravez dos romances, afigurava-se-lhe, como o mundo de Balzac; governada pelos caprichos da Belleza e pelo genio dos Intrigantes. Acreditava na influencia que póde ter, n'uma existencia, o aperto de mão d'um duque, e, como no caso de Vautrin, a protecção secreta d'um forçado. A Fortuna era a presa dos fortes — e então, n'aquella hora de resoluções grandiosas que atravessam todas as almas debeis — decidiu violentamente ser elle tambem um forte, sacudir aquellas sentimentalidades estereis em que se gastava, demolir os obstaculos com o impeto d'um Alcides, apoderar-se á forca da Celebridade, d'um logar na Civilisação e d'um sofá no boudoir d'Etla. Até ahi, o seu desejo carpira — agora, ia luctar . . . E trilhava a rua, levado por estes impetos, a grandes passadas, como se fosse anoderar-se do mundo. O charà-bancs que batia a galope para a estação d'Ovar obrigou-o a refugiar-se n'um portal : teve um momento a tentação de se atirar para dentro, ir tomar o comboio para Lisboa, começar a batalha — mas tinha na algibeira tres tostões ! E a esta picada mesquinha da realidade, aquella amplificação da vontade engelhou-se-lhe subitamente, como um baIão furado.

Quando entrou em casa, a Joanna correu da cozinha, dizendo que o snr. Coutinho, o tabellião, tinha vindo para lhe fallar, e depois man.dara uma carta pelo creado . . . Estava em cima da mesa.

Arthur, surprehendido, correu á sala, abriu vivamente a carta :

« lii. mo Snr.

«O meu collega, correspondente do Porto, o

« Snr. Fernandes Gouveia, da rua do Loureiro, en-

« carrega-me da dolorosa missão de lhe participar

« que seu honrado padrinho, Snr. Guedes Craveiro,

« falleceu no dia 25 do corrente, pelas cinco horas

« da manhã — e ao mesmo tempo da grata incum-

« bencia de lhe annunciar que por codicilo ao seu « testamento de 18 de Abril do corrente anuo, lhe « lega .

— Oh ! Santo Deus !

. . . lhe lega, para completar a gua educação, co mo melhor entender, a quantia de dous contos de a réis .

Tremia todo, gritou para a porta :

— Joanna ! Joanna !

A velha acudiu, assustada.

—O padrinho deixa-me um dinheirão ! Dous contos ! !

— Oh ! meu menino, oh ! meu menino ! Ai ! as senhoras que estão na missa. Vou chamal-as ! Vou a correr . . .

Mas ellas n'esse momento entravam.

Ricardina, no pateo, ralhava com o moço da q uinta.

Arthur correu ao alto da escada, de braços no ar :

— Tia Sabina ! Tia Sabina, o padrinho deixoume um dinheirão ! Dous contos !

— Foram as minhas orações ! — exclamou a velha agarrando-se ao corrimão, quasi desmaiada. — Oh ! meu filho ! Oh ! meu filho !

— Que estás tu a dizer — gritava Ricardina aos tropeções pela escada.

Entraram na sala, a Joanna atraz, e quando Arthur lhes acabou de ler a carta, em que o tabellião dizia que o legado se compunha de dous contos, depositados no Banco de Portugal —e que, no dia seguinte, elle receberia uma ordem sobre o snr. Carneiro, logista de pannos, para receber, á vista, quinhentos mil réis, ouro ou papel, para as primeiras despezas do luto — as tres senhoras e a creada, muito tremulas, romperam a chorar !

— Oh! caramba ! oh ! caramba ! dizia Arthur, andando pela sala, com todo o sangue na face, tropeçando contra os moveis. E pensava com uma alegria tumultuosa no insulto que faria ao Vasco, que presente daria ás tias, por que comboio partiria para Lisboa, Já se lá via, assistindo aos ensaios do seu drama, encontrando a senhora do vestido de xadrez . . ,

— Vou a casa do Coutinho — exclamou de repente — vou vêr como é isso da ordem de {manhã

— Almoça primeiro, menino — disse Ricardina. Mas elle, sem a escutar, abalara. Ricardina, então, pôz os oculos, releu a carta, baixo, impressionada com aquellas palavras, « ordem á vista deposito no Banco», tomada inesperadamente d'um novo respeito pelo menino.

— O Arthur agora ha-de querer voltar para Coimbra — disse por fim a Sabininha, que, sentada á beira da cadeira, com o seu mantelete de sêda bordado a vidrilhos e o livro de missa no regaço, ainda limpava uma ou outra lagrimaa

— P 'ra Coimbra, credo ! — exclamou Ricardina — um rapagão de vinte e cinco annos ! Já não está para mestres . . . O que deve fazer é tomar a Pharmacia ao . . . que elle está morto por a passar ! —E depok d'urn momento : — Pois olhem, até se me embrulhou o estomago. Uma cousa assim de repente . . . E a mana não se fique agora com as suag lamurias . . . e vá accender outra lamparina no oratorio, ande, que ge deve o agradecimento ao Senhor . . .

(continua...)

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