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#Contos#Literatura Portuguesa

São Cristóvão

Por Eça de Queirós (1912)

Bem depressa correu o grito que um bando armado avançava sobre o castelo. Os pajens correram, em confusão, à sala de armas, a tomar espadas, lanças. Os guardas trancavam as portas, desesperadamente. E o intendente, com os cabelos ao vento, gritava que se aquecesse o pez, o alcatrão, para despejar sobre o bando se ele quisesse escalar as muralhas, Mas ninguém escutava, na desordem. A longa paz desabituara os habitantes do castelo da disciplina, da prontidão. Não havia um cavaleiro para comandar. E as mulheres, correndo para a capela, e chorando, amoleciam os corações.

Subitamente um grande alarido ressoou sob os muros. Cristóvão subiu às ameias: - viu um bando imenso e homens, servos em farrapos, brandindo foices, chuços, tochas, amontoando-se na ponte levadiça, que ninguém se lembrara de erguer, enquanto outros em redor, a grandes machadadas, abatiam as forcas patibulares e o banco de pedra a justiça, que o musgo cobria, sob o olmo senhorial. Já golpes de machado ressoavam contra a porta, fazendo saltar faíscas. Um tronco enorme, que mãos inumeráveis sustentavam, foi trazido, arremessado, como um aríete, contra a porta, em que ele marrava como um carneiro. De cima, os arqueiros despediam flechas com mão mal segura. Cada grito de ferido mais excitava a turba, as machadadas redobravam – e a velha porta bem depressa foi aberta em lascas. Então os arqueiros, os pajens, desceram para se refugiar na torre – e Cristóvão, tomando nas mãos as trancas de ferro, correu para o torre senhorial. Dentro, na grande sala abobadada, estavam as damas pálidas, uma junto da outra, com o condezinho entre elas, quase escondido nos seus vestidos. O velho senescal rezava de joelhos. E, em torno, amontoavam-se os in-fólios, os arquivos da casa, as grandes árvores genealógicas, tudo o que fazia o orgulho daquela família, Era como uma cidadela do feudalismo, onde tudo se achava resumido, a esperança de uma casa, os seus títulos, os seus tesouros, todo o seu orgulho. E tudo aquilo era ameaçado por uma plebe revolta!

Cristóvão fora humildemente postar-se ao funda da sala abobadada. E tão grande era o seu terror, tão arraigado o desdém pelos servos que não era nele que os Senhores pensavam, nem no poderoso socorro de sua força indomável, mas nas espadas dos pajens, a quem elas gritavam que defendessem a porta.

Através dos pátios, no entanto, já os gritos dos feridos ressoavam por entre o clamor da turba de Jacques, que vinha como uma onda que arrebentou os diques. E mal a porta da torre fora fechada, que sobre ela caíram enormes machadadas, entre uivos de furor, o ruído dos vidros que se partiam, os gritos dos servos assassinados. Dentro ninguém falava, todos com olhos cravados naquela porta atacada – velhas pranchas de carvalho e ferrugentas chapas de ferro, que eram a única defesa contra a morte. Os pajens, mas pálidos que a cera, amolecidos pelos anos de paz, sem educação guerreira, faziam diante das mulheres uma sebe de espadas – espadas cujas pontas tremiam. O capelão rezava de bruços. E o arquivista estendia os braços por cima dos seus in-fólios, como para os proteger, com os olhos cravados na porta, e estremecendo a cada machadada. Só a avó parecia serena, sustentada pelo seu orgulho, com o peito direito, preparado para a morte, enquanto a nora sucumbia agarrada ao filho, banhando-o de lágrimas. E pela escada de caracol, que subia ao pavimento superior, apinhava-se a criadagem, as aias – algumas ainda com a sua roca na mão.

Sob os golpes desesperados a porta cedia! Pelas fendas da muralha entrava o fumo das fogueiras, que os Jacques acendiam no pátio para pegar o fogo ao castelo, com os móveis que arrastavam das salas, cadeiras brasonadas, arcas cheias de estofos. Já ninguém contava com a vida. Duas aias velhas, de rosário na mão, pediam a absolvição, ao padre, que as não escutava, de joelhos, batendo os queixos, entre os gritos de misereres.

De repente aporta cedeu, tombou sob os seus grandes gonzos estalados – e pontas de chuços, de foices, faces lívidas, braços descarnados. irromperam numa fúria de matança. As damas tinham fugido. Já um grande velho, em farrapos, pulava por sobre a porta, com uma foice em cada mão – quando, do fundo da abóbada, Cristóvão surgiu, enorme, com a face ardente, uma barra de ferro em cada mão.

(continua...)

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