Por Eça de Queirós (1878)
- Aquilo, a do Engenheiro besunta-lhe as mãos... É ela quem abre a portita de noite...
- Tanto não direi! Credo!
Paula fitou-a com superioridade:
- A Sra. Helena está ai ao seu balcão... Mas eu é que as conheço, as mulheres da altasociedade! Conheço-as nas pontas dos dedos. É uma cambada!
Citou logo nomes, alguns ilustres; tinham amantes inumeráveis: até trintanários. Algumas fumavam, outras entortavam-se. E pior! E pior!
- E passeiam por ai, muito repimpadas de carrinho, à barba da gente de bem!
- Falta de religião! - suspirou a estanqueira.
O Paula encolheu os ombros:
- A religião é que é, Sra. Helena! Com os padres é que é!
E agitando furioso o punho fechado:
- Com os padres é uma choldra viva!
- Credo, Sr. Paula, que até lhe fica mal!...
E o carão amarelado da estanqueira tinha uma severidade de devota ofendida.
- Ora, histórias, Sra. Helena! - exclamou o homem com desprezo.
E bruscamente:
- Por que é que acabaram os conventos? Diga-me! Porque era um desaforo lá dentro.
- Oh, Sr. Paula! Oh, Sr. Paula! - balbuciava a Helena, recuando, encolhendo-seO Paula atirava-lhe as impiedades como punhaladas.
- Um desaforo! De noite as freiras vinham por um subterrâneo ter com os vinhaça e maisvinhaça. E batiam o fandango em camisa! Anda isso por aí em todos os livros.
E erguendo-se nas chinelas:
- E os jesuítas, se vamos a isso! Sim! Diga!
Mas recuou, e levando a mão à pala do boné:
- Um criado da senhora - disse com respeito.
Era Luísa que passava, vestida de preto, o véu descido. Ficaram calados, a olhá-la.
- Que ela é muito bonita! - murmurou a estanqueira, com admiração.
O Paula franziu a testa:
- Não é mau bocado... - disse. E acrescentou, com desdém: - Pra quem gosta daquilo!...
Houve um silêncio. E o Paula rosnou:
- Não são as saias que me levam o tempo, nem disto!...
E bateu no bolso do colete, fazendo tilintar dinheiro.
Tossiu, pigarreou, e ainda áspero:
- Venha de lá um pataco de Xabregas.
Foi para a porta do estanco enrolar o cigarro, assobiar; mas os seus olhos arregalaram-se indignados; numa das janelas de cima na casa do Engenheiro, tinha avistado, por entre as vidraças abertas, a figura enfezada do Pedro, o carpinteiro.
Voltou-se para a estanqueira, e cruzando dramaticamente os braços:
- E agora, que a patroa vai à vida, lá está o rapazola a entender-se com a criada!
Soltou uma larga baforada de fumo, e com uma voz soturna:
- Aquela casa vai-se tornando um prostíbulo!
- Um que, Sr. Paula?
- Um prostíbulo, Sra. Helena! E como se dissesse um alcouce!
E, com passos escandalizados, o patriota afastou-se.
Luísa ia enfim ao campo com Basílio. Consentira na véspera, declarando logo que era só um passeio de meia hora, de carruagem, sem se apearem. Basílio ainda insistiu, falando em sombras de alamedas, uma merendinha, relvas Mas ela recusou, muito teimosa, rindo, dizendo: - Nada de relvas!...
E tinham combinado encontrar-se na Praça da Alegria. Chegou tarde, já depois das duas e meia, com o guarda-solinho muito carregado sobre o rosto, toda assustada.
Basílio esperava, fumando, num cupê, à esquina, debaixo de uma árvore. Abriu rapidamente a portinhola, e Luísa entrou fechando atrapalhadamente a sombrinha; o vestido prendeu-se ao estribo, esgaçou-se no rufo de seda; e achou-se ao lado dele, muito nervosa, ofegante, com o rosto abrasado, murmurando:
- Que tolice, que tolice esta!
Mal podia falar. O cupê partiu logo a trote. O cocheiro era o Pintéus, um batedor.
- Tão cansada, coitadinha! - disse-lhe Basílio muito meigo. Levantou-lhe o véu; estava suada; osseus largos olhos brilhavam da excitação, da pressa, do medo...
- Que calor, Basílio!
Quis descer um dos vidros do cupê.
- Não, isso não! Podiam vê-los! Quando passassem as portas...
- Para onde vamos nós?
E espreitava, levantando o estore.
- Vamos para o lado do Lumiar, é o melhor sitio. Não queres?
Encolheu os ombros. Que lhe importava? Ia sossegando; tinha tirado o véu ~ luvas; sorria, abanando-se com o lenço, de onde saia um aroma fresco.
Basílio prendeu-lhe o pulso, pôs-lhe muitos beijos longos, delicados, na pele fina, azulada de veiazinhas.
- Tu prometeste ter juízo! - fez ela com um sorriso cálido olhando-o de lado.
Ora! Mas um beijo, no braço! Que mal havia? Também era necessário não ser beata!
E olhava-a avidamente.
Os velhos estores do cupê corridos eram de seda vermelha, e a luz que os atravessava envolvia num tom igual, cor-de-rosa e quente. Os seus beiços tinham um escarlate molhado, a lisura sã de uma pétala de rosa; e ao canto do olho um ponto de luz movia-se num fluido doce.
Não se conteve, passou-lhe os dedos um pouco trêmulos nas fontes, nos cabelos, com uma carícia fugitiva e assustada, e com a voz humilde:
- Nem um beijo na face, um só?
- Um só? - fez ela.
Pousou-lho delicadamente ao pé da orelha. Mas aquele contato exasperou-lhe o desejo brutalmente; teve um som de voz soluçado; agarrou-a com sofreguidão, e atirava-lhe beijos tontos pelo pescoço, pela face, pelo chapéu...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.