Por Eça de Queirós (1900)
Num trote folgado passara a Fábrica de Vidros, depois o Cruzeiro sempre coberto pelas pombas que esvoaçam do pombal da Fábrica. E entrava no lugar de Nacejas - quando, à janela duma casinha muito limpa, rodeada de parreiras, apareceu uma linda rapariga, morena e fina, com jaqué de pano azul e lenço de cambraieta bordada sobre fartos bandós ondeados. Gonçalo, sopeando a égua, saudou, sorriu suavemente:
- Perdão, minha menina... Vou bem por aqui, para Canta-Pedra?
- Vai, sim senhor. Embaixo, à ponte, mete para a direita, para os álamos. E é sempre a seguir...
Gonçalo suspirou, gracejando:
- Antes desejava ficar!
A moça corou. E o Fidalgo ainda se torceu no selim para gozar a fina face morena, entre os dois craveiros da janelinha, na casa tão bem caiada.
Nesse momento, ao lado, duma quelha enramada, desembocava um caçador do campo, de jaleca e barrete vermelho, com a espingarda atravessada nas costas, seguido por dois perdigueiros. Era um latagão airoso, que todo ele, no bater dos sapatões brancos, no menear da cinta enfaixada em seda, no levantar da face clara de suíças louras, transbordava de presunção e pimponice. Num relance surpreendeu o sorriso, a atenção galante do Fidalgo. E estacou, pregando sobre ele, com lenta arrogância, os belos olhos pestanudos. Depois passou desdenhosamente, sem se arredar da égua na ladeira estreita, quase raspando pela perna do Fidalgo o cano da caçadeira. Mas adiante ainda atirou uma tossidela seca e de chasco com um bater mais petulante dos tacões.
Gonçalo picou a égua, colhido logo por aquele desgraçado temor, aquele desmaiado arrepio da carne, que sempre, ante qualquer risco, qualquer ameaça, o forçava irresistivelmente a encolher, a recuar, a abalar. Embaixo, na ponte, desesperado contra a sua timidez, deteve o trote, espreitou para trás, para a branca casa florida. O mocetão parara, encostado à espingarda, sob a janela onde a rapariga morena se debruçava entre os dois vasos de cravos. E assim encostado, depois de rir para a moça, acenou ao Fidalgo, num desafio largo, com a cabeça alta, a borla do barrete toda espetada como uma crista flamante.
Gonçalo Mendes Ramires meteu a galope pelo copado caminho de álamos que acompanha o riacho das Donas. Em Canta-Pedra nem se demorou a estudar (como tencionava para proveito da sua Novela) o vale, a ribeira espraiada, as ruínas do Mosteiro de Recadães sobre a colina, e no cabeço fronteiro o moinho que assenta sobre as denegridas pedras da antiga e tão falada Honra de Avelãs. De resto o céu, cinzento e abafado desde manhã, entenebrecia para os lados de Craquede e de Vila-Clara. Um bafo morno remexeu a folhagem sedenta. E já gotas pesadas se esmagavam na poeira - quando ele, sempre galopando, entrou na estrada dos Bravais.
Na Torre encontrou uma carta do Castanheiro. O patriota ansiava por saber "se essa Torre de D. Ramires se erguia enfim para honra das letras, como a outra, a genuína, se erguera outrora, em séculos mais ditosos, para orgulho das armas". E acrescentava num Post Scriptum "Planeio imensos cartazes, pregados a cada esquina de cada cidade de Portugal, anunciando em letras de côvado a aparição salvadora dos Anais! E, como tenciono prometer neles aos povos a sua preciosa Novelazinha, desejo que o amigo Gonçalo me informe se ela tem, à moda de 1830, um saboroso subtítulo, como Episódios do século XII, ou Crônica do Reinado de Afonso II, ou Cenas da Meia-Idade Portuguesa... Eu voto pelo subtítulo. Como o subsolo num edifício, o subtítulo num livro alteia e dá solidez. À obra, pois, meu Ramires, com essa sua imaginação feracíssima!..."
Esta invenção de imensos cartazes, com o seu nome e o título da sua Novela em letras de cores estridentes, enchendo cada esquina de Portugal, deleitou o Fidalgo. E logo nessa noite, ao rumor da chuva densa que estalava na folhagem dos limoeiros, retomou o seu manuscrito, parado nas primeiras linhas, amplas e sonoras, do Capítulo II...
Através delas, e na frescura da madrugada, Lourenço Mendes Ramires, com o troço de Cavaleiros e peonagem da sua mercê, corria sobre Montemor em socorro das senhoras Infantas. Mas, ao penetrar no vale de Canta-Pedra, eis que o esforçado filho de Tructesindo avista a mesnada do Bastardo de Baião, esperando desde alva (como anunciara Mendo Pais) para tolher a passagem. E então, nesta sombria Novela de sangue e homizios, brotava inesperadamente, como uma rosa na fenda dum bastião, um lance de amor, que o tio Duarte cantara no Bardo com dolente elegância.
Lopo de Balão, cuja beleza loura de Fidalgo godo era tão celebrada por toda a terra de EntreMinho e Douro que lhe chamavam o Claro-Sol, amara arrebatadamente D. Violante, a filha mais nova de Tructesindo Ramires. Em dia de S. João, no solar de Lanhoso, onde se celebravam lides de touros e jogos de tavolagem, conhecera ele a donzela esplêndida, que o tio Duarte no seu Poemeto louvava com deslumbrado encanto:
Que líquido fulgor dos negros olhos!
Que fartas tranças de lustroso ébano!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.