Por Camilo Castelo Branco (1864)
- Não amo minha prima - respondeu serena e pacientemente o moço. - Se amasse Mafalda, decerto não estaria ao lado de Palmira. Estimo-a como irmã; respeito-a religiosamente hoje, por saber que o último alento de minha mãe o recebeu ela nos lábios... Porém, que tens tu com minha prima? Que injustas referências são essas que continuamente lhe estás apontando? Que mal te fez a triste menina, que vive e morrerá sem outro prazer senão o da sua virtude mal remunerada neste mundo?
- Virtude!... -interrompeu Palmira franzindo os lábios no sorriso de ironia injuriosa. - Sempre a virtude de tua prima em campo para contrastar naturalmente os meus vícios M. Pouquíssima generosidade é a tua, Afonso!... Terei eu de ouvir ainda de tua boca o libelo e a condenação das minhas culpas?! Pode ser, pode ser, e eu envelhecida pela experiência de poucas semanas, não terei de que espantar-me.
- Ofendem-me as tuas injustiças-redarguiu Afonso sofreando a impaciência-Que direito te dou para tanto?
- Direito? Queres, por acaso, dizer-me que estou em tua casa?
- Essa pergunta é aviltante, Palmira!... Onde está a tua inteligência, a tua crítica e, propriamente, a tua vaidade? - redarguiu Afonso de Teive. - Desconheço-te, estás a descer sem impulso estranho...
- A descer da tua consideração?-acudiu ela ressabiada.
- Quem o duvida? A mulher de alma nunca faz semelhantes perguntas a um homem como Afonso de Teive. Queria eu dizer que não te dava direito, ou causa a ofender-me.
- Bem! - tomou ela, amaciada a voz com falso acordo. - Aceito a explicação.
Perdoemo-nos reciprocamente e sejamos... amigos, sim?
- Como tu feriste ironicamente a palavra amigos!...
- É que me não toa bem nos ouvidos do coração - replicou Palmira risonha, chegando a face aos lábios do moço, que a beijaram friamente.
- Enquanto ao teu novo traçado de vida - volveu ela -, queres que se cumpra, em rigor, como está ordenado, sim?
- Ordenado não é o termo próprio. Consulto-te, expus em breve as minhas razões; mas se te despraz...
- Apraz-me tudo que te contenta, meu Afonso. De hoje em diante reformam-se os nossos costumes. Vendem-se os trens? Traspassa-se o camarote? Vamos habitar uma casa modesta... Queres, Afonso? Também eu.
Não escapou a Afonso o tom irónico de tais perguntas. Caiu em si de repente, e viuse em começos de castigo. Apagaram-se muitas luzes do altar em que ele tinha o belo barro idolatrado. Fugiram-lhe para sobre o túmulo de sua mãe os olhos da alma e viram Mafalda de joelhos na lajem da capela com face apoiada no mármore do jazigo.
As luzes restantes do altar ficaram para lhe mostrar o odioso da mulher de Eleutério. Às perguntas retrincadas não respondeu Afonso... Ergueu-se e saiu do seu quarto.
Refugiou-se no mais recôndito do palácio, para chorar a salvo do oprobrioso sorriso de
Palmira. Depois voltou ao seu escritório e escreveu a Mafalda esta carta,
significativa de mudança temporária, se não fundamental, em seu espírito:
Prima Mafalda. Vai ao pé do túmulo de minha mãe e repete-lhe as palavras desta cana. A justiça de Deus esmaga-me. Sou eu que vergo debaixo do fardo de afronta que levantei da lama com minhas próprias mãos. O arrependimento dos desvarios da mocidade não costuma atalhar tão cedo a carreira dos grandes desgraçados. Fere-me Deus tão cedo!, é porque me quer desatar deste jugo de infâmia. Auxiliem-me as orações de minha mãe, que eu sou fraco. Venham golpes de desengano, bem pungentes, para que se faça o dia da razão em minha vida. A aurora deste dia já aponta; mas o meu coração ainda está envolvido em trevas e cheio de amargura. Santas devem ser as tuas orações, Mafalda. Eu dobro o joelho ante a memória de nossa mãe, ouso invocar a sua intercessão no Céu; sei que a alma bem aventurada não repele o mau filho que a crucificou nos últimos anos, quando me ela pedia seio onde encostar as suas cãs.
Mafalda, anjo solitário, que vês com os olhos puros as estrelas da nossa infância, ora por mim, dá-me a tua piedade, que nenhuma outra me dá este mundo. Escreve-me, diz ao teu vulnerável pai que me escreva. Lembra-lhe as pardieiros das Taipas... Diz-lhe que o neto de Cristóvão de Teive sente já no coração o corroer das úlceras que carcomeram a pele do emparedado. Amai-me ambos, defendei-me de mim próprio, que o esteio da religião não pode com o peso de meus desatinos. Teu primo, Afonso..
Mandou Afonso lançar a carta na caixa postal.
Um quarto de hora depois, entrava Palmira, fremente de raiva, com a carta aberta exclamando:
- Isto é uma grande miséria e uma grande infâmia, Sr. Afonso de Teive! A minha dignidade vem pedir que esta afrontosa carta seja reformada.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Salvação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=88534 . Acesso em: 28 jun. 2026.