Por Camilo Castelo Branco (1869)
― É que eu – explicou o marido de Francisca Ruiva – ainda cuidava que ela teria feito a sua asneira, e que se tivesse arrependido; mas à vista do que acontece, nem um dardo! (E descendo a voz, continuou) : Ó amigo Atanásio, aqui entre nós, seu primo do Rio é que a fez limpa! Sem trabalho nenhum, nem risco, nem nota de ladroagem, pilhou os seus quarenta contos fortes... Apre que é ladrão, e perdoe você por ser seu parente...
― Que queriam vocês? – desculpou-se Atanásio – eu incumbi meu primo do negócio porque não via pessoa mais hábil, percebem vocês? Cuidava eu que ele entregaria os títulos acomodando-se com uma pechincha de meia dúzia de contos: mas vocês bem viram a carta dele. Ou me dão quarenta contos, ou entrego os títulos à viúva ou herdeiros de Fialho. Que fazer? Ou dar os quarenta ou perder duzentos. Vocês concordaram, e eu paguei.
― E os outros seis contos que você deu ao marido da Rosa Catraia? – perguntou Pantaleão.
― Não que esse, como era criado do quarto de Hermenegildo e sabia ler, tinha visto os títulos quando andava à carta das notas e mais a bêbada da moça, percebem vocês? E depois viu que eles desapareceram, e começou a dar à língua; de maneiras que não houve remédio senão meu primo fazer cambalacho com ele, e mandá-lo para mim com uma carta, que vocês viram, e também concordaram em que se pagasse.
― Querem vocês saber uma? Adivinham quem ontem esteve no baile da Assembléia? A tal Rosa Catraia! – disse Joaquim Antônio.
― Ora que novidade você me dá! – acudiu Atanásio. – Fui eu quem lhe arranjei a carta de convite.
― E estava rica a valer! – acrescentou o marido da maiata. – E boa mulher?! O maroto do Fialho tinha gosto!
Quantas lhe conheci eram todas de sola e vira!
― Pelo que vejo a Rosa soube-se arranjar bem!... – observou Pantaleão.
― Ora!... – conveio Atanásio. – eu dou-lhe trinta contos fortes pelo que ela apanhou. Só os brilhantes da Ângela valiam mais de cinco contos.
― E ela lá os tinha no baile, que eu bem lhos conheci... – confirmou o mesário da santa casa.
― Também é escândalo demais! – censurou Pantaleão. – Apresentar-se em público com os enfeites da mulher do amo. A minha vontade era espalhar isso...
― Caia nessa você – contradisse Atanásio – e depois queixe-se, se o marido contar que viu na carteira do Fialho um título seu de dívida de cinqüenta e dois contos... percebe você?
― Fale baixo, diabo! – acudiu o ladrão pundonoroso. – Você não sabe que anda aí gente pelo quintal?!
Chegaram as travessas da pescada entre rimas de cebolas e ovos. Abriram-se os buchos, e fecharam-se as consciências destes membros do tribunal de honra onde Ângela foi condenada à infâmia e à pobreza.
Fartos até ao arroto, de coletes desabotoados, saíram os três acionistas mais grados dos bancos portuenses a beber o ar balsâmico do jardim de São Lázaro. Nada, absolutamente nada, estremava aqueles três da classe dos homens de bem, porque a lei, que mandava abrir com ferro quente um ferrete na testa dos ladrões, foi derrogada em 7 de fevereiro de 1523.
XXIV A OPINIAO PÚBLICA
A opinião dos três capitalistas dignamente acatados no anterior capítulo frisava com a opinião geral da sociedade portuense sobre o casamento de Ângela com o cirurgião Costa. As segundas núpcias tinham evidenciado o crime das primeiras. A infâmia de Ângela era indelével, e já pode ser que mais repulsiva, desde que ela afrontou a moral, passando em frente dos amigos de Fialho pelo braço do amante que causara a morte do honrado brasileiro, dizia a maiata, e Francisca Ruiva, e outras Ruivas, que me estão pedindo crônica. E hão de tê-la. A cortesia não se exercita somente com as senhoras honestas.
Francisco José da Costa leu a opinião pública no volver de olhos dos magotes que se arrebanhavam nas praças, e no petulante encarar das mães, que segredavam às filhas a desmoralização da mulher de Fialho. O cirurgião era alvo da injúria, cuspida nas costas, por seus próprios colegas. Era simples o libelo infamatório: acusavam-no de se ter formado à custa dos brilhante de um brasileiro, roubados por sua mulher.
Ângela encontrou um dia numa algibeira de casaco uma recente carta anônima em que um amigo aconselhava a seu marido que saísse do Porto, se precisava de viver pela arte. E ajuntava ao conselho a causa promotora de tão amigável aviso: É odioso na sociedade o homem que se habilitou para entrar nela com o dinheiro de uma senhora casada. E, se esta senhora roubou, desonrou e matou o marido... mil vezes horrendíssimo!
Ângela da Costa leu e chorou. Depois argüiu-se de fraca, e desmerecedora dos bens com que Deus lhe apremiara a sua paciência nas injúrias.
Guardou a carta, e assim que o marido recolheu, foi para ele risonha, e disse em tom de queixume:
― Por que me não mostraste logo esta carta, meu filho?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Os Brilhantes do Brasileiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1779 . Acesso em: 17 jun. 2026.