Por Camilo Castelo Branco (1882)
Estes assobios eram o silvo da serpente da vingança; mas o seu rancor não punha a pontaria em Marta. Se deixava de cinzelar a pedra, e fitava os olhos extáticos num imenso vácuo, via passar lucilante a imagem da pequena, pura, angelical como a vira aos treze anos. Um grande romântico – uma explosão de ideias que florejavam daquele pedreiro como um canteiro de boninas nos musgos de um penhascal. Havia destas transigências com os anjos despenhados. Dir-se-ia que ele tinha lido as Confissões de um filho do século, aquela torrente de lágrimas ignóbeis que lava os pés de uma dissoluta ilustrada.
Ele, desde essa hora funesta, pensou em matar o José Dias; mas, nas ricas protuberâncias ósseas do seu grande crânio, a bossa do homicídio era muito rudimentar. Tinha tido várias ocasiões de poder-se gabar dessa perfeição. Haviam-lhe batido dois estudantes num pinhal, por causa das denúncias ao padre-mestre Roque; e, quando o cão do Dias lhe rasgou a calça num sítio melindroso, o Zeferisno desconfiou que, se fosse capaz de matar um homem, deveria ter atirado com o machado à cabeça do caçador. Ele queria espezinhar o cadáver de José Dias, espostejá-lo, trincá-lo, mascá-lo, esmoê-lo, devorá-lo, mas à maneira dos devoristas incólumes que compram um porco já morto na Ribeira Velha, e o esquartejam com um grande regozijo antropófago, com as mãos ensopadas nas banhas da vítima.
O pedreiro denunciante ia contando em segredo a toda a gente a descoberta que fizera naquela noite em que se enganara com o luar. A Marta estava desacreditada na freguesia; as mulheres que sachavam os milharais faziam comentários perpétuos ao texto do pedreiro, recordavam as façanhas da Genoveva, contadas pelas velhas, e as mais antigas diziam que a Brígida Galinheira, avó da Marta, já tinha dado o exemplo à filha. – Uma geração de marafonas do alto, dizia a tia Rosa de Carude, cuspindo no chão, e pondo a soca em cima. Riam-se do Zeferino, que andava como a cobra que perdeu a peçonha, muito escamado; que lhe tinham saído dois casamentos com boas lavradeiras, e ele diz que havia de ir morrer solteiro às Pedras Negras, depois da matar um homem; e houve quem afirmasse que o vira com um bacamarte, debaixo dos carvalhos, por essa noite fora, defronte da casa do Simeão. Uma calúnia.
Avisaram a mãe do José Dias da espera do pedreiro, e ela fez dormir o filho numa trapeira que não tinha janela por onde saltas-se, e fechava-o de noite por fora, rogando pragas à seresma de Prazins: – Que um raio a partisse e o Diabo a levasse para as profundas do abismo! Depois ia rezar a coroa com os criados, e rogava a Deus pelos que andavam sobre as águas do mar e pelas almas de todos os seus parentes e vizinhos, com uma intonação chorada que fazia devoção.
O José Dias vivia amargurado. Tinha sido criado num grande respeito aos pais, e sentia-se inábil para lhes reagir. A doença de peito que principiava a desvigorizar-lhe o como, implicava-lhe com a atonia da alma. Sentia o egoísmo indolente dos enfermos minados pela consumpção lenta. Invejava a robustez do irmão, um trabalhador forte que dormia dez horas, e ao romper da aurora ia lavar a cara ao tanque e pensar o gado com uma grande alegria, de assobios remedando as requintas das chulas. Passava muitas horas com o seu confidente, o padre Osório. Pedialhe conselhos – que arranjasse modo de ele poder casar com a Marta.
– Que eu – dizia com desalento – não vou Longe; mas queria remediar o mal que fiz.
A Marta escrevia-lhe para Caldelas, porque a tia Maria de Vilalva, uma vez que lá viu um garoto com carta para o filho, deu sobre ele com um engaço, que por pouco o não apanha pela cabeça com os dentes do instrumento. As cartas eram desconfianças, receio do abandono, lágrimas. O pai não a mortificava. Pelo contrário, dizia-lhe a miúdo:
– Se o Zé de Vilalva não casar contigo, talvez seja a tua fortuna, porque pode ser que teu tio adregue de gostar de ti, e mais mês menos mês ele rebenta por essa porta dentro rico como um porco. O brasileiro da Rita Chasca, que chegou agora, diz que ele tem quatrocentos contos fortes, para riba, que não para baixo.
A Marta escondia-se a chorar; e, às vezes, lembrava-se do fim da mãe – o suicídio; e punha-se a olhar para o Ave e a escutar o rugido cavo de uma levada que parecia trazer-lhe os gemidos agonizantes de muitos afogados.
O Dias falava-lhe na sua doença, no desfalecimento de forças, que já o não deixavam caçar, da tristeza que o consumia, do desamor com que a família o via padecer, do ódio que começava a ter à mãe, e idas saudades dilacerantes que sentia pela sua querida Marta. – Que o seu amigo padre Osório trabalhava para obter o consentimento do pai; mas que, se o não obtivesse, estava resolvido a fugir com ela, mesmo sem recursos, ou com os poucos que o seu amigo lhe podia emprestar.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. A brasileira de Prazins. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1778 . Acesso em: 17 jun. 2026.