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#Crônicas#Literatura Portuguesa

Crónicas de Londres

Por Eça de Queirós (1940)

Durante um quarto de hora Hammond falou, entre aplausos dos conservadores e assobios dos radicais. Mas, nas palmas ou nos apupos, havia como uma indiferença distraída. As suas imagens mais preparadas, os adjectivos mais sonoros, não conseguiam encadear a atenção; e eu notei que parte da sua vasta audiência se voltava repetidamente para o fundo da sala, onde se eleva uma galeria em anfiteatro, naquela noite tão escura de uma multidão espessa. Era evidente que na galeria alguma coisa produzia aquele frémito de curiosidade. Eu mesmo esqueci o orador que bracejava na plataforma falando da honra da Inglaterra, e apliquei-me a descobrir o caso interessante da galeria. Até que achei. Era um homem, um velho, que estava num dos bancos da frente, imóvel, com uma larga face barbada e risonha. E verifiquei que o que produzia impressão era uma coisa que ele tinha na cabeça; evidentemente o público, como eu, desejava saber o que era, porque, estando a galeria mal alumiada, não era possível, à distância, apreciar-se: não era um chapéu redondo, nem um chapéu de bicos, nem um barrete, nem um capuz, nem um turbante, nem um capacete: o que era então? As risadas convulsivas das pessoas que na galeria o cercavam picavam mais a minha curiosidade e a de três mil pessoas que estavam em baixo, na sala. Pouco a pouco, por um movimento comunicativo, toda a gente se voltara para a galeria, estendendo o pescoço, aguçando o olhar, erguendo-se em bicos de pés; e o deputado Hammond não tinha diante de si, para receber os argumentos políticos, senão nucas e costas. O velho, decerto compreendendo que era o centro daquela curiosidade lisonjeira, ergueu-se com solenidade. Gritaram-lhe logo que viesse para os degraus de baixo! A reclamação era engenhosa; mal ele descesse, a luz de um dos lustres alumiar-lhe-ia a cabeça e poderíamos enfim saber que estranho objecto Lhe cercava as cãs. O velho condescendeu e, apenas entrou no foco de luz, uma gargalhada estridente, ecoante, trovejante, fez oscilar os muros. Tinham visto o que ele tinha na cabeça, o velho! Era uma coroa de louros! Porquê? Era um bardo? Era o Tasso? Era o nosso Camões? Quem o coroara? Que batalha ganhara? Que epopeia compusera? Era um deus marinho?

Enfim descobrimos o motivo: o respeitável ancião estava profundamente bêbado! E, vendo-se acolhido por uma aclamação tão jovial, não hesitou e falou! Falou dez minutos: salvas de palmas virgulavam-lhe cada oração; que triunfo, por Júpiter! O deputado Hammond, na plataforma, lívido, mascando uma bela imagem que começara a desenrolar, cruzava os braços com um desespero trágico: o seu olhar dizia claramente: «Povo vil, nação imunda!» Mas o povo delirava; e eu, aplicando o ouvido, pude vagamente perceber que o velho aconselhava os seus concidadãos a que fossem, em massa, à taverna dos Braços de El-Rei, onde o gim era especialmente bom e as raparigas que o serviam singularmente rechonchudas; aconselhava-o com exaltação, com a fé de um missionário; e, coroado de louro sorria, o bom velho!

Hammond não se conteve, invocou a polícia. Mas então o verás! O público, num frenesi, assobiou a polícia. O quê? Levar, expulsar um homem que tinha verdades tão proveitosas a revelar aos seus compatriotas? Não! E o velho debatia-se entre dois polícias, surpreendido, mostrando as suas cãs, a sua inocência e a sua coroa de louros. A polícia não o expulsou, mas fê-lo sentar. O deputado recomeçou. Mas ai! Quem o escutava? Todos os olhos, todos os corações, são para o bom velho que, sentado no mais alto degrau da galeria, como na glória de um trono, ostentava a sua face honesta e pacífica, com um bom sorriso jovial, coroado de louros, profundamente bêbado.

O meeting dispersou, sem se tomar nenhuma resolução: e creio que a maioria foi aos Braços de El-Rei verificar a qualidade do gim e as formas das serventes.

A Inglaterra é uma grande nação. Longe de mim apresentar este meeting como o tipo clássico dos meetings ingleses. Não. Conto apenas o que me parece ser um caso divertido.

Chega-me neste momento uma triste notícia. Vítor Manuel morreu: ainda ontem o seu antigo ministro, velho amigo e camarada de armas, o cavalheiresco general de La Marmora era enterrado – já hoje desaparece ele, o rei galantuomo, uma das personalidades mais interessantes da política moderna. Perde-se assim um grande patriota; porque o traço eficiente do seu carácter foi este: amar a sua pátria; não a sua pequena pátria, a Sabóia, mas a sua grande pátria, a Itália.

A sua biografia é ao mesmo tempo a crónica da Itália unida. No fim da batalha de Novara, Vítor Manuel, então moço, que se batera heroicamente, retirava-se do campo desastroso –quando de repente, estacando o cavalo e brandindo a espada para o lado onde se acendiam os fogos do acampamento austríaco, exclamou:

– Per Dio! L’Italia se farà!

(continua...)

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