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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

Mas o Rabecaz, a quem o administrador censurara n'essa manhã severamente as suas relações com o poeta, affectou um interesse absorvente pela partida que jogava com o marcador, e fez-lhe apenas, com dous dedos, um aceno secco. O João Valente abysmou a face entre ag mãos, com o nariz sobre o Commercio do Porto. Pelas mesas estavam outros frequentadores e Arthur sentiu logo, nas boas noites muito seccas, nas faces reservadas, uma hostilidade ambiente. O Villela, por fim, disse-lhe, embaragado :

— Homem, isto é o diabo . . . A cousa fez barulho de mais ! Sempre foi insultar as pessoas principaes da Villa. Você comprehende . . . n 'uma terra pequena . . . todos temos ag nossas relações, as nossas dependencias . . . Veja você, lá perdeu o arranjo na botica . . . Que tolice ! Deve vêr se se torna a pôr de bem com todo o mundo. necessario n'esta vida um bocado de sevandijismo . . .

E enterrando as mãos nos bolsos, foi examinar, de pernas abertas, o jogo do Rabecaz.

Arthur empallideceu. O botequim renegava-o ! Sahiu, atirando com a porta — e andou pelas ruas, furioso, até tarde, planeando cousas vagas que faria para mostrar o seu genio, vingar-se, humilhar Oliveira. Derreado, entrou no seu quarto, pensando no suicidio.

A porta, então, rangeu devagarinho. Era a tia Sabina, de saiote pelos hombros, que vinha trazer lhe um pires de marmelada e pão, porque o vira comer tão pouco ao jantar.

Aquella bondade commoveu-o e desatou a cho rar irreprimivelmente. A velha apertou-o nos bra-i cos, beijou-lhe o cabello, calada. E tirando d'umal algibeira um embrulho de papel, com placas de cinco tostões :

—É para as tuas despezas, meu filho, agora que' não tens outra cousa. São as minhas economias . . . São tres mil e quinhentos , . . Era para te comprar panno para camisas — para ti era

D'ahi a duas semanas, um domingo, Arthur, voltando cedo do correio, entrou na Corcovada. Escrevera ao padrinho uma carta imploradora e desolada ; a resposta tardava, e agora, quasi todas as manhãs, depois do velho carteiro passar pela praça, coxeando, elle punha o chapéu e lá marchava, a perguntar ao Gomes do correio se por acaso não houvera engano, se não teria vindo uma carta nue elle esperava

— Não lh'a levaram a casa, não ? — resmungava o Gomes, puxando es oculos para a testa. — En tão .

O botequim áquella hora estava deserto. Uma faixa de sol tepido de Novembro atravessava a saleta, fazendo parecer mais triste o soalho ennegrecido, o papel de ramagens azues riscado de phosphoros, a cortina de panninho vermelho sobre a porta envidraçada da cozinha. Um dos pequenos rabujava, e o mestre da phylarmonica, que morava por cima, ensaiava-se no clarinete. Arthur ficou um momento a fazer no bilhar carambolas melancolicas, depois, a olhar para o João barbeiro, que, defronte, na sua porta, sob a bacia lustrosa de latão, esperava os freguezes com o pente espetado na grenha. Por fim, veio sentar-se defronte do Jornal do Commercio, com a cabeça entre os punhos. Uma local attrahiu-o casualmente : era a longa descripção d'u-ma soirée, em Lisboa . . . Logo interessado, devorou-a. Fallava-se « da esplendida decoração da sala de baile, das toilettes, das joias duas horas tinha-se aberto um delicioso buffet ; o amavel secretario da Embaixada d'Hespanha dirigira o cotillon com o seu costumado entrain ; e depois, era um desfilar de convidados, condes, dons, deputados, conselheiros, diplomatas, e o poeta applaudldo dos Idyllios e Devaneios

Uma tristeza invadiu-o. E relia a local, demo-

rando-se em certas phrases, vendo atravez d'ellas — a uma luz vaga, que vinha* em parte, da scintillacão dos lustres, em parte, do raio pallido de sol que atravessava o botequim — a sala com dourados, nudezes de collos, os peitilhos lustrosos das camisas, as casacas negras, e os dous olhos tristes que se tinham fixado n'elle na estação d'Ovar, brilhando agora mais alegres . . . Ella de certo lá estaria . . .

E subitamente o antigo amor reappareceu, enternecendo todo o seu ser : era como n'uma noite escura um erguer de lua grave e triste.

E alli ficou muito tempo, com os cotovellos sobre a mesa suja, pensando n'ella ; mas não distinguia já bem as suas feições : pareciam perder-se, dissipar-se no luxo que a cercava, na musica da goirée, nas luzes, em tudo o que elle proprio desejava : as ruas de Lisboa, as plateias dos theatros, as redacções dos jornaes ; isso mesmo se esbatia em longes multo vagos, e luzia a uma distancia que lhe era inaccessivel, rolando n'um rumor de trens ricos, de operas, de beijos adulteros e de poemas applaudidos . Suspirou, muito triste, e levantando a cabeça, viu defronte, pela porta aberta do João barbeiro, um freguez que esperava de pescoço inclinado, a toalha ao pescoço, os queixos brancos de sabão.

(continua...)

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