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#Contos#Literatura Portuguesa

São Cristóvão

Por Eça de Queirós (1912)

Às vezes um frade mendicante batia ao portão, e entrando, deitando as bênçãos, arrumando a um canto o seu alforje, ia aquecer às lareiras os pés doridos dos caminhos, lacerados pelas urzes, e o hábito de burel que fumegava. Filho de vilões, tendo nascido nas lavouras, conhecia as misérias da servidão: e, frade pobre, sofria da opressão, do orgulho dos prelados ricos, com castelos e terços armados. Então sentado na melhor tripeça, com o seu rosário caído entre os joelhos, ele falava também da miséria dos tempos. Certamente Nosso Senhor, cansado de tanta maldade dos grandes, não tardaria a voltar à terra, distribuir melhor o pão, reformar as ordens, abater o orgulho dos rico-homens. E quem sabe? Incompreensíveis são os caminhos da providência! Talvez, para castigar os castelos, deus revoltasse as cabanas. Um chuço fura melhor a armadura, quando é a mão de S. Miguel Arcanjo que o impele. Talvez na Terra se repetisse em breve a batalha do Arcanjo e do Demônio. Já um fogo andara no céu, para o lado do oriente. E sobre o mar tinham-se visto, erguidas e entrechocando-se, uma foice e uma lança. E então, baixando a voz, contava como nos condados, que atravessava, os homens se juntavam de noite numa floresta e tramavam o fim da servidão.

Cristóvão recolhia ao castelo pensativo. E todas aquelas torres, aquelas muralhas lhe pareciam de um aspecto cruel e hostil ao pobre. Por que não haveria para todos a mesma lareira, o mesmo pão? Aqueles tesouros, que ele guardava na torre, seriam a abundância para criancinhas sobre toda a terra; Para que eram tantas armas?

Os homens não se deviam combater, mas somente abraçar, em concórdia.

Um dia que ele assim pensava, sentado à beira dos fossos, um velho veio a passar, um dos servos do castelo, picando o seu burro carregado de erva. Parecia ter pressa, e no seu olhar havia como uma inquietação. Ao ver Cristóvão, parou dizendo: “Novas más, novas más!” E como Cristóvão arregalava os olhos simples, o servo contou que no mercado, de onde viera, corria entre a gente que um bando de servos se levantara, num domínio, além, para trás das colinas, tendo por brado: “Morte aos castelos!” Outros servos se tinham juntado, com chuços. Toda a terra parecia em revolta. E já dois castelos tinham sido atacados, as damas mortas, as crianças mortas, e agora as duas torres ardiam sobre a colina. E, sem outra palavra, picou o seu burro carregado de erva. Mas imediatamente Cristóvão se ergueu e o começou a seguir. Quando chegou, atrás dele, à aldeia, já havia grupos no adro, já se falava baixo à porta dos casais. A nova viera no vento, e a todos espantava. Nas faces dos homens moços havia como uma emoção, uma dúvida. se não seria o dever de todos os homens tomar as foices, as enxadas, fazer armas com o ferro dos arados, ir juntar-se aos irmãos de servidão, vingar os pobres. Os velhos abanavam a cabeça, numa grande prudência. De que serviria? Sempre os barões venceriam, descendo dos seus grandes corcéis. E as mulheres, inquietas, lembravam a bondade das donas do castelo, as suas esmolas, os pedaços de anho que pelo Natal mandavam a todas os casais. Que seria se o bando viesse atacar o castelo? Não havia soldados para o defender, nem armas. Pobres senhoras, tão sós e fracas. Pobre condezinho, tão fraco e só!

Cristóvão escutara em silêncio. E em silêncio, também, recolheu ao castelo.

Toda essa tarde rondou as muralhas, como para lhes estudar a solidez e a resistência. Depois, com os seus punhos fortes, palpou as portas. E como nesse momento o intendente passava, seguido do seu grande cão, perguntou:

— Que fazes, Cristóvão?

Ele respondeu:

— Anda gente má pelos campos: é necessário levantar a ponte.

O intendente sorriu, encolheu os ombros – e nessa noite fez rir as damas, contando os terrores do gigante, Cristóvão, porém, não dormia. No alto da torre da almenara, toda a noite espreitou as terras em redor, Ao longe, sobre uma colina, havia como fogos de um acampamento, mas nenhum rumor se ouvia, senão o cantar dos sapos na planície. Quando a alvorada veio, Cristóvão desceu: - e indo às abegoarias, escolheu duas trancas enormes de ferro, que serviam para trancar as portas, agora desusadas. Depois a sineta tocou à missa no ar fino. O arquivista veio sentar-se entre os in-fólios, e as damas distribuíam o trabalho às fiandeiras e às servas. E todo o castelo repousava na santa paz do domingo – quando um pajem, que nas ameias fazia uma armadilha aos pássaros, soltou um grito que acordou os arqueiros, adormecidos na sua guarita de pedra. Logo um som de buzina, um grande apelo de alarme ressoou. Todos os pajens correram às ameias. As damas apareceram por trás das vidraças do balcão. E os cozinheiros saíam aos pátios, com as suas caçarolas na mão.

(continua...)

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