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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

E Gonçalo, plantado diante dele, com um risinho suave, um risinho feroz, remexendo na algibeira o dinheiro e as chaves:

- Oh! quase nada. Uma bagatela. Apenas uma infâmia.. Mas para o nosso Governador Civil infâmias são bagatelas.

Sob os dedos de Gracinha o Fado dos Ramires esmoreceu, apenas roçado, num murmúrio incerto.

O Barrolo esperava, esgazeado:

- Desembucha!

E Gonçalo desabafou, com estrondo:

- Pois uma maroteira imensa, homem! O Noronha, o pobre Noronha, perseguido, espezinhado,expulso! Com a família.. Para o inferno, para o Algarve!

- O Noronha pagador?

- O Noronha pagador. Foi o infeliz pagador que pagou!

E, regaladamente, desenrolou a história lamentável. O Sr. André Cavaleiro namoradíssimo, todo em chamas pela irmã mais velha do Noronha. E atacando a rapariga com ramos, cartas, versos, estrupidos cada manhã por diante da janela, a ladear na pileca! Até lhe soltara, ao que parece, uma velha marafona, uma alcoviteira... E a rapariga, um anjo cheio de dignidade, impassível.

Nem se revoltava, apenas se ria. Era uma troça em casa das Noronhas, ao chá, com a leitura da versalhada ardente em que ele a tratava de "Ninfa, de estrela da tarde..." Enfim, uma sordidez funambulesca!

O pobre Fado dos Ramires debandou pelo teclado, num tumulto de gemidos desconcertados e ásperos.

- E eu não ter ouvido nada! - murmurava o Barrolo, assombrado. - Nem no Club, nem na Arcada...

- Pois, meu amiguinho, quem ouviu, e um famoso estampido, foi o pobre Noronha. Arremessadopara o fundo do Alentejo, para um sitio doentio, coalhado de pântanos. E a morte... E uma condenação à morte! A esta aparição da Morte, surgindo dos pântanos, Barrolo atirou uma palmada ao joelho, desconfiado:

- Mas quem diabo te contou tudo isso?

O Fidalgo da Torre encarou o cunhado com desdém, com piedade:

- Quem me contou!? E quem me contou que D. Sebastião morreu em Alcácer-Quibir?... São osfatos. É a História. Toda Oliveira sabe. Por acaso ainda esta manhã o Guedes e eu conversamos sobre o caso. Mas eu já sabia!... E tenho tido pena. Que diabo! Não há crime em se estar apaixonado como o pobre André. Louco, perdido! Até a chorar na Repartição, diante do Secretário-Geral. E a rapariga às gargalhadas!... Agora onde há crime, e horrendo, é na perseguição ao irmão, ao pagador, empregado excelente, de um talento raro... E o dever de todo o homem de bem, que preze a dignidade da Administração e a dignidade dos costumes, é denunciar a infâmia... Eu, pela minha parte, cumpri esse bom dever. E com certo brilho, louvado Deus!

- Que fizeste?

- Enterrei na ilharga do Sr. Governador Civil a minha boa pena de Toledo, até à rama!

O Barrolo, impressionado, beliscava a pele do pescoço. O piano emudecera; mas Gracinha não se movia do mocho, com os dedos entorpecidos nas teclas, como esquecida diante da larga folha onde se enfileiravam, na letra apurada do Videirinha, as quadras triunfais dos Ramires. E subitamente Gonçalo sentiu naquela imobilidade sufocada o despeito que a trespassava. Sensibilizado, para a libertar, lhe poupar algum soluço escapando irresistivelmente, correu ao piano, bateu com carinho nos pobres ombros vergados que estremeceram:

- Tu não dás conta desse lindo fado, rapariga! Deixa, que eu te cantarolo uma quadra, à boamoda do Videirinha... Mas primeiramente sê um anjo... Grita ai no corredor que me tragam um copo d'água bem fresca do Poço Velho.

Ensaiou as teclas, entoou versos, ao acaso, num esforço esganiçado:

Ora na grande batalha, Quatro Ramires valentes...

Gracinha desaparecera por uma fenda do reposteiro, sem rumor. Então o bom Barrolo, que diante da sua terrina da Índia enrolava um cigarro com pensativo cuidado, correu, desafogou, debruçado sobre Gonçalo, da certeza que lentamente o invadira:

- Pois, menino, sempre te digo... Essa irmã do Noronha é um mulherão soberbo! Mas o que eunão acredito é que ela se fizesse arisca. Com o Cavaleiro, bonito rapaz, Governador Civil?... Não acredito. O Cavaleiro saboreou!

E com as bochechas luzidias de admiração:

- Aquele velhaco! Para cavalos e para mulheres não há outro, em Oliveira!

V

A Gazeta do Porto, com a correspondência vingadora, devia desabar sobre Oliveira na quartafeira de manhã, dia dos anos da prima Maria Mendonça. Mas Gonçalo, ainda que não temesse (ressalvado pelo seu pseudônimo de Juvenal) uma briga grosseira com o Cavaleiro nas ruas da Cidade, nem mesmo com algum dos seus partidários servis e façanhudos como o Marcolino do Independente - recolheu discretamente a Santa Irenéia na terça-feira, a cavalo, acompanhado pelo Barrolo até a Vendinha, onde ambos provaram o vinho branco celebrado pelo Titó. Depois, para recordar os lugares memoráveis em que na sua Novela se encontravam, com desastrado choque de armas, Lourenço Ramires e o Bastardo de Baião, tomou o caminho que, atravessando os pomares da espalhada aldeia de Canta-Pedra, entronca na estrada dos Bravais.

(continua...)

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