Por Eça de Queirós (1901)
Com espanto meu recomeçou também a conversar, como nos tempos de Escola, da “famosa Civilização nas suas máximas proporções”. Mandou encaixotar o seu velho telescópio para o usar em Tormes. Receei mesmo que no seu espírito germinasse a idéia de criar, no cimo da serra, uma Cidade com todos os seus órgãos. Pelo mesmo não consentia o meu Jacinto que essas semanas da silvestre Tormes interrompessem a ilimitada acumulação das noções – porque uma manhã rompeu pelo meu quarto, desolado, gritando que entre tantos confortos e formas de Civilização esquecêramos os livros! Assim era – e que vexame para a nossa Intelectualidade! Mas que livros escolher entre os facundos milhares sob que vergava o 202? O meu Príncipe decidiu logo dedicar os seus serranos ao estudo da História Natural - e nós mesmos, imediatamente, deitamos para o fundo dum vasto caixote novo, como lastro, os vinte e cinco tomos de Plínio. Despejamos depois para dentro, às braçadas, Geologia, Mineralogia, Botânica... Espalhamos pôr cima uma camada aérea de Astronomia. E, para fixar bem no caixote estas ciências oscilantes, entalamos em redor cunhas de Metafísica.
Mas quando a derradeira caixa, pregada e cintada de ferro, saiu do portão do 202 na derradeira carroça da Companhia dos Transportes, toda esta animação de Jacinto se abateu como a efervescência num copo de Champanhe. Era em meados já tépidos de Março. E de novo os seus desagradáveis bocejos atroaram o 202 e todos os sofás rangeram sob o peso do corpo que lhe atirava para cima, mortalmente vencido pela fartura e pelo tédio, num desejo de repouso eterno, bem envolto de solidão e silêncio. Desesperei. O quê! Aturaria eu ainda aquele Príncipe palpando amargamente a caveira, e, quando o crepúsculo entristecia a Biblioteca, aludindo, num tom rouco, à doçura das mortes rápidas pela violência misericordiosa do ácido cianídrico? Ah não, caramba! E uma tarde em que o encontrei estirado sobre um divã, de braços em cruz, como se fosse a sua estátua de mármore sobre o seu jazigo de granito, positivamente o abanei com furor, berrando:
-Acorda, homem! Vamos para Tormes! O casarão deve estar pronto, a reluzir, a abarrotar de coisas! Os ossos de teus avós pedem repouso em cova sua!... A caminho, a enterrar esses mortos, e a vivermos nós, os vivos!... Irra!
São cinco de Abril!... é o bom tempo da serra!
O meu Príncipe ressurgiu lentamente da inércia de pedra:
-O Silvério não me escreveu, nunca me escreveu... Mas, com efeito, deve estar tudo preparado... Já lá certamente criados, o cozinheiro de Lisboa... eu só levo o Grilo, e o Anatole que enverniza bem o calçado, e tem jeito como pedicuro... Hoje é Domingo.
Atirou os pés para o tapete, com heroísmo:
-Bem, partimos no Sábado!... Avisa tu o Silvério!
Começou então o laborioso e pensativo estudo dos Horários – e o dedo magro de Jacinto, pôr sobre o mapa, avançando e recuando entre Paris e Tormes. Para escolher o “salão” que devíamos habitar durante a temida jornada, duas vezes percorremos o depósito da Estação de Orleãs atolados em lama, atrás do chefe do Tráfico que entontecia. O meu Príncipe recusava este salão pôr causa da cor tristonha dos estofos; depois recusava aquele pôr causa da mesquinhez aflitiva do Water-Closet. Uma das suas inquietações era o banho, nas manhãs que passaríamos rolando. Sugeri uma banheira de borracha. Jacinto, indeciso, suspirava... Mas nada o aterrou como o trasbordo em Medina del Campo, de noite, nas trevas da Velha Castela. Debalde a Companhia do Norte da Espanha e de Salamanca, pôr cartas, pôr telegramas, sossegaram o meu camarada, afirmando que, quando ele chegasse no comboio de Irun dentro do seu salão, já outro salão ligado ao comboio de Portugal esperaria, bem aquecido, bem alumiado, com uma ceia que lhe ofertava um dos Diretores, D. Esteban Castilho, ruidoso e rubicundo conviva do 202! Jacinto corria os dedos ansioso pela face: - “E os sacos, as peles, os livros, quem os transportaria do salão de Irun para o salão de Salamanca?” Eu berrava, desesperado, que os carregadores de Medina eram os mais rápidos, os mais destros de toda a Europa! Ele murmurava: - “Pois sim, mas em Espanha, de noite!...” A noite, longe da Cidade, sem telefone, sem luz elétrica, sem postos de polícia, parecia ao meu Príncipe povoada de surpresas e assaltos. Só acalmou depois de verificar no Observatório Astronômico, sob a garantia do sábio professor Bertrand, que a noite da nossa jornada era de Lua-cheia!
Enfim, na Sexta-feira, findou a tremenda organização daquela viagem histórica! O Sábado predestinado amanheceu com generoso sol, de afagadora doçura. E eu acabava de guardar na mala, embrulhadas em papel pardo, as fotografias das criaturinhas suaves que, nesses vinte e sete meses de Paris, me tinham chamado "mon petit chou! mont rat cheri!” quando Jacinto rompeu pelo quarto, com um soberbo ramo de orquídeas na sobrecasaca, pálido e todo nervoso.
-Vamos ao bosque, pôr despedida?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1790 . Acesso em: 28 jun. 2026.