Por Camilo Castelo Branco (1862)
A medicina conhece uma doença moral chamada “hipocondria”. Os sintomas desta enfermidade são as desordens digestivas, as flatulências, os espasmos, a exaltação da sensibilidade, os terrores pânicos, a impertinência dos sentimentos morais, etc. Os indivíduos mais inteligentes e mais imaginativos, quando irritados pelas paixões, ou fatigados pelo trabalho de espírito, são mais sujeitos a estes sucessos incuráveis, quando as influências morais os não curam.
Não era esta enfermidade, de origem corpórea, a que me preocupava. A malancolia, sem flatulência nem perturbações estomacais, a que tanto ataca os inteligentes como os idiotas, era esse o meu fito.
Horas e dias terríveis passam por nós como períodos negros da existência.
Cai-nos a fronte para o seio, onde o coração nos dói premido por mão de ferro. Não há lembrança feliz que possa estrelar-nos o caos da imaginação: não há raio de sol que faça abrir flor de esperança em nossa alma arada pelo desconforto.
Essa situação é comum a muitas pessoas: só não a conhecem aquelas que travam aliança ofensiva e defensiva com a estúpida alegria, contra as intermitências dolorosas do espírito.
O amador ditoso tem horas de melancolia terna: essas são as melhores da sua vida. Aí dele quando o murmúrio do regato, e a cruz do ermo, e a Lua espelhada nas águas, lhe dão humedecer os olhos de dulcíssimas lágrimas!
O amante infeliz tem sezões aflitivas que o excruciam e desesperam. Para esses dois, tão diferentes no padecer, há uma só panaceia: é o coração da mulher, essa divina botica de todos os bálsamos para todas as feridas, abertas na refrega das paixões nobres.
Mas, afora a melancolia do amor, há uma outra sem causa, sem preexistência dolorosa, sem antecedentes que possam indicar ao médico da alma os meios terapêuticos.
Sentem-na aqueles mesmos que a fortuna acaricia com todos os mimos deste mundo.
É a que mata os ricaços da Grã-Bretanha e a que tortura os ricos ociosos de todas as nações, onde há Sol e Lua, onde o céu é azul e a atmosfera diáfana.
Não é costume nosso matarmo-nos quando o aborrecimento da vida nos enjoa.
Em país algum seria maior a estatística dos suicídios do que em Portugal, se o tédio nos vencesse.
E no Porto?
Deus nos livre disso!
O vestíbulo do teatro lírico seria em cada noite um cemitério; nos bailes, a cada instante, se ouviria a denotação dum tiro; as senhoras levariam cristais de ácido prússico para se matarem ao cabo da tediosa parolice do par dançante; do Jardim de S. Lázaro, aos domingos, iria o pároco levantar algumas dezenas de cadáveres; os próprios templos onde há organistas seriam borrifados de sangue suicida.
Aqui no teatro não se morre de tédio; mas abre-se a boca e buzina-se um vagido sonolento.
No baile ninguém se mata; mas devoram-se gelados para apagar o vulcão da idéia suicida, ou abarrota-se o estômago de sanduíches para que a alma bruta predomine sobre a outra, ou tresfega-se a garrafeira do dono da casa para alucinar e entreter o espírito, como coisa exótica, do ar artificial de uma estufa.
Mas estes remédios não passam de paliativos. A reação, depois, é pior. Falecida a vida de empréstimo, o espírito fica letárgico, marasmado e até inábil para exercer as funções da presidência de uma câmara municipal.
Depois do artigo de fundo, a coisa que mais brutaliza a alma é a melancolia.
O poeta, que vos encampa as suas amarguras em redondilha maior, escreveu as trovas, com ânimo folgado, no intervalo de duas orgias.
A melancolia é sorna e estéril. Camões escreveu a sua epopeia nos dias da esperança.
Quando a tristeza desanimadora o entrou, já não pôde escrever para o fidalgo, que lha pedia, uma paráfrase dos salmos.
Uma inteligência em quietismo não danifica os interesses materiais dum país, e até certo ponto pode considerar-se providencial o pousio; mas um cidadão analfabeto, embrutecido pela melancolia, se a sua qualidade civil é importante como deve ser, pode prejudicar gravemente os interesses da cidade.
Ainda bem que a melancolia raro se atreve a perturbar o funcionalismo intelectivo de certas cabeças, cuja organização é maravilha. Daí provém a traça metódica e auspiciosa com que o homem supinamente ignorante regula os seus negócios. Há nessa cabeça a perene claridade dum fundo de garrafa de cristal. As ideias impedem-lhe congeladas da abóbada craniana como as estalactites duma caverna. Dessa imobilidade imperturbável de cérebro resulta a fixidez da mira posta num alvo, a pertinácia das empresas e o conseguimento dos bons efeitos.
Ainda não vi tão cabal e logicamente explicado o fortunoso êxito de algumas riquezas granjeadas pela inépcia.
Não obstante, o número dos bastardos da fortuna é muito maior. O leitor é de certo um dos que tem em cada dia uma hora de enojo, de quebranto, de melancolia, de concentração dolorosa, de desapego à vida, de misantropia e de diálogo terrível com o fantasma da aniquilação.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Coração, Cabeça e Estômago. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1781 . Acesso em: 28 jun. 2026.